"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo
que mutilá-lo."Carl Jung

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CARTA DE ABRAHAM LINCOLN AO PROFESSOR DO SEU FILHO

«Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas, por favo, diga-lhe que, por cada vilão há um herói, que por cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe, por favor, que por cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales.
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos.
Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram.
Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.
Eu sei que estou a pedir muito, mas veja o que pode fazer, caro professor.
Abraham Lincoln, 1830

domingo, 5 de fevereiro de 2012

POBRES HOMENS E MULHERES MODERNAS, SEM ARMAS,SEM PROLE E SEM CAVERNAS...

Para meditar neste fim de semana... ( Texto de P. A. Marangoni- http://pamarangoni.blogspot.com)

Guardadas as devidas proporções, o guerreiro de hoje seria o militar (em tempos de guerra) mas que não luta por si mas pelo grupo e cumpre as diretivas do Estado, que quase sempre não são as que o fazem se sentir defendendo uma causa justa como sua caverna e prole. Exposto ao combate durante muito tempo o homem moderno pode, ao se reintegrar à famigerada, artificial Sociedade, entrar em conflito com seus sentimentos naturais, não suportando mais a covardia da vida civil e suas leis castradoras que o colocam, após um período heroico, em igualdade de condições a sub-homens, rebelando-se e decidindo por abandonar tudo, inclusive a vida sem sentido. Advém suicídios, atiradores nas torres das cidades abatendo a esmo, chamados de neuróticos de guerra. Eu diria neuróticos de paz, esta chamada paz muito mais cruel e difícil de suportar que uma guerra. Aos que simplesmente se entregam a lamentos e fugas infantis encenando a neurose de guerra, eu chamaria de covardes em tempo integral, que assim seriam independente de terem participado de uma guerra. Bastaria um cão latir mais alto e já estariam com os sintomas, como sempre profundamente explicados pelos sábios psiquiatras e analistas...
Integrados na manada com seus preconceitos, a maioria dos varões tenta fugir ao serviço militar e se o faz, se apresenta como uma vítima, cheia de críticas ao sistema. Mas a origem animal guerreira sempre deixa seus vestígios e passado esta fase militar considerada como perda de tempo, o engravatado cidadão dela nunca se esquece, cria um espírito de corpo com os companheiros de quartel e acabam se relacionando pelo resto da vida, dando sem perceber um crédito maior que ao próprio tempo escolar. Porque ali estavam próximos à sua natureza, geralmente pela primeira e última vez em sua existência.
Na manada seu breve suspiro guerreiro se dilui nas normas de não reagir, não retaliar, não desobedecer e a fêmea, que muitas vezes em convívio com mães ou avós racionais e verdadeiras, sente sua vocação de moradora da caverna que espera seu homem e dele cuida em troca de segurança, pode se ver na mão de atacantes brutais, situações de fome ou abandono enquanto seu macho chora ou pede por clemência, aplaudido pelos desarmamentistas e autoridades policiais... E por experiência própria ou alheia, somadas à pressão social e o real declínio masculino, as mulheres acabam por cuidar de si próprias, descrentes dos parceiros, colocando-se em posição igual ou superior a eles, indo contra seus sentimentos ou aspirações, voltando à torrente, sem saber explicar um persistente descontentamento, uma tênue tristeza envolvente enquanto esboçam um falso sorriso vitorioso ao dizer:sou uma vencedora, estou no topo, sinto-me bem dirigindo minha vida...Depois a empresária vitoriosa vai ao analista, chora durante meia hora, paga a consulta e retorna ao grande apartamento solitário, onde se entope de pílulas para dormir, recomeçando a penosa farsa no dia seguinte.
Resta às mulheres a esperança um tanto enganadora de encontrar um homem no verdadeiro sentido, garimpando na estéril campina da sociedade ou penando no método tentativa e erro. Mesmo nascendo potencialmente macho, guerreiro e protetor - os pequenos tendem a se tornar feras quando sentem as mães ameaçadas - logo entram na perniciosa torrente e os tigres tornam-se cordeiros. O usar, o consumir de suas energias transbordantes, o impulso da testosterona que antes era feito através de aventuras sedimentadoras da masculinidade, hoje é realizado de forma eletrônica ou através de drogas, substitutos covardes dos atos viris! A emoção de um salto de paraquedas ou uma escalada é substituída por uma dose de cocaína; um desafiante combate aéreo é provido por um vídeo game...As atividades másculas que deixavam cicatrizes físicas que construíam o macho forte e protetor foram deixadas para trás e seus sucedâneos atuais deixam cicatrizes na alma, no cérebro, reduzindo o homem a uma imagem pálida do que já foi.
As mulheres,sem outra alternativa, são obrigadas a se nivelarem aos homens na manutenção da vida e como eles acabam também se dissolvendo na manada, perdendo suas qualidades para poder sobreviver. O planeta Terra tornou-se um grande celeiro de joio, onde se acham perdidos alguns grãos de trigo...

