"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo
que mutilá-lo."Carl Jung

domingo, 12 de fevereiro de 2012

PEQUENAS GRANDES COISAS

Devo confessar: impressionou-me profundamente ver na televisão a entrevista que o estudante Vitor Soares Cunha deu ao sair do hospital, depois de ser agredido covardemente por jovens como ele.
Vitor, 21, aluno de desenho industrial, passeava com um colega na Ilha do Governador, no Rio, quando viu cinco rapazes bem alimentados espancando um mendigo. Filho de uma assistente social, não pensou duas vezes ao tentar impedi-los. A violência irracional voltou-se contra ele. .
Foram socos e pontapés violentos e ininterruptos, atingindo, sobretudo, a cabeça e o rosto de Vitor mesmo quando ele já estava caído no chão, totalmente indefeso.
Depois de horas de cirurgias, placas de titânio na testa e no céu da boca, 63 pinos para recompor os ossos da face e ainda com o risco de perder os movimentos do olho esquerdo, Vitor saiu com sua mãe do hospital e disse, com uma simplicidade atordoante, que não se sentia heroico e que faria tudo novamente. .
"Pelo menos uma, duas, três pessoas vão pensar alguma coisa, vão ensinar para os filhos deles. Não adianta pensar que uma atitude vai mudar o mundo, mas pequenas coisas vão mudando", declarou.
Não podemos nem devemos desperdiçar episódios, personagens e frases assim, fundamentais para reforçar que, além do Estado, dos poderosos e dos ídolos, cada um de nós tem de dar o exemplo e ter responsabilidade diante do país e do outro. Uma delas, possivelmente a mais nobre, é a de criar os filhos para o bem.
A comparação entre Vitor e seus agressores nos faz refletir. O Brasil e o mundo serão muito melhores quando pais e escolas educarem as crianças para fazer a coisa certa sem se sentirem heróis, não para se arvorarem fortes e machos ao trucidar um ser humano -ou um animal- jogado na rua, no abandono e na dor.

QUANTO FALTA PARA O COLAPSO?


Sistemas vivos passam por transições abruptas. A morte é a mais conhecida. Em um momento estamos vivos, no seguinte, mortos. Mas existem inúmeros exemplos de pontos de transição abruptos. Qual o momento em que a devastação de uma floresta a condena ao desaparecimento? Qual o número mínimo de baleias necessário para a sobrevivência da espécie? Determinar o ponto exato em que essas transições ocorrem e quão longe estamos delas é um problema ainda não resolvido.
Isso é difícil de fazer porque todos os sistemas vivos possuem mecanismos de autorregulação. Imagine que um animal coma cada vez menos; intuitivamente, sabemos que chega um momento em que ele morre. Mas determinar esse momento é difícil porque, à medida que ele come menos, ele também se movimenta menos, diminui seu metabolismo e passa a necessitar de menos alimento. Processos semelhantes tornam difícil prever o tamanho mínimo de uma população de baleias ou o abuso que uma floresta aguenta antes de desaparecer.
Por volta de 1980, foi proposta uma teoria que permite medir a distância entre o estado presente e o ponto de colapso de um sistema biológico. A ideia é que o tempo que um sistema vivo leva para se recuperar de um trauma aumenta à medida que o sistema se aproxima do ponto de colapso. Se você abre uma clareira em uma floresta virgem, ela se fecha rapidamente. À medida que a floresta se aproxima do ponto de colapso, a teoria prevê que o tempo necessário para a clareira fechar aumenta. Você tira o alimento de um animal. Se ele estiver saudável, ao ser alimentado, a recuperação é rápida. Mas, se ele estiver se aproximando do ponto de colapso, o tempo de recuperação aumenta. O mesmo princípio se aplicaria a uma população de baleias ou a um paciente na UTI.
Na prática. O problema é que essa teoria nunca havia sido testada. Agora, um grupo de cientistas demonstrou que ela funciona na prática.
O experimento foi feito com microalgas. Esses seres unicelulares necessitam de luz para fazer fotossíntese e produzir seu alimento, mas luz em excesso os mata. Para evitar o excesso de luz, eles crescem todos juntos - assim, um faz sombra para o outro. Regulando a distância entre eles (sua densidade no oceano), regula-se a quantidade de luz que recebem. Os cientistas colocaram essas algas em um recipiente de vidro em condições ideais: muitas algas por litro e uma quantidade de luz fixa.
Estabelecida a condição ótima, os cientistas adicionaram mais líquido ao recipiente, mantendo a mesma quantidade de luz incidente. Inicialmente, as algas, com menos vizinhos para diminuir a incidência de luz, diminuem sua taxa de crescimento, mas rapidamente se dividem de modo a otimizar novamente o sombreamento.
Os cientistas mediram o tempo que o sistema leva para se recuperar. Mas, antes que ele estivesse totalmente recuperado, adicionaram mais líquido, forçando as algas a se adaptar ao novo ambiente. As algas novamente se recuperaram. Ao longo de 30 dias, os cientistas foram aumentando o estresse e a cada vez as algas se recuperavam.
Mas o tempo de recuperação foi ficando mais longo. Até um momento em que eles adicionaram um pouco mais de líquido e o sistema colapsou: todas as algas morreram. Haviam atingido o ponto de transição abrupta.
Após medir a velocidade de recuperação em função do estresse aplicado no sistema, os cientistas demonstraram que é possível prever quão distante o sistema está do colapso medindo seu tempo de recuperação. Estes resultados demonstram que a teoria proposta em 1980 é verdadeira.
Nos próximos anos, é provável que diversos grupos, usando diversos sistemas biológicos, tentem demonstrar que medir a variação do tempo de recuperação permite prever quão distante um sistema vivo está do colapso. Se essa teoria for confirmada, teremos uma arma poderosa. Estudos de impacto ambiental finalmente terão um embasamento científico mais sólido e programas de recuperação ambiental poderão ter seus resultados medidos de forma objetiva.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O BICHO HOMEM

