"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo
que mutilá-lo."Carl Jung

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Insistem no erro - Insisto no alerta

A tática do governo, quando cai um integrante crivado pela corrupção, é considerar “café requentado” o que se comenta dele pós-tombo. Se alguém insiste em criticar um programa oficial, logo recebe o epíteto de “monotemático”. Como se a queda do cargo implicasse decadência do crime, não do delinquente; e pretender mudança de rumos numa política pública danosa fosse simplesmente “chatice dos cricris”. Pois o Palácio do Planalto pode aguentar que vou permanecer combatendo o dirigismo cultural, a doutrinação, enfim, o sistema que quer na cabeça dos jovens não conhecimento, mas uma boina com estrelinha. Os exames nacionais (Enem, Enade, Prova Brasil) recrutam militantes, como tantas vezes já denunciado, e há problemas também nos vestibulares das federais. Os mais recentes da Universidade de Brasília, como o 2011/2, mostram que a reitoria não está ali para brincar, mas para filiar. Seu serviço é legitimar o que o senhorio apregoa. Integrantes do governo distribuíram obras escolares ensinando a destruir a inculta e última Flor do Lácio, e confirmaram que o certo é se expressar errado. Restava à UnB completar o ciclo. Ou seja, quem conviveu com o equívoco no ensino médio se reencontra com ele na entrada da faculdade. Além de seis questões averiguando se o candidato concorda que o Português foi implantado no Brasil a marretadas, desrespeitando a fala de índios e o idioma dos imigrantes, vem a redação. Para se encaixar no tema, é preciso explicar que “a língua de um povo não se faz com preconceito nem com prescrição”. Tirou nota máxima quem reverberou os sons do Programa Nacional do Livro Didático. Afinal, é preconceito corrigir quem afirma “nóis vorta cum pêche”, conforme prescreve o politicamente correto. Falha igualmente ao fingir que avalia. O aluno estuda dia e noite sonhando com a UnB e encontra dez assertivas sobre instrumentos musicais egípcios e o pandeiro como membranofone e idiofone. Coitado de quem ignora a expressão facial no teatro “nô” e do trabalho corporal da arte cênica “kabuki”. O que essa vastidão de sabedoria tem a ver com a atuação dos acadêmicos de saúde e engenharia, nada foi dito nem perguntado. O restante dos textos imitou Enem e Enade: fazendeiros estão detonando (e não alimentando) o mundo e “índio em área demarcada assegura a biodiversidade dos ecossistemas” (vende a madeira e mata os bichos, mas tudo bem). Os próximos vestibular e Programa de Avaliação Seriada da UnB serão no início de dezembro. Está feito mais um alerta, apesar de o governo querer que esqueçamos. É outro estratagema que está falhando: mesmo submetidas à doutrina, as vítimas acabam de derrubar no voto os vassalos do esquema, mostrando que a instituição quer ser um lugar de aprendizado e pesquisa, não de cartilha e comício.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Displicência e Imprudência do Brasil na questão da Amazônia

