"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo
que mutilá-lo."Carl Jung

domingo, 29 de janeiro de 2012

NOTAS SOBRE A CRACOLÂNDIA

Alguns amigos, que perdem seu tempo lendo estas linhas, pediram que eu me posicionasse sobre a operação policial que tenta acabar com a cracolândia de São Paulo.
Aqui vão três posicionamentos. 1) Sou contra violência e abusos repressivos (em tese, o governo também é). 2) Com ou sem internações não voluntárias, com ou sem a boa vontade de ONGs e igrejas, só uma ínfima parte dos drogados desistirá do crack e da errância pelas ruas da cidade. 3) E enfim, em tese, sou a favor do projeto de acabar com a cracolândia, mas não me orgulho disso, por duas razões: a primeira é que tenho carinho pelas sarjetas urbanas e ainda sinto falta da Times Square de Nova York nos anos 1990; a segunda pede uma explicação mais longa.
A operação cracolândia e o debate que a acompanha na imprensa ilustram as dificuldades do poder na modernidade. Num dos seus melhores seminários (o de 1975, "Os Anormais", Martins Fontes), Foucault mostra que esse poder oscila entre dois modelos: o da lepra e o da peste. Os diferentes e infratores podem ser retirados da circulação, fechados na prisão, na colônia agrícola, no antigo asilo.
Esse é o modelo adotado para a lepra; ele segrega no lazareto. Mas, às vezes, os diferentes e infratores, muito numerosos, espalham-se pelo tecido social de forma que sua segregação seria improvável. É o que acontecia no caso da peste.
Os contaminados, então, não eram fechados em lazaretos afastados, mas a cidade era dividida em quadras, que eram vigiadas por, digamos, agentes sanitários: os doentes eram proibidos de deixar seu domicílio, e o governo administrava a vida (e a morte) deles dentro de suas próprias casas.
O modelo da peste tinha duas vantagens: ele permitia gerir intimamente a vida concreta das pessoas, e sua motivação aparente era nobre: "curá-las". Por isso, aliás, ele contaminou o modelo da lepra: quase não há mais detenção (modelo da lepra) que não cultive a ilusão de que ela será, para o detento, uma ocasião de redenção ou de cura (modelo da peste).
Hoje, podemos ser infratores e incômodos, mas raramente somos "ruins" e irrecuperáveis: seremos emendados pelos bons cuidados da sociedade, pois, de fato, éramos (ou melhor, estávamos) apenas "doentes". Será que este modelo nos deixa mais livres? Engano. Atrás da face indulgente do poder que se inspira no modelo da peste (o infrator estava doente, não fez por querer, está "desculpado"), esconde-se uma face especialmente tirânica: qualquer ato dissonante é reconhecido não como fruto de rebeldia ou originalidade, mas como efeito de uma patologia. Você é contra? Você é diferente? Pois bem, você está doente. Não há mais dissenso - só enfermos e loucos.
Voltemos à cracolândia. Talvez a toxicomania, uma vez instalada, seja uma espécie de doença. Mas a escolha inicial de se engajar na droga, será que é uma doença? Consideraremos doente (por alguma disfunção do córtex pré-frontal, por exemplo) qualquer sujeito que não se autorregule como a gente?
Anos atrás um amigo, jovem psicanalista, no norte da França, se ocupava de adolescentes "problemáticos" pelas drogas que consumiam, pela desistência escolar, por uma criminalidade difusa e pela violência contra os adultos que se opunham a suas vontades.
Alguns eram filhos de excluídos, outros inventavam uma marginalidade própria, não herdada. Um desses jovens escutou pacientemente enquanto este meu amigo tentava convencê-lo a frequentar as sessões de terapia e a aceitar a ajuda de uma assistente social, que facilitaria sua reinserção. Quando acabou, o jovem lhe disse, pausadamente, olho no olho: "O que lhe faz pensar que eu queira ter uma vida parecida com a sua?".
Conclusão. Podemos tentar curar os "noias", ou seja, esperar suprimi-los de um jeito mais radical do que apenas prendendo-os. De qualquer forma, agimos porque os achamos insalubres para nós.
E peço que ninguém pretenda me convencer que a dita cura, à diferença da segregação ou das porretadas, seria para o bem (ou para a dignidade) deles. Detalhe. Originalmente, os modelos da lepra e da peste foram maneiras diferentes de lidar com o risco de um contágio.
Quando tentamos "curar" vagabundos ou drogados talvez estejamos também reagindo ao risco de um contágio pelas margens sociais. Como assim? Nunca estamos realmente convencidos de que temos razão de sermos bem pensantes e bem comportados. "Curar" à força os perdidos da cracolândia nos ajuda a evitar a sedução que sua "noite suja" exerce sobre nós.