Já antes de Cristo, se dizia que "nada do que é humano me é estranho", mas foi preciso o Google para evitar que a frase continuasse sendo atribuída a Karl Marx, que de tanto repeti-la foi confundido com o verdadeiro autor, o dramaturgo da antiguidade romana Terêncio.
O que interessa agora, porém, é que, mesmo se a gente admitir não ser o homem um bicho estranho, ele não deixa de assustar.
Às vezes é difícil aceitar que sejamos todos feitos do mesmo barro, isto é, de idêntica matéria-prima. Que semelhança pode haver entre o que somos e, por exemplo, o marido que matou a mulher a facadas e em seguida repetiu o gesto consigo próprio? Ou então, como nos identificar com os cinco celerados que massacraram um jovem que tentava impedir que eles fizessem o mesmo com um mendigo? Nessas horas de perplexidade, e para aliviar nossa indignação, costumamos alegar que se trata de "animais", como se alguma besta irracional fosse capaz de premeditar tanta crueldade gratuita e covarde. Não tive tempo de consultar minha psi favorita sobre o homicídio seguido de suicídio ocorrido em Belo Horizonte.
Matar a esposa a facadas, como fez o empresário mineiro, não chega a ser novidade num país de machismo violento. Em Belém, um homem esfaqueou 15 vezes a esposa e quatro vezes o filho. Depois, tentou se matar enfiando a lâmina no pescoço e no peito. No interior paulista, outro ciumento desvairado matou a mulher a facadas e em seguida golpeou o próprio pescoço e o tórax.
Socorrido, não resistiu aos ferimentos.
O que intriga no caso de Minas é a incrível persistência com que o assassino agiu contra si mesmo. Trancado sozinho num motel, ele se esfaqueou durante horas, desafiando a dor dos golpes e o instinto de conservação.
Produziu 28 perfurações no corpo até atingir um órgão vital. Para o homicídio, a motivação foi o ciúme doentio. Mas e para o suicídio, qual a explicação? Quanto aos cinco pitboys da Ilha do Governador, cuja covardia tanto chocou, há pouco o que falar, a não ser que se trata de um crime hediondo sem qualquer atenuante e com clara intenção de matar por perversa diversão, deixando a vítima em tal estado que precisou receber no rosto oito placas de titânio, 63 pinos e enxerto ósseo. Para que a punição seja exemplar, o mínimo que merecem é a pena máxima.
Para mostrar que a Justiça não perdeu credibilidade, o ministro Cezar Peluzo, presidente do STF, citou em discurso as demandas judiciais, que em 2011 teriam superado 23 milhões de sentenças. "Se não confiasse, (o povo) não acorreria ao Judiciário em escala tão descomunal", afirmou. Mas há controvérsia. Esta semana, a Fundação Getúlio Vargas publicou uma pesquisa em que 67% das pessoas consideram o Judiciário pouco ou nada honesto. Em confiança, ele ocupa o sexto lugar, atrás das Forças Armadas, Igreja Católica, MP, grandes empresas e imprensa escrita.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