Agora que o governo resolveu oficializar o desmembramento da Amazônia, oferecendo a terra sagrada a quem “pagar mais”, temos que voltar ao assunto, e com URGÊNCIA. Para isso nada melhor do que lembrar, repetir e republicar o que alguns bravos militares que conhecem a Amazônia a fundo falaram, escreveram, protestaram revoltados. Peço que se leia com atenção o que o coronel Figueiredo lembrou na ABI, mostrando como o mundo inteiro está esperando ganhar o Prêmio Nobel da Cobiça com o nosso território. E nós, ouvindo calados, com exceção de algumas vozes. 1981 – “A Amazônia é um patrimônio da humanidade. A posse desse imenso território pelo Brasil, Venezuela, Peru, Colômbia e Equador é meramente circunstancial”. Conselho Mundial de Igrejas Cristãs. 1983 – “Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas externas, que vendam suas riquezas, seus territórios, suas fábricas”. Margareth Thatcher, ex-primeira-ministra da Grã-Bretanha. 1989 – “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles mas de todos nós”. Albert (Al) Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos. “O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia”.François Mitterrand, ex-presidente da França. 1992 – “As nações desenvolvidas devem estender o domínio da lei ao que é comum de todos no mundo. As campanhas ecológicas internacionais sobre a região amazônica estão deixando a fase propagandística para dar início a uma fase operativa que pode definitivamente ensejar intervenções militares diretas sobre a região”. John Major, ex-primeiro-ministro da Grã-Bretanha. “O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes”. Mikhail Gorbachev, ex-presidente da Uniâo Soviética. 1994 – “Os países industrializados não poderão viver da maneira como existiram até hoje se não tiverem à sua disposição os recursos naturais não renováveis do planeta. Terão que montar um sistema de pressões e constrangimentos garantidores da consecução de seus intentos”. Henry Kissinger, Ex-Secretário de Estado dos EUA. 1996 – “Atualmente avançamos em uma ampla gama de políticas, negociações e tratados de colaboração com programas das Nações Unidas, diplomacia bilateral e regional de distribuição de ajuda humanitária aos países necessitados e crescente participação da CIA em atividades de inteligência ambiental”. Madeleine Albright, secretária de Estado dos Estados Unidos 1998 – “Caso o Brasil resolva fazer um uso da Amazônia que ponha em risco o meio ambiente dos Estados Unidos, temos de estar prontos para interromper este processo imediatamente”. General Patrick Hugles, chefe do Órgão Central de Informações das Forças Armadas dos EUA 2005 – “A Amazônia e as outras florestas tropicais do planeta deveriam ser consideradas bens públicos mundiais e submetidas à gestão coletiva, ou seja, gestão de comunidades internacionais”. Pascal Lamy, comissário da União Européia na Organização das Nações Unidas PS – Tudo que está publicado aí foi dito com bravura e competência pelo coronel Figueiredo na ABI. Não pedi autorização a ele, ao jornalista Mauricio Azedo, nem a ninguém, porque a luta não é individual e sim coletiva. Só com esforço redobrado, triplicado e atento podemos sair vitoriosos. PS 2 – Não custa repetir Charles Dickens em 1911: “Sou antiimperialista e apaixonado pela paz. Mas irei à guerra se invadirem o meu país”.

domingo, 27 de novembro de 2011

Da civilização helenística, os gregos conservaram viva uma tradição, a da tragédia