sábado, 28 de janeiro de 2012

ENEM? AH, NEM!

Estive lendo nos jornais sobre a coletânea de absurdos que o tal Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM já produziu. Desvio de provas, banco de questões insuficiente, seletividade ideológica, incompetência, fraude, negligência, facilitações, e por cima de tudo, o mais vetusto analfabetismo (digo dos professores e organizadores: da massa de alunos nem sequer comento...)
Conclusão? Nada surpreendente, para certo alívio ao Sr Fernando Haddad. Se incompetência tem havido em sua gestão, melhor será resumi-lo ao modelo que escolheu. Não que esteja eu a defendê-lo, mas o caso é que, quem quer que venha em seu lugar, cometerá mais ou menos os mesmos erros ou quiçá, até piores. Simples assim.
Por causa da mais extrema babaquice esquerdista-petista, para um módico exame escolar é necessário colocar em operação um dispendiosíssimo aparato que se assemelha em vulto ao realizado pelo sistema judiciário eleitoral, mas que lhe ultrapassa em muito em complexidade.
Sim, caro leitor, porque com o sufrágio universal a complicação envolve a contagem dos votos e em alguns casos, a discussão sobre a elegibilidade de um ou outro candidato. Já com o Enem cada uma das questões tornar-se-á objeto de contenda, isto sem dizer sobre o vazamento de informações e o problema com impressão e distribuição de material. A quantidade de informação produzida é tal que somente uma gigantesca comissão de revisão poderá atender à demanda, e levando em conta que é humanamente impossível a um só grupo atender a todos os requerimentos, isto significará a possibilidade de haver disparidades, pois que diferentes estudantes terão suas provas revisadas por diferentes subgrupos.
Uma indústria será criada em torno do exame: os professores que tiverem formulado questões serão guindados à condição de celebridades supremas, e elaborarão livros e cursos “on line”; as escolas particulares pagarão salários altíssimos para descobri-los e contratá-los. Suas convicções pessoais sobre temas não objetivos serão promovidas a verdades incontestáveis. Será criada uma jurisprudência escolar!
As dimensões colossais do Enem propiciarão a multiplicação das fraudes, porque serão mais convidativas, dado que os ganhos de escala estimularão as técnicas ilícitas mais arrojadas, que por sua vez exigirão os cuidados mais apurados por parte dos fiscais, o que aumentará mais ainda os custos dos eventos. Na esteira, entrarão em cena as polícias estaduais e a Polícia Federal, os promotores e o Ministério Público e o Poder Judicial, cada qual com o seu poder de emperrar um pouco mais todo o processo.
Aff, e dizer que minhas dúvidas de redação eu resolvia com a minha professora...
Enfim, não há uma solução razoável para este dinossauro estatal, a não ser virar fóssil. Entretanto, isto significa o extermínio do próprio MEC e de seu crucial objetivo de tomar as crianças dos seus pais para formatarem seus cérebros e embutirem neles o programa operacional do marxismo petista.
Isto significa que somente uma grita geral da população poderá dar um fim a este procedimento caríssimo e absolutamente desnecessário. Já passa da hora!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