DESENVOLVIMENTO

Desde Adam Smith, os economistas têm se dedicado a encontrar a fórmula que revelaria a condição "suficiente" para a realização do desenvolvimento econômico. Após o término da Segunda Guerra Mundial, o progresso tem sido lento e, de fato, ainda não sabemos se a fórmula existe e se seria de aplicação universal.
Mesmo com o aperfeiçoamento das estatísticas, a construção de infindáveis modelos -muita matemática e econometria (às vezes com uma pitada de história)-, depois de dois séculos e meio na busca do graal cuidadosamente escondido (ou talvez apenas sonhado!), temos resultados práticos pífios.
Talvez tenhamos encontrado algumas condições "necessárias", mas não muito mais do que Adam Smith já conhecia...
Trata-se do mais importante problema a ser esclarecido pela economia. Afinal, por que na longa caminhada desde o neolítico até a segunda metade do século 18 a produção per capita cresceu num ritmo extremamente baixo? Talvez uma armadilha malthusiana. E por que sofreu uma rápida transformação depois de 1750?
Porque, a partir daí, pelo menos uma economia, a britânica, foi capaz de capturar a energia dispersa em seu território (água, madeira e carvão), auto-organizar-se com instituições convenientes e dissipá-la na produção de itens e serviços consumidos por uma população crescente.
Há alguns anos, Gregory Clark ("A Farewell to Alms", 2007) propôs uma interessante hipótese que continua gerando uma enorme literatura. A causa eficiente do desenvolvimento da Inglaterra teria sido a emergência de uma classe média, com seus valores de prudência, poupança e disposição para o trabalho.
Clark reduz o foco do desenvolvimento da "qualidade das instituições" ou, pelo menos, sugere que diferentes "instituições" podem produzir o desenvolvimento econômico.
A hipótese de Clark é compatível com a pesquisa de Acemoglu et. Al (2005) quando afirma que os ganhos do comércio exterior apropriados pelas classes médias da Holanda e da Inglaterra foram a causa eficiente do seu desenvolvimento. A contraprova desse fato foi a estagnação de Portugal e Espanha, onde os mesmos efeitos foram apropriados por uma pequena elite.
Infelizmente, não existe (e provavelmente nunca existirá) a receita que nos diga qual é a condição "suficiente" para garantir o desenvolvimento econômico.
Mas existem, sim, condições "necessárias" observadas na história e racionalizadas na economia, sem as quais ele não prosperará.
Para o Brasil, é muito bom saber que uma forte classe média é uma delas.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ADAMASTORES E COTISTAS