Acabou-se de concluir um acordo europeu muito favorável aos gregos, inesperado mesmo: o governo socialista de George Papandréou fez uma mudança de curso intrigante ao anunciar um referendo inesperado. Referendo que não vai acontecer, mas a questão permanece. Estavam preparados para que os gregos celebrassem a renúncia de metade de sua dívida, com poquíssimas condições incômodas. Que pessoas não se alegrariam com um tratamento tão benéfico? Não os gregos. Tentamos compreender. Existe uma primeira explicação quase racional sobre a tentação do referendo: o governo precisaria de um mandato democrático incontestável para impor ao povo grego as medidas austeras que exigem o acordo europeu e o reembolso das dívidas restantes no prazo. Outra explicação quase racional: o referendo poderia ser uma manobra de chantagem para obter da Europa não 50%, mas 60% de redução da dívida. Mas esses argumentos racionais não são muito persuasivos porque jamais os europeus, e sobretudo os parlamentares alemães, aceitariam uma redução de 60% que poderia colocar em perigo a existência dos bancos franceses. Ceder à chantagem grega encorajaria também os outros elos fracos da Europa, como a Itália e a Espanha, a não reduzir seu déficit público. Isso conduziria juntamente a Europa rumo à falência e a uma longa recessão. O referendo é necessário para que os gregos aceitem as medidas austeras, argumenta o governo de Atenas? Não acreditamos muito, porque o governo de Papandréou não aplicou, até agora, nenhuma das resoluções anunciadas em sua maioria socialista; em particular o programa de privatização, que não causaria nenhum impacto sério na vida cotidiana dos gregos. Deve-se, portanto, procurar uma explicação a esta tentação do referendo em decorrência da lógica econômica pura ou uma exigência democrática. Há, por trás da crise grega, um subtexto, um não dito, que esclarece tanto o projeto do referendo, como a tolerância dos outros europeus a um comportamento irracional dos gregos. A Grécia, em verdade, é constantemente ameaçada pela violência política das correntes extremas: uma extrema direita nacionalista e uma estrema esquerda revolucionária e marxista. A guerra civil de 1947-1949, que foi suprimida por uma intervenção militar anglo-americana, é um fantasma que assombra a sociedade grega; a ditadura militar de 1967-1974 é outro fantasma. Todos governos gregos e toda a comunidade política europeia são assombrados por dois espectros. A Grécia não é apenas uma ameaça para a estabilidade da zona do euro, ela é uma ameaça ao se considerar o princípio irreversivelmente democrático da Europa. A redução da dívida, como o referendo, são em grande parte tentativas para matar na origem a tentação da revolução marxista e a tentação autoritária. Isto vai ser o suficiente para reancorar a Grécia dentro do campo democrático? Não totalmente. O referendo, se tivesse ocorrido, teria sido jogado no fio da razão, o que teria perpetuado as não reformas se o Sim tivesse prevalecido. Ou ele teria feito a Grécia sair da zona do euro se o Não tivesse ganho. Falta na Grécia hoje uma Antígona [*] que diga a verdade: Antígona convidaria os gregos para debater publicamente o seu passado que não vai passar e explicaria como restaurar o drama reconduziria a Grécia ao Terceiro Mundo. Antígona explicaria que substituir a democracia imperfeita por um regime autoritário ou revolucionário privaria a Grécia de seus habitantes mais esclarecidos. Antígona, é verdade, acabou enforcada. [*] Antígona, personagem grega imortalizada na tragédia de Sófocles, que compõe parte da Trilogia Tebana. Filha dos incestuosos Édipo e Jocasta, Antigona enfrenta o despótico tio Creonte, tirano que assumiu o trono de Tebas após Édipo abandonar a cidade ao saber que sua esposa era sua mãe biológica. Ao pedir publicamente que o tio permitisse que ela enterrasse o corpo do irmão, através do argumento de que as leis sagradas não deviam ser ignoradas, acaba sendo condenada à morte: sua pena seria o sepultamento ainda viva. Antígona se enforca na versão de Sófocles. A comparação aqui é justamente por conta da coragem de Antígona de enfrentar um tirano e convidá-lo ao debate público sobre o caso de manter insepulto o corpo do jovem Polínice, algo inaceitável entre os gregos. Se era algo tão importante entre os gregos, porque Creonte não dera ouvidos à jovem sobrinha? Porque, como tirano, acreditava-se acima das leis. Essa coragem de dizer o óbvio apesar do risco é cada vez mais raro!