PRIORIDADES

É consenso entre os brasileiros que os investimentos em educação, ciência e tecnologia são fundamentais para a realização das aspirações geopolíticas brasileiras.
Nesse sentido, o governo sofre cada vez mais pressão para aumentar seus gastos com o financiamento de pesquisas universitárias.
No entanto algo de sintomático acontece na definição das prioridades de pesquisa das agências de fomento como CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e outras.
De fato, todas elas sustentam a tradição brasileira de não negligenciar nenhum setor do conhecimento, seja nas áreas de humanas, exatas ou biológicas. Esta é uma tradição louvável e importante. Mas, quando é questão de definir quais são os tópicos que, do ponto de vista governamental, devem receber prioritariamente investimentos, tudo se passa como se a área de humanas pudesse ser soberanamente negligenciada.
O CNPq, por exemplo, tem um interessante programa de financiamento de bolsas de doutorado e mestrado no exterior chamado "ciência sem fronteiras". Entre outros, um de seus objetivos é o de : "investir na formação de pessoal altamente qualificado nas competências e habilidades necessárias para o avanço da sociedade do conhecimento". Um bom objetivo que pressupõe a amplitude necessária para o país levar em conta suas múltiplas necessidades.
Porém, quando nos voltamos para as áreas prioritárias, não encontramos nada referente às ditas humanidades. Seriam elas menos relevantes para o desenvolvimento nacional? Quem em sã consciência diria que o estudo sobre as causas e ações possíveis contra a violência urbana é menos prioritário do que o estudo da biotecnologia? Ou que a reflexão sobre a natureza da noção de "sofrimento psíquico" com seus modelos de intervenção clínica é menos prioritária que pesquisas sobre fármacos? Ou ainda que a pesquisa sobre o impacto da publicidade em nossas crianças ou sobre as violações dos direitos humanos na ditadura militar não tem a mesma importância que estudos sobre biodiversidade e bioprospecção? No entanto nenhum dos primeiros tópicos foi contemplado como prioridade.
Por trás disso, encontramos a crença bizarra de que as prioridades com impacto mais direto no desenvolvimento industrial são as verdadeiras prioridades. Melhor seria olhar para as limitações da vida social brasileira. Isso faria mais justiça às contribuições que as humanidades podem dar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

SAUDADE DO TED BOY MARINO


Alguma coisa aconteceu no coração do Brasil quando acabaram com as lutas de "catch". Elas eram um sucesso na TV e seus astros viajavam em caravanas pelo País, apresentando-se em ginásios e circos. As lutas não eram lutas, eram teatro. Não eram exatamente combinadas, mas seguiam um roteiro estabelecido e havia um acordo tácito de que ninguém sairia do ringue machucado, mesmo que saísse arremessado. O roteiro básico não variava: era os bons contra os maus, e os bons sempre ganhavam. Ou só perdiam quando o adversário traiçoeiro recorria a um golpe especialmente baixo, sob uivos de raiva da plateia. E a reação da plateia fazia parte do teatro. Havia uma suspensão voluntária de descrença, e todos torciam pelo Bem contra o Mal - ou pelo bonito contra o feio, o esbelto contra a barrigudo, o correto contra o falso - com um fervor que não excluía a consciência de que era tudo encenação.

Era fácil distinguir os bons e os maus. Os bons eram atletas como o Ted Boy Marino, caráter tão irretocável quanto os seus cabelos loiros, que lutava limpo. Os maus tinham nomes como Verdugo e Rasputin, e comportamento correspondente ao nome. Lembro de um Homem Montanha, que mais de uma vez derrubou o juiz junto com o adversário. E não havia um Tigre Paraguaio? Os bons geralmente começavam apanhando e, quando parecia que estavam liquidados e que o Mal triunfaria, vinha a eletrizante reação, durante a qual o inimigo pagava por todas as suas maldades. Humilhação e vingança, nada na história do teatro é tão antigo e tão eficaz. Nove entre dez novelas de televisão têm o mesmo enredo.