A UFRGS protagonizou neste início de ano duas polêmicas.
A primeira delas foi o tema da prova de redação, que abordava, em linhas gerais, o papel do idioma na formação da identidade de um país. O problema foi a utilização da palavra Adamastor no enunciado da questão, o que causou confusão aos vestibulandos e a ira de pais e intelectuais. Segundo argumentam, o jovem não está preparado para lidar com este tipo de questões. Eles estão “ligados” aos conflitos no mundo árabe ou o aquecimento global, como escreveu um pai ao jornal Zero Hora. Falar em Adamastor seria injusto, pois ninguém saberia do que se tratava.
Curioso é querer que os vestibulandos dissertassem acerca de temas complexos como as revoltas árabes e o aquecimento global, se sequer possuem a capacidade de abrir um livro de Camões ou Fernando Pessoa para, então, saber que Adamastor é um monstro mitológico que atacava as naus nos mares revoltos e que é citado na obra dos dois escritores.
Claro que nossos adolescentes não poderiam saber do que se trata. Nunca viram tal nome ser utilizado na televisão... Mas a revolta (ou primavera) árabe e o aquecimento global fazem parte da vida televisiva brasileira, mesmo que as pessoas que tratam do assunto não tenham conhecimentos mínimos para dissertar sobre eles. Sobre estes temas, uma redação de vestibular nada mais seria do que a repetição politicamente correta que é imposta por uma imprensa homogeneizada, por intelectuais imbecis e por professores militantes.
O fato é que se o tema foge da futilidade cotidiana e utiliza termos que exigem um conhecimento literário (mínimo por sinal), todos se sentem injustiçados. Pudera. Nossos estudantes não conseguem ler dois livros por ano! Ao invés de procurarem as obras clássicas da língua portuguesa por exemplo, preferem horas e horas de BBB, bailes funk, baladas e “pegação”.
São culpados? Claro que não. São apenas produtos deste nosso admirável mundo novo, onde a inversão dos padrões atinge níveis alarmantes, onde a alta cultura é discriminada e dá espaço a uma cultura popularesca, débil, desprovida de conteúdo e cada dia mais e mais imbecilizante.
Aliás, falar em alta cultura no Brasil chega a ser uma piada quando é dito que pessoas como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Paulo Coelho, dentre outros, são os seus representantes. Todos são artistas cujo conteúdo da obra é popular, muito longe de ser algo que valha a pena ser estudado e analisado para ser tomado como o suprassumo da cultura nacional (embora não nos sobre muitos outros além desses mesmos).
Antes de chamarmos a banca de "pedante" (o que na certa é verdade), convém que façamos uma crítica ao ensino escolar e ao ensino doméstico, responsáveis por despertar o interesse da criança e do jovem na leitura. Fossem leitores, e alguém que vai prestar um concurso como o vestibular precisa sê-lo, saberiam o que era o "Adamastor" referenciado na questão. Aqueles que se dedicam à leitura e ao estudo certamente não se incomodaram com o tema da redação do vestibular.
A segunda, foi a redução, sem alarde, conforme reportagem do jornal Zero Hora, da exigência para cotistas, o que fez com que o acesso de negros (ops, afrodescendentes), tivesse um aumento considerável nos cursos considerados de elite. Típica solução esquerdista: “se não podemos dar um ensino decente, diminuímos as exigências”. Tudo na surdina, claro.
O fato é que acabam entrando nas universidades, estudantes que não tem capacidade para acompanhar o conteúdo ministrado em um curso superior. A universidade se vê obrigada a ter aulas de reforço para recuperar uma falha que não deveria ter acontecido. Ademais, políticas que favorecem um grupo em detrimento de outro, quebram o princípio da igualdade. “Mas a elite tem acesso à escolas de qualidade e o pobre não”, dirão os integrantes do Fórum Social Mundial (e outros acéfalos).
Não me lembro de haver restrição à entrada de quem quer que seja em bibliotecas públicas, onde o conhecimento necessário para prestar um vestibular pode ser adquirido. Tampouco ninguém é obrigado a trocar horas de estudo por horas de diversão. Se o fazem, é porque querem. Quanto àqueles que não possuem tempo para estudar porque trabalham: para quem quer alcançar um objetivo, o esforço não pode ser medido. Basta tomarmos como exemplo, a primeira oficial de origem indígena do Exército Brasileiro, que não teve uma fagulha de cota sequer, conquistando seu lugar pelo mérito, mesmo com todas as dificuldades encontradas. É muito fácil culpar os outros pelos nossos fracassos. Difícil é buscar e lutar para alcançarmos nossos objetivos.
Não precisamos de cotas. Precisamos de um ensino de qualidade, com professores qualificados e instalações decentes. Mas nem os melhores educadores do mundo somado à melhor escola do planeta adiantarão se não retornarmos ao costume da leitura e redescobrirmos a alta cultura. Enquanto continuarmos elevando os prazeres acima da responsabilidade, estaremos trancafiados numa cela lotada de ignorantes.
Cota não é solução, é apenas uma maneira de dizermos ao jovem que ele não precisa estudar e se dedicar, pois o papai Estado estará sempre por perto para lhe dar suporte.
Criam-se, assim, gerações de profissionais e pessoas vazias, que não se importam em buscar o conhecimento, desde que possam ser chamados de bacharéis, mestres e doutores.
Eis o nosso Adamastor.