sábado, 26 de novembro de 2011

Uma proposta aos índios

Certo dia meu já falecido pai elaborou uma proposta para a solução dos problemas dos índios brasileiros: presentear cada um deles com um apartamento ou uma casa de alto padrão, e claro, mobiliada, inclusive com TV a cabo; uma caminhonete cabine dupla, um plano de saúde privado e uma renda vitalícia de dez mil reais, tudo isto para até a terceira geração! Tudo isto para acabarmos de vez com o estatuto que garante aos índios a tutela estatal e a inimputabilidade penal, bem como as gigantescas reservas de que dispõem, passando doravante a conviverem como os demais brasileiros civilizados, sujeitos ao regime da propriedade privada comum. O que você faria, nobre leitor? Como cidadão brasileiro, você aceitaria arcar com tamanha despesa em benefício das atuais populações indígenas? Pois olhe lá: eu pensei, pensei e pensei, e acabei chegando à conclusão que tal oferta até que me sairia barata! Vamos às contas: quanto nos custa a Funai? Quanto nos custa patrulhar e defender tamanho território utilizado pelas reservas indígenas, sem que haja uma contrapartida produtiva da parte dos índios? Quanto nos custa prover os índios com verbas para saúde pública e educação pública sem impostos? Quanto nos emperra o desenvolvimento as estradas sobre as quais eles detêm autoridade para fechar e cobrar pedágios e os boicotes que fazem a empreendimentos tais como a Usina de Belo Monte? Quanto nos custa o uso precário e degenerativo que os indígenas fazem de suas terras, e a evasão de divisas pelo contrabando de minerais e outros recursos minerais com a cumplicidade de ong's estrangeiras? Colocando tudo isto na ponta do lápis, tenho que até temos uma boa barganha! Sim, sou a favor desta ideia! No site da Agência Brasil de hoje, a manchete de destaque informa que os índios detêm os piores indicadores sociais da Amazônia. Resumo da história: mesmo sendo o alvo da atenção do governo e de ong's, e mesmo recebendo privilégios que jamais um brasileiro comum haveria de sonhar, o modo de vida parasitário dos índios só lhes resulta em miséria. O conceito do índio selvagem e desaculturado já deixou de existir, vigorando, se muito, em alguns grotões de dificílimo acesso, e mesmo assim não se constituindo senão de alguns poucos indivíduos. O índio comum gosta de remédio, roupa, TV com antena parabólica e falando sério, adora uma cerveja gelada. Aquela imagem de índios nus pescando e dançando juntos é propaganda da Natura. Sim, não vou dizer que não existe, mas hoje em dia é muito mais como parte do show da própria campanha em prol da manutenção deste mesmo estado de coisas. Trata-se de um esforço de afirmação e de um marketing publicitário-onguista. Portanto, já está mais do que na hora de o índio se integrar à sociedade, tratando de exercer uma atividade produtiva à sociedade e que lhe dê bom sustento, ao invés de ficar dependurado no estado como um carrapato. Muito ao contrário do romanticismo ideológico ambientalista, os índios não são os guardiões da floresta coisa nenhuma. São, sim, seus piores algozes. A coivara – a queimada que antecede a plantação da roça de mandioca – é uma invenção indígena, e não raro, por falta de meios adequados de controle, se transforma em uma calamidade que se alastra muito além do previsto. Suas técnicas de plantio exaurem o solo; a caça não tem condições de sustentar as populações, levando os animais à extinção, e a pesca é feita amiúde com a aplicação de venenos e com desrespeito aos períodos de acasalamento e desova. Não entendo por que os índios devam ser mantidos numa redoma. Todos os povos do mundo foram submetidos aos confrontos civilizatórios, e ao final, restou sempre algo de melhor. Será que os ingleses deveriam até hoje viver em cabanas de palha? Ora, era assim que viviam anteriormente à chegada dos romanos. E os portugueses? Não se tornaram os maiores navegadores do mundo, a primeira nação globalizada do mundo? Sim, mas para tanto se valeram de conhecimentos de matemática e de astronomia adquiridos dos árabes. Por que então os índios brasileiros precisam ser mantidos na idade da pedra polida? A Igreja católica, quando não tinha vergonha de sua missão, tirou milhares de almas das trevas da pré-história, e fez de muitos índios bons artesãos, bons artistas, bons agricultores e bons comerciantes e excelentes soldados. Quantas vidas há de ter salvo do infanticídio! Quantas vidas há de ter salvo das guerras tribais! Especialmente no norte do Brasil, há descendentes puros de índios que vivem muito bem, ocupando ofícios tais como o de médicos, juízes, funcionários públicos de alto escalão e empresários bem-sucedidos. Atualmente, graças aos esforços da Teologia da Libertação, a Igreja Católica pretende devolvê-los ao Neolítico e intoxicar-lhes com a sua pérfida doutrina de ódio à civilização. Por fim, meu único temor é o que de a oferta acima, caso efetivada, acabe ainda mais por prejudicá-los do que por ajudá-los. Certo dia, um amigo ventilou a ideia de que toda a pobreza da África poderia ser varrida pela simples transferência de uma parte da riqueza dos países ricos. Pensei então comigo: aí mesmo é que as guerras sem fim seriam deflagradas; aí mesmo é que a fome grassaria! Aí mesmo é que toda sorte de doenças fustigariam os sobreviventes. Aí mesmo é que se implantariam os tiranos mais cruéis e genocidas. Seria a aniquilação total do povo africano...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Poder Sobrenatural do Crack