Não sei se ainda fazem espetáculos de "catch" pelo interior do País. Hoje na TV o que se vê é o "ultimate fighting", ou "mixed marital arts", dois lutadores simbolizando nada trocando socos e pontapés sem simulação, quando não se engalfinham no chão como um bicho de duas costas e oito patas em convulsão. Nessas lutas não vale, exatamente, tudo - parece que esgoelar o outro e xingar a mãe não pode. Mas é o "catch" despido da fantasia, com sangue de verdade. Não há mais mocinho e vilão, apenas duas máquinas de brigar, brigando. Nem Ted Boy Marino nem Homem Montanha, apenas a violência em estado puro. Sei não, acho que empobrecemos.

EMBAIXO DO EDREDOM DO "BBB"


Na madrugada entre sábado e domingo retrasados, o "brother" Daniel Echaniz, 31, e a "sister" Monique Amin, 23, deitaram-se numa cama do "Big Brother Brasil 12". Ao que parece, ambos estavam para lá de Bagdá.
Graças a câmaras hipersensíveis, os assinantes do "BBB" 24 horas entreviram assim uma movimentação sugestiva debaixo do edredom de oncinha que cobria Daniel e Monique. Alguns se indignaram porque, aparentemente, Daniel se agitava, enquanto Monique ficava parada.
Mais tarde, Monique disse se lembrar de beijos e amassos, e só: se Daniel tivesse feito mais, ele seria "mau-caráter", pois ela tinha desmaiado. Daniel afirmou que não houve relação sexual. Mesmo assim, ele foi expulso do "BBB" por "comportamento inadequado" e encara agora, "no mundo real", uma acusação de estupro (caso seja provado que ele transou com Monique enquanto ela estava inconsciente).
Certa vez, viajando por Madri, meti na cabeça que queria assistir todas as touradas que pudesse.
Não é que eu fosse um "aficionado" da cruel e requintada arte de tourear; eu só queria ver sangue na arena, esperava que, ao menos uma vez, o touro enfiasse seu corno na pança do toureador. Depois de um mês vendo cavalos de picador sendo feridos, tive "sorte": vi um toureador esventrado por um majestoso Miúra, da Andaluzia.
O espectador do "BBB" não é diferente de mim naquela temporada espanhola, e a Globo, no caso, aposta em sua curiosidade um pouco mórbida: a possibilidade que haja comportamentos inadequados é a razão para alguém ficar acordado de madrugada, assistindo ao "BBB" 24 horas. Tanto faz, você dirá: que os espectadores queiram comportamentos inadequados ou se indignem por causa deles, de qualquer forma, Daniel teria ido longe demais -transar com uma mulher inconsciente é crime.
Concordo. Mesmo assim, quando li que a polícia tinha indiciado Daniel, achei bizarro, como se as forças da ordem se metessem num palco de teatro ou num set de cinema, para prender um ator que teria realizado o crime previsto no roteiro.
Espere aí, alguém objetará, o "BBB" não é uma ficção! Esse, de fato, é o argumento de venda de todos os reality shows. No entanto, segundo, por exemplo, Scott Stone (roteirista de "The Mole", "The Man Show" etc.), os reality shows, antes de serem escrotos, são, sobretudo, escritos. Obviamente, eles não seguem um roteiro acabado, com cenas e diálogos detalhados, mas se alimentam numa sinopse escrita de situações, conflitos e alianças desejáveis entre personagens.
Daniel e Monique podem não ser atores, e o episódio do edredom pode não ser dramaturgia. Mesmo assim, as ações entre "brothers" e "sisters" do BBB não são propriamente "realidade".
No mínimo, os reality shows são parentes da "commedia dell'arte": improvisações a partir de um "canovaccio" (roteiro rudimentar), com personagens escolhidos porque eles correspondem às máscaras estereotipadas das quais o "canovaccio" precisa. De muitas dessas máscaras, aliás, espera-se que produzam comportamentos inadequados.
Então, se Daniel for acusado e processado, o "BBB" deveria ser acusado e processado com ele, por instigar o crime, ou seja, por ter, de uma certa forma, "roteirizado" o suposto estupro de Monique.
Em suma, a "realidade" produzida pelos "reality shows" é duvidosa, e considerar crime o "comportamento inadequado" de Daniel não é muito diferente de a polícia invadir o set de "Dormindo com o Inimigo" para salvar Julia Roberts e prender Patrick Bergin, o marido espancador.
Mas talvez eu esteja me preocupando por nada; talvez, nessa confusão entre realidade e ficção, a chegada de polícia e procuradoria ao "BBB" seja apenas mais um artifício dramático, para convencer o público de que o show é mesmo "de verdade".
Bom, nesta semana, além de Daniel e Monique, tivemos a grávida de quadrigêmeos factícia e a Luiza que está no Canadá. Não sei se Daniel e Monique se darão mal ou bem. Luiza ganhou vários contratos comerciais "reais". Resta que a mulher dos quadrigêmeos pode ser acusada de falsidade ideológica.
Será que é justo? Ela inventou uma história, que se tornou pauta e nos entreteve. Ganhou um dinheiro com isso? E por que não? Afinal, foi menos do que ganha um ficcionista médio.
Seja como for, os cronistas de humor brasileiros são sortudos: sem querer desmerecer seus talentos, é óbvio que o mundo (ou é só o Brasil?) faz de tudo para facilitar o trabalho deles.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