FLECHADO NO CORAÇÃO

A morte do índio peruano aculturado da tribo matsigenka, Nicolás “Shaco” Flores, flechado no coração por um índio mashco-piro, isolado, repõe o problema da dimensão trágica do encontro de culturas. A etnia de Nicolás vive no parque indígena do Rio Manu, na Amazônia peruana. Os mashco-piro, que são entre 100 e 200 indivíduos, mantinham-se isolados na mata e começaram a aparecer nas praias do rio, onde foram fotografados, aparentemente empurrados pela penetração das madeireiras, das petroleiras e das mineradoras. Estão se deslocando, portanto, para uma área devassada pela frequência de missionários, turistas e empregados das empresas nela interessadas.
Entidades de defesa dos povos indígenas, como a Survival International, têm chamado a atenção para a questão dos povos isolados nessa parte da Amazônia e da Amazônia brasileira. No lado brasileiro da fronteira do Acre com o Peru, uma tribo foi descoberta recentemente e vem sendo acompanhada. Como lembrou o sertanista José Carlos Meirelles, em entrevista à BBC, durante sobrevoo na área acreana, é preciso antecipar-se aos grupos de motivação econômica, que põem em risco a vida e a sobrevivência dos grupos indígenas isolados. Localizá-los e fotografá-los para atestar sua existência e revelá-la aos governos e à sociedade é o único modo de antecipar-se ao contato destrutivo.
Nicolás e Meirelles são personagens dessa rara estirpe que compromete a própria vida no estabelecimento de pontes de civilidade que permitam a travessia dos seres humanos que estão confinados não só na selva, mas também num outro estágio da história da humanidade. A Amazônia ainda tem 50 grupos isolados, vítimas potenciais da pouco generosa e pouco civilizada concepção que os brancos e civilizados têm de si mesmos e têm do outro, do diferente, no caso, do índio.
Há indicações de que os mashco-piro tiveram contato no século 19 com seringalistas, que deixaram em sua história marcas da violência genocida. O antropólogo Glenn H. Shepard Jr., amigo de Nicolás de muitos anos, escreveu sobre a ocorrência. O índio matsigenka conseguia comunicar-se com os mashco-piro porque era casado com uma mulher piro e com ela aprendera o suficiente da língua para estabelecer uma comunicação verbal com eles. Sua morte faz refluir o contato para estágios primitivos da complicada relação entre civilizados e indígenas.
Nicolás fizera roças à beira do território de perambulação dos mashco-piro para que eles encontrassem alimentos e foi numa dessas roças que levou a flechada . Outras mortes desse tipo ocorreram entre cidadãos dessa pequena e generosa humanidade de tecedores dos liames da condição humana, os indianistas que nos revelam ao outro para que o outro se revele a nós. Darcy Ribeiro dizia que a sociedade branca, em nossa história, tem se apresentado ao índio através dos seus piores representantes, assassinos, estupradores, bêbados, os agentes da penetração da chamada civilização nas novas terras.
Há na memória social e mítica de muitas dessas tribos isoladas evidências de problemáticos contatos anteriores. Eles criaram uma peculiar e significativa imagem dos civilizados, inscrevendo-os em suas classificações da natureza - gentes, animais e plantas. Os xavantes, do Mato Grosso, escaldados da violência que os brancos lhes impuseram, ao classificá-los em sua estrutura imaginária do cosmos, incluíram-nos na família das onças. O branco se apresentou a eles como um animal predador, que mata por matar.
Muitos habitantes da fronteira étnica entendem ainda hoje que o índio não é gente. Ouvi isso várias vezes, nos anos 70/80. Em 1911, um bugreiro negro que dirigira o extermínio de uma aldeia inteira de índios kaingang, na região noroeste do Estado de São Paulo para passagem da estrada de ferro, disse com espanto ao oficial do Exército que o interrogou: “Até parecia gente, senhor tenente!”
Não é estranho que um cacique suruí, de Rondônia, nos anos 1970, ao deparar-se com o grupo de indigenistas que procurava sua tribo para o primeiro contato, aterrorizado, ergueu a mão em gesto de paz e exclamou: “Branco, eu te amanso!”
Em 1982, Nicolás e alguns índios piro capturaram um velho mashco-piro e seu filho e os levaram à sua aldeia para mostrar-lhes os benefícios da civilização. O velho disse apenas, antes de ser devolvido à mata:
- Deixem-me em paz.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O MEDO DO FIM E O SENTIDO DA VIDA