Algum tempo atrás, um cidadão aparentando ter pouco mais de trinta anos vagava pelas ruas centrais de Porto Velho, como de costume, pois noutra vez eu já tinha observado os seus passos nas mesmas cercanias. Mostrava estar triste e deprimido como nunca, talvez como sempre. O dia de sábado era como outro qualquer na sua vida e na vida da cidade, pois o vento que soprava quente era o mesmo, o sol abrasante e causticante a tudo esquentar era o mesmo, as pessoas indiferentes, passando de um lado para o outro das ruas e nas calçadas, afastando-se do citado cidadão em misto de medo e asco eram as mesmas, a agencia bancaria a qual ele entrara era também a mesma. Entretanto, aquele carrancudo cidadão, barbudo, cabeludo, sujo, maltrapilho, esquelético, parecendo seriamente doente me lembrava de alguém, alguém conhecido, alguém que um dia já mantivera algum tipo de contato verbal comigo, mas, por mais que eu tentasse me lembrar de quem seria aquela misteriosa pessoa não conseguia. Demasiadamente curioso, dessa vez olhei mais demoradamente para aquele estranho e intrigante cidadão enquanto ele tirava dinheiro no caixa rápido do banco no mesmo instante em que as outras pessoas que ali estavam presentes trataram de fugir do recinto pensando ser ele um assaltante, um bandido ou delinquente qualquer, talvez um maluco andarilho. Ele não demonstrou surpresa pelo fato das pessoas assim agirem. Parecia acostumado com isso, com essa humilhação. Sabia que a sua aparência era assustadora. Apesar de saber que não era um marginal, parecia não estar ali naquele momento, noutro mundo, não ligar para o que acontecia a sua volta. Parecia nada temer, talvez se a Terra explodisse para ele seria normal. Temia somente um novo ataque de bronquite que se avolumava no seu pulmão devido à tosse grossa e pesada que insistia na sua garganta a fazer tremer a sua longa e imunda barba que carregava em igual modo com o seu cabelo escarafunchado e embuchado tal qual uma casa de cupim. As suas perspectivas eram as piores possíveis. Certamente mergulhado em pensamentos pessimistas, nem sequer notou que eu sem disfarçar tanto olhava para ele querendo me lembrar de onde o conhecia, até que o guarda do banco chegou de um possível cafezinho e me falou: - Tá vendo o que o crack faz? ... Ele era um Advogado!... Foi aí que tudo emergiu, veio à tona; foi ai que tudo me chegou à mente; foi ai que o mistério foi revelado; foi ai que pude decifrar todos seus segredos; foi ai que vi o quanto o destino das pessoas pode ser cruel para uns e bondoso para outros; foi aí que eu vi aquele cidadão, antes promissor Advogado conversando comigo em algumas oportunidades nos corredores do Tribunal de Justiça e em Delegacias para onde conduzi pessoas, a serviço, assuntos relacionados a Processos criminais ou Inquéritos policiais. Foi aí que me lembrei de uma reportagem que um jornal fez sobre uma mãe em desespero querendo libertar o seu querido filho, estudioso, carinhoso, alegre e feliz com a vida, então Advogado preso nas garras do crack; foi ai que soube que os familiares desse cidadão tentavam interná-lo em clinica apropriada, mas ele se recusava tal tratamento por conta do poder avassalador e sobrenatural do crack que o arrastava cada vez mais para o fundo do poço. Foi ai que lembrei que aquele Advogado entrou no imundo mundo do crack por conta de ter se envolvido com um traficante após conseguir sua liberdade na Justiça; foi ai que lembrei da citada matéria jornalística dizendo que aquele Advogado se desfez do seu escritório, do seu carro, dos seus bens, vendendo ou trocando tudo pelo crack ou para pagar dívidas com traficantes; foi ai que eu senti que aquele cidadão abandonou a sua casa e passou a morar no submundo da sociedade de Porto Velho, nas ruas, no mercado central, nas marquises dos prédios ou em pensões baratas junto à prostituição rasteira, com seus iguais, pelo crack e para o crack. Foi ai que eu imaginei que aquele cidadão então sobrevivia de algum dinheiro que ainda restava da venda dos seus bens, ou quem sabe, de depósitos efetuados por familiares na sua conta bancaria; foi ai que eu vi que um cidadão bem vestido, alinhado, com terno, paletó e gravata impecáveis pode se transformar num mendigo, num zumbi, num morto-vivo; foi ai que eu vi que a vida daquele cidadão era somente o crack. Certamente sentindo-se arrasado, desesperado, impotente para resolver o seu próprio infortúnio, o seu calvário, lançando um olhar no passado esse cidadão, antes feliz Advogado, viu o rumo errado que tomou, mas não teve forças para voltar atrás, Não queria se curar, não admitia tratamento porque o crack era mais forte do que a sua vontade, o crack era mais forte do que ele. O seu presente era só o crack, o crack como o senhor do seu viver, o crack como seu dominador, o crack como destruidor da sua família, o crack como aniquilador da sua vida. Crack e desgraça são indissociáveis e quase palavras sinônimas. O crack é o grande mal do século, o mal dos males, a pior de todas as drogas, que se não for um mal de que todos nós estejamos esclarecidos, irá nos afetar em qualquer momento de nossa vida ou na vida de quem mais amamos, como de fato aconteceu com esse cidadão e sua família, um jovem que estudou nos melhores colégios, que teve boas amizades, que se formou em Direito, que se tornou um Advogado, que tinha um bom escritório, que pretendia ser juiz (por isso adormecia em cima de livros de tanto estudar), que tinha um bom futuro pela frente, mas que por ironia do destino, pelo poder sobrenatural dessa droga, tudo trocou pelo crack. Rodeado e instado pelos sentimentos humanitários de enternecimento, compaixão e piedade, até porque sempre fui dos maiores combatentes do crack, tanto na área repressiva quanto preventiva, com prisão de traficantes na minha carreira policial e vários artigos de minha autoria pertinentes ao tema publicados em meu blog, logo pensei em falar com ele, oferecer algum tipo de ajuda moral, espiritual, mas seu olhar sisudo e com possibilidade de algum tipo de agressão me afastaram, me reprimiram até porque ele também não me reconheceu. Entretanto, todas as vezes que caminho pela citada área de Porto Velho, procuro em vão e insistentemente com os meus curiosos olhos pelo triste cidadão entre os inchadinhos de cachaça ou barbudinhos zumbis do crack em muitos espalhados pela redondeza. Se o cidadão aceitou fazer tratamento, se fez ou faz tratamento em clinica de recuperação não sei, só sei que é isso que espero, do fundo do meu coração. Assim, um dia espero ver aquele alegre Advogado de volta aos corredores do Tribunal de Justiça ou em Delegacias defendendo os seus clientes, menos os traficantes.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Memento, asine, nomina stultorum scribuntor ubique locorum