AS LIÇÕES DE CHURCHILL

Winston Churchill faleceu no dia 24 de janeiro de 1965. Este artigo é uma homenagem a este que foi a figura política de maior destaque no século 20. Liderança inquestionável nos turbulentos anos 40, Churchill foi o maior responsável individual pela derrota nacional-socialista na Segunda Guerra Mundial. Não é pouca coisa.
De sua longa vida, podem-se tirar diversas lições importantes. Superação é uma das primeiras palavras que vêm à mente. A quantidade de adversidades e obstáculos que surgiram em seu caminho apenas fortalece o mérito de suas conquistas. Churchill não era de desistir, e usava cada tropeço para se reerguer com mais determinação ainda. Para ele, sucesso era a habilidade de sair de um fracasso para outro sem a perda do entusiasmo.
Como todo ser humano, Churchill tinha suas falhas e contradições. Nem sempre foi correto, e errou em suas previsões em importantes situações. Mas todos estes defeitos servem para torná-lo mais humano, e não eclipsam de forma alguma seus tantos acertos, fundamentais para preservar a liberdade naqueles ameaçadores anos.
Uma de suas maiores qualidades como estadista era seu realismo. Enquanto muitos preferiam o falso consolo de esperanças ingênuas, Churchill analisava os fatos com maior frieza. Como escreve Paul Johnson em sua biografia, “Churchill era realista o bastante para perceber que as guerras aconteceriam e, por mais terríveis que fossem, ele preferia vencê-las a perdê-las”. Ele sabia ser pragmático quando necessário, mas sua essência era basicamente a de um liberal, defensor da democracia e também do livre mercado.
Sobre a democracia, aliás, Churchill tornou famosa a ideia de que se trata do pior modelo político, exceto todos os outros. Ele era realista o suficiente para não esperar escolhas democráticas fantásticas, e costumava dizer que o melhor argumento contra a democracia era uma conversa de cinco minutos com um eleitor médio. Esta postura cética é importante para limitar os estragos que podem ocorrer com o abuso de poder do governo, mesmo sob regimes democráticos.
Nas grandes batalhas do século 20, tanto ideológicas quanto físicas, Churchill esteve do lado certo. Ele abominava os monstros aparentados: o comunismo, o nazismo e o fascismo. Considerava a tirania bolchevique a pior de todas. Chegou a afirmar que “o vício intrínseco do capitalismo é a partilha desigual do sucesso”, enquanto “o vício intrínseco do socialismo é a partilha equitativa do fracasso”.
Ainda assim, soube fazer concessões práticas quando a própria sobrevivência dos valores ocidentais estava em jogo. Até mesmo com Stalin ele costurou um pacto para derrotar Hitler, após este trair o ditador soviético. Para Churchill, se Hitler invadisse o inferno até o diabo mereceria ao menos uma palavra favorável.
Churchill havia lido “Mein Kampf” e, ao contrário de tantos que consideravam Hitler apenas um aventureiro iludido, ele acreditou em suas promessas. O “pacifismo” era o credo da moda, mas Churchill soube enxergar melhor a realidade. Isso fez com que a Inglaterra estivesse preparada quando o inevitável ataque nazista ocorreu. O papel de liderança exercido por Churchill neste momento de vida ou morte foi crucial para a vitória inglesa. “Nós nunca nos renderemos”, enfatizou em seu famoso discurso.
Ele era a “personificação do entusiasmo”, como explica Johnson. Sua retórica não era, entretanto, vazia, e suas ações incansáveis colocavam em prática sua mensagem. Sua coragem na liderança da máquina de guerra inglesa comprovava sua fala. Sua confiança era contagiante, e sua determinação, inspiradora. Segundo o historiador Paul Johnson, seria legítimo dizer que Churchill realmente salvou a Inglaterra (e, portanto, o Ocidente).
Além das medalhas militares, Churchill publicou quase 10 milhões de palavras em discursos e livros, pintou mais de 500 telas, construiu pessoalmente boa parte de sua propriedade particular, foi membro da Royal Society, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, foi exímio caçador e jogador de pólo, criou cavalos vencedores e consumiu espantosa quantidade de champanhe, em companhia de seus charutos. Era muito espirituoso, com incríveis tiradas dignas de uma mente rápida e sagaz.
Para Paul Johnson, a vida de Churchill passa ao menos cinco lições importantes: pense sempre grande; nada substitui o trabalho árduo; nunca deixe que erros e desastres o abatam; não desperdice energia com coisas pequenas e mesquinhas; e, por fim, não deixe que o ódio o domine, anulando o espaço para a alegria na vida. Belas lições!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