O CONSERVADORISMO E O ESPÍRITO CRIATIVO

Uma liberdade degenerada em anarquia deixa a mente humana confusa, sua consciência instável, e seu coração insatisfeito. E, assim sendo, não é surpreendente que o conservadorismo seja novamente ouvido entre nós.
O radical destrói o que é mal e o conservador preserva o que é bom: essa afirmação sobre a questão, ainda que útil, é uma simplificação extrema. Pois o radical destrói muito daquilo que é bom quando arranca o mal pela raiz, e o conservador freqüentemente mantém vivas coisas que não merecem imortalidade. Assim, tanto o radical quanto o conservador necessitam de criticismo corrosivo, tanto quanto apreciação. Esta distinção, entretanto, deve ser feita: o radical normalmente desenvolve uma paixão pela destruição indiscriminada; por trás do instinto conservador há a noção de valores perenes que não devem ser aniquilados. Assim sendo, é mais provável que o espírito criativo seja mantido vivo por um conservador ao invés de um radical.
Se tomarmos os papéis dos escritores criativos do mundo, não avançamos muito antes de alcançar essa verdade. Homero era o espírito criativo encarnado, e ainda os escritos que carregam seu nome se tornaram uma verdadeira Bíblia para os gregos porque, por trás de sua arte criativa, paira a noção de que há padrões pelos quais é bom que os homens vivam. A qualidade criativa é possível somente quando feita sobre um fundo de princípios permanentes lealmente mantidos, de modo que o que dá aos poemas homéricos sua imortalidade é seu retrato brilhante daquilo que merece sobreviver.
Virgílio, de modo mais deliberado, usa esse modelo para contar uma história heróica e descrever os princípios sobre os quais um império poderoso pode manter-se. Virgílio possui ternura e simpatia; mas toda a simpatia para com a rica variedade da experiência humana é subordinada àquela devoção ao dever pela qual homens e nações conquistam sua grandeza. Nesse ponto, os leitores de Virgílio encontram as tensões que dão à “Eneida” sua nobreza.
O “Paraíso Perdido” de Milton é a descrição de uma batalha entre a aventura sem lei e a obediência leal. Esse conflito é o que torna o poema magnificamente criativo. Sem o Deus que tem o direito de exigir obediência, não haveria campo para o trabalho do verdadeiro espírito criativo. Se a tragédia da ausência de leis aparece em trevoso esplendor em “Paraíso Perdido”, a glória da obediência ganha pelo ordálio domina “Paradise Regained”.
A “Divina Comédia” de Dante, com sua vasta galeria de retratos de almas, é a mais alta façanha criativa da Idade Média: cada alma mostrando as leis que confere à vida suas tensões, sua tragédia e seu esplendor.
Shakespeare alinha a vida e a história inglesas à harmonia da conquista criativa. Ele é exitoso porque sua arte é governada por aquele senso de sanções morais que dá significado à vida. Shakespeare realiza seu trabalho por insinuação; ele não precisa asseverar sanções éticas, pois são tão profundamente entremeadas aos processos da vida que elas se tornaram, em suas peças, mais substância do que tese.
Pois é somente em um mundo de sólidas sanções que a vida e a aventura da existência podem ter sentido real. Sem tais sanções, podemos ter pulsações de emoção e vibrações de impulso biológico; mas não temos significado real. Quando a vida perde suas estabilidades, a glória e a tragédia da natureza humana desaparecem. Os grandes escritores do mundo atestam que padrões permanentes são essenciais ao triunfo do espírito criativo.
Isso é verdade tanto para a imaginação quanto para a tragédia. O relacionamento da imaginação com a tradição conservadora é integral. A impudente imaginação de Aristófanes foi empregada para conservar os caminhos que tornaram Atenas grandiosa. Vida destituída de tradição: é isso que Aristófanes destrói pela redução ao absurdo. Sua risada é feita para tornar seguros os velhos caminhos e ridículos os novos disparates.