Para um cientista que gosta do seu trabalho, a busca pelo conhecimento sobre o mundo natural é uma fonte constante de inspiração (e de transpiração!). Os cálculos, o equipamento nos laboratórios e nos observatórios e os computadores são as ferramentas que dão estrutura ao conteúdo do seu trabalho, da mesma forma que a tela, as tintas e o pincel dão estrutura à arte do pintor. Escrevo isso porque recentemente li um artigo em um blog da "Revista de Negócios de Harvard" ("Harvard Business Review") em que o autor, Umair Haque, pergunta o que traz sentido à vida.
No mesmo dia em que li o artigo de Haque, assisti pela internet uma palestra de Anthony Aveni, uma autoridade mundial em arqueoastronomia, especialista nos maias. O tema tratava da famosa "previsão" de que no dia 21 de dezembro de 2012 o calendário Maia acaba e, com ele, o mundo.
Aveni demonstrou a falácia dessa história examinando a "evidência": uma simbologia que deve ser interpretada do mesmo modo que outros fins de calendário dos maias e de outras culturas.
Em termos de causas cósmicas, não há qualquer motivo para alarme. Alinhamentos planetários como o previsto para o fim do ano são irrelevantes e já ocorreram diversas vezes. Só como exemplo, as marés são causadas principalmente pela Lua e pelo Sol. O efeito de Vênus, o planeta mais próximo da Terra, sobre as marés é menor do que um milésimo de centímetro.
Mais interessante é a origem do medo apocalíptico e o modo como ele ocorre em diversas culturas. Isso já foi examinado por Marcelo Gleiser no livro "O Fim da Terra e do Céu"* (Cia das Letras, 2001). Aqui, voltamos ao ponto levantado por Haque. Será que o medo do fim reflete um temor de ter desperdiçado a vida? De que ao chegarmos ao fim da linha não teremos nada que nos fará olhar para trás com um senso de realização.
Haque foca seu artigo na busca por algo que dê sentido e valor à vida. Afirma que perdemos tempo demais com trivialidades e que, por isso, julgamos levar uma existência vazia. Deveríamos, sugere, investir mais em criar algo que sobreviva ao "teste do tempo". Para ele, o sentido da vida está no seu legado.
Somos criaturas limitadas pelo tempo, com um início e um fim. O medo do fim, ao menos em parte, vem da falta de controle sobre a passagem do tempo. Não sabemos quando o nosso fim pessoal chegará. Então tentamos manter nossa presença mesmo após não estarmos mais presentes fisicamente. Isso porque só deixaremos de existir quando formos esquecidos. (O que você sabe do seu tataravô ou de outro parente do passado distante?)
Não há nada de elitista nesse legado. Não precisa ser um Nobel, uma sinfonia ou um poema imortal. Ser devoto à família, criar uma receita que passa de geração em geração, melhorar a vida de alguém, inspirar estudantes, tudo dá sentido à vida. A dificuldade dessa discussão está na questão do valor. O que tem valor para mim pode não ter para você e vice-versa.
O que importa é o que se faz com a vida que se tem e não com a vida que um dia não vai existir mais. Se temos saúde, a coisa mais importante é a liberdade. Ser livre é poder escolher ao que se prender. Com apocalipse ou não, uma vida bem vivida será sempre curta demais.