'VADA A BORDO, #&%@!'

Novo mote na praça. Sai "Menos a Luiza, que está no Canadá" (até porque ela está de volta) e entra "Vada a bordo, cazzo!". O resto do mundo não tomou conhecimento do bordão paraibano, febre na internet de fala portuguesa, mas a curta e grossa ordem do comandante da Capitania dos Portos de Livorno ao capitão do Costa Concordia já estampa até camisetas ucranianas. Sempre na versão original, eufonicamente insuperável. Experimente: "Volte já pro navio, cacete!" Não tem o mesmo efeito.
Em determinadas situações, nada compete com a arrebatada língua italiana. Palavras como "disgraziato" já vêm com um ponto de exclamação embutido. Operístico e tragicômico, quase tudo em italiano parece subir pelas paredes e descambar para a galhofa. "Disgraziati!" foi o que Fabiola Russo, mulher de Francesco Schettino, o capitão do sinistrado navio, berrou para os repórteres e paparazzi que se acotovelavam à porta da casa do casal, em Meta di Sorrento, na província de Nápoles. Já vimos a cena um sem-número de vezes no cinema.
Nem a xingação de Fabiola nem a solidariedade de parentes, vizinhos e amigos ("é um grande sujeito", disseram uns, "sempre pronto a ajudar o próximo", afiançaram outros, "o que estão fazendo com ele é uma infâmia, uma crueldade, um linchamento midiático", protestou dom Genaro Starita, pároco da cidade, "ele ajudou a salvar milhares de passageiros", socorreu-lhe uma amiga moldávia, testemunha ocular da colisão) conseguiram aliviar a barra do capitão, que antes mesmo de admitir sua barbeiragem já fora arrastado pela mídia ao Gólgota da difamação.
Um canal de televisão atribui-lhe "traços lombrosianos"; outro comparou-o maliciosamente ao comandante da antiga telessérie O Barco do Amor; um colunista de província, pegando carona na invectiva de um procurador, tachou Schettino de "scellerato". Estava armada a catarse de um povo que o atual arrocho econômico tornou ainda mais propenso à histeria.
O desastre em si, simbolicamente enriquecido pela evocativa imagem do navio a soçobrar (que nem a Itália, que nem o euro, que nem a União Europeia), foi relativamente modesto em número de vítimas: 11 mortos e 21 desaparecidos. Só o transatlântico italiano Andrea Doria, naufragado a caminho de Nova York em 1956, levou para o fundo do Atlântico 51 pessoas, estatisticamente irrisório se comparado ao naufrágio do Titanic (1.517 desaparecidos), para não mencionar os campeões da categoria: Doña Paz (1987, Filipinas, 4.375 mortos), MV Le Joola (2002, Costa de Gambia, 1.863) e o vapor Sultana (1865, Rio Mississippi, 1.800).
Uma catarse com direito a vilão e herói claramente definidos: Schettino, o bode expiatório para desafogar uma raiva coletiva recalcada há não sei quantos anos, e Gregorio Di Falco, comandante da Capitania dos Portos de Livorno, o oficial imaculado para aplacar a honra ferida da coletividade - o italiano mau, "vigliacco", e o italiano bom, eficiente