Esse latinorum todo fazia parte do trote dado aos calouros da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas (falo de causo acontecido no final dos anos 70 do século passado...). Era o que estava escrito no Diploma de Burro que um amigo recebeu e teve que assinar! Não se assustem que não vou embrenhar pelo caminho muito frequentado pelos meus contemporâneos: “no meu tempo...”. Pelo simples motivo que meu tempo foi ontem, é hoje e será amanhã enquanto eu tiver a ventura de estar vivo. Na escola não tínhamos tias. Tínhamos professoras e professores. Supermercado era novidade e as compras da casa eram feitas no armazém e anotadas em um caderno. A mínima suspeita bastava para o freguês abandonar aquele estabelecimento. O caderno tinha que ser a expressão da verdade. Qualquer objeto novo encontrado em nosso quarto, ou pasta escolar, ou bolso, uma borracha, um lápis, um apontador, era investigado como se fosse uma bomba prestes a explodir e no dia seguinte devolvido à professora. Mentir para pai e mãe era um pecado para ser confessado ao padre antes da comunhão... Com isso quero dizer que a geração que antecedeu a minha não tem culpa. Bem que tentou. Às vezes lembro-me do Irmão Bruno, do Irmão Ricardo ou do Irmão Chiquinho, professores lassalistas do Colégio Gonzaga, lendo em voz alta a Oração aos Moços numa daquelas assembléias semanais. Nós achávamos muito, muito chato. Hoje acho que além de chato, que me perdoe o espírito de Ruy Barbosa, aquele célebre texto foi prejudicial porque acendeu a luz errada em nossas mentes: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”. Pois foi. O brasileiro desanimou e de repente, não mais que de repente, sem soneto divino, em prosa rasteira mesmo, entramos no reino da rebimboca da parafuseta. A conclusão: o redator do Diploma de Burro, creio eu que anônimo, era um gênio. "Memento, asine, nomina stultorum scribuntor ubique locorum..." Dia 17 nós, brasileiros de todos os tamanhos, feitios e cores recebemos nosso Diploma de Burros das mãos dos Três Poderes. Carlos Lupi não mentiu. Nós é que o compreendemos mal. Ele jantou em casa do Adair, voou pelos céus do Brasil com o Adair, deu uma pequena ajuda de milhões às ONGs do Adair, mas ele não tem relações com o Adair. Não são nem conhecidos! O Diploma de Burros nos foi dado a todos nós ontem: "Lembre-se, asno, o nome dos idiotas está escrito por toda parte". Simbora assinar!