"Io sono Di Falco" (Eu sou De Falco) virou brado na blogosfera, a propagar um equívoco que o próprio comandante apressou-se em desfazer. "Só cumpri com meu dever", reiterou várias vezes o autor de "Vada a bordo, cazzo!". Como Di Falco não arriscou sua vida, o sine qua non do heroísmo, o único herói do resgate aos passageiros do Concordia acabou sendo aquele comissário de bordo que, mesmo ferido na perna, continuou salvando gente.
Segundo o jornal La Stampa, de Turim, Schettino e Di Falco nunca se toparam. Temperamentos conflitantes. O primeiro é extrovertido, bon vivant, gozador; o segundo, tímido, arredio, certinho. Dionísio e Apolo. Eis um contraste na medida para o fino olhar de Umberto Eco, que ainda não se manifestou a respeito do desastre, mas é provável que o faça em sua próxima coluna na revista L'Espresso, comparando Schettino, suponho, não a Berlusconi mas ao desertor Henry Fleming de O Emblema Vermelho da Coragem, de Stephen Crane, e a Lord Jim, o conflituoso homem do mar criado por Joseph Conrad.
Fleming e Jim são os dois mais notórios paradigmas da covardia que o imaginário criou nos últimos 120 anos, com ligeira vantagem para o personagem de Conrad: Jim, afinal, também abandonou os passageiros de um navio à própria sorte no meio de uma viagem. Todos se salvavam, menos Jim, que, transformado em bode expiatório de um delito com vários culpados, passava o resto da vida tentando purgar sua culpa nos cafundós da Malásia.
Um segundo vilão veio à tona na tragédia anunciada do Concordia: o prefeito da Ilha Giglio, Sergio Ortelli. É o maior incentivador dos shows de exibicionismo que os colossais cruzeiros turísticos costumam fazer a uma distância temerária da costa, com todas as luzes acesas e sirenes a mil decibéis, para ele, "um espetáculo inigualável" e "uma tradição indispensável", disse-o por e-mail ao comandante do Concordia, em agosto. A revista alemã Der Spiegel revelou o e-mail; o diário italiano Corriere della Sera pespegou-lhe o apelido de "magnetizador de cruzeiros" (que, obviamente, soa melhor no original, "sindaco acchiapa navi da crociere").
Há fortes interesses eleitoreiros em jogo nas relações entre os políticos italianos, sobretudo dos prefeitos, e as empresas de navegação turística. Se Schettino tem partes com Lord Jim, Ortelli lembra o prefeito do filme O Tubarão, que se recusava a suspender o banho de mar em suas praias para não afetar o afluxo de turistas. Depois do desastre do dia 13, Ortelli não falou mais em "tradição", que não é uma exclusividade da Ilha de Giglio nem do Tirreno, mas uma praga de toda a costa italiana, tema, aliás, de um recente dossiê da L'Espresso, pautado pelo estrago ambiental que mastodontes do porte do Concordia (59 m de altura, 294 m de comprimento, 3.800 passageiros) e até maiores vêm causando à Lagoa de Veneza. Ano passado, 800 navios dessa envergadura despejaram 2 milhões de turistas em Veneza, provocando o mesmo impacto que 11 milhões de automóveis causariam ao meio ambiente. De que adianta proibir a circulação de veículos dentro de Veneza se os seus maiores danos vêm pelo Adriático?