Uma crítica à direita

Quem leva a pecha de “direitista” decerto sofre ou já sofreu com a solidão de suas ideias. Em terras tupiniquins, saiu de moda acreditar que os ideais de liberdade estão além de qualquer desmande governamental. Não partilhar dos delírios adocicados de um Estado paternalista, segundo nossos muitos esquerdistas, é ser conservador – outra pecha que denota as confusões terminológicas dessa intelligentsia. Mas este texto não tem como alvo essa camada de nossa intelectualidade. Pelo contrário, dirige-se aos que partilham de ideais opostos. Falo aos defensores do capitalismo, este fruto da liberdade e da livre iniciativa do homem. É constatação comum no Brasil o fato de que a chamada “direita” é vista com maus olhos por diversos setores sociais. Isto se dá pela lembrança distorcida da Ditadura Militar, acontecimento recente de nossa história. O termo “direita” – nome empregado com vistas a definir conservadores e liberais – passou a ser negativo. Ser de direita, para os brasileiros, é ser defensor do regime totalitário ocorrido no Brasil. Outro problema, talvez pior para um jovem de direita, repleto de ideais, é ser vinculado a pessoas que nada tem em comum com qualquer tipo de ideologia. Tempos atrás, ainda na graduação, um professor tomou conhecimento de minha linha ideológica e não se furtou de fazer graça: “Você é da turma do Maluf, então?”. Talvez seja essa a imagem que o professor faz da direita: fisiologismo, corrupção, mau-caratismo etc. Mas não o culpo por isso. A direita – a ideológica, digo, como se houvesse uma que não o fosse – praticamente não existe em nosso cenário político. Dias atrás, no blog de um jornalista, deparei-me com uma crítica bastante consistente acerca dos partidos políticos brasileiros. Num texto em que defendia que a formação política é imprescindível tanto para a direita quanto para a esquerda, o autor notou que apenas um partido – e de esquerda – disponibilizava textos aos que visitassem sua página na internet. Como de direita, o blogueiro citou erroneamente o PSDB. Mas o caso é que a solidão dos homens posicionados à direita dessa espécie de tabuleiro que mede o perfil ideológico de cada um espraia-se ainda mais quando levamos em conta a ação política. Diria que há muito mais de fisiológico do que de ideológico nos 27 partidos brasileiros. Contudo, as legendas de esquerda ainda mantém alguns de seus ideais. Se comparássemos as ações de nosso maior partido considerado de direita, o Democratas, com as do Partido Republicano dos Estados Unidos, haveria uma colossal diferença (Não esqueço que o DEM votou pelo fim do Fator Previdenciário e pelo aumento de mais de 7% aos aposentados, com claros indícios de que isso aterraria a economia do país). Se na política, contudo, a direita continua sendo sinônimo de Maluf e DEM, fora dela há uma crescente associação de estudantes, jornalistas, artistas e intelectuais simpáticos a essa ideologia. Além do Instituto Liberal e do Ordem Livre, o Instituto Millenium e o Movimento Endireita Brasil, entre outros, estão fazendo avanços e pondo fim, paulatinamente, no medo de ser “de direita” que é suscitado nos jovens brasileiros desde o Ensino Fundamental. Falta agora que toda essa mobilização ganhe repercussão em nossa política. Hora de sair do âmbito teórico e desembarcar de vez na prática política. Quem sabe as milhões de abstenções ocorridas nas últimas eleições não foram um sinal de que faltam exemplares dessa tal direita dignos de voto.