Outro exemplo: Erasmo foi a grande imaginação da Europa em seu tempo. Seus “Colóquios” tornaram a Europa uma grande fornalha, com Erasmo falando de seu interior. E Erasmo assumiu a tarefa de exorcizar as coisas más da existência com o riso, protegendo a reforma pela imaginação, não pela espada. Os homens confiaram em Erasmo porque ele não tentava esmagar o mundo enquanto o melhorava. Sua imaginação certeira teria sido impossível sem suas grandes lealdades. Dessas lealdades nasceu seu criticismo cristão da vida. As sanções da religião cristã deram-lhe subsídio e motivo para sua inteligência livre.
Em Erasmo, assim como em muitos espíritos da mais alta ordem, o gênio criativo existe apenas no ponto em que liberdade e estabilidade se encontram. Do temperamento conservador vem a estabilidade que sustenta os movimentos ousados de uma mente na qual a liberdade jamais sucumbe à anarquia.
Agora, parece que a lei é relacionada com ordem, não com criação; e, verdade seja dita, sistemas legais podem facilmente se degenerar em convenções rígidas. Todavia, sem leis subjacentes, não poderia haver aquela tensão necessária entre liberdade e estabilidade: aquela tensão sem a qual não haveria significado duradouro na vida ou na arte. A própria lei é a base do pensamento e da ação criativos, ainda que convenção sem vida seja um critério cediço.
Quando Aristóteles reuniu cento e cinqüenta e oito constituições gregas como a base para seu estudo de leis, ele estava se preparando para aplicar os testes da verdadeira experiência. Quando ele analisou o controle de poucos, de muitos, dos detentores de propriedade, e do tirano, ele sempre perguntou como todos os tipos de controle realmente operavam na experiência de vida da humanidade. Julgando as leis por seu poder de promover a boa vida, Aristóteles buscou conservar aqueles padrões sem os quais a vida perde significado. Não é surpreendente que Aristóteles tenha escrito uma grande obra em poesia; ou que Cícero, o mais sagaz dos romanos, fosse também o maior orador de Roma. Cícero estava em seu ápice quando refletiu sobre as fundações morais da vida privada e do Estado.
Assim, também, quando Montesquieu escreveu “O Espírito das Leis”, ele viu as sanções legais sob a luz da genuína experiência humana: em suas relações com governos nacionais, os costumes do povo, o clima, religião, comércio. A lei adquire sentido quando se relaciona com os impulsos criativos da humanidade. Em Aristóteles, Cícero e Montesquieu, o estudo humano da lei é uma fonte direta de realização criativa.
E a crítica literária, da mesma forma, torna-se criativa na proporção em que reconhece leis perenes. Longinus viu o sublime como o eco de uma grande alma; ele sabia que amabilidade deve ter uma base no caráter. Sublimidade, ele escreveu, é fundada sobre o caráter humano num pico de excelência moral. Longinus, como outros grandes críticos, perseguiu o relacionamento entre alta literatura e a boa vida, assim como seu relacionamento com o princípio estético. Um trabalho de arte apresenta algo universal assim como a exibe sob uma nova luz. Em criticismo e arte, quando um princípio universal é esquecido, instaura-se o caos literário e artístico. O princípio universal – a doutrina aristotélica da catarse, por exemplo – confere permanência ao impulso criativo.
A civilização e suas façanhas são um equilíbrio entre estabilidade e liberdade: uma liberdade sob a lei, não uma liberdade da lei. Assim, conservação é a base da ousadia.
Entretanto, a confusão de nossa era levou muitos homens a idolatrar a anarquia intelectual e a licenciosidade moral. Hoje em dia, é muito fácil obter um grau considerável de proeminência intelectual fazendo apologia à rendição a falsas emoções. Essa aflição pode ser traçada ao século 19, e antes dele. Sören Kierkegaard, por exemplo, fazendo de suas próprias emoções confusas a base para sua pretensão de guiar outros homens, descartou os processos ordenados de inteligência disciplinada pelas altas pressões de sua fantasia privada. Usando o paradoxo para escapar da responsabilidade intelectual, ele encontrou o sentido da vida e da religião nas chamas de uma experiência vívida – uma experiência não regulada pelas tradições morais da humanidade. Ao seu trabalho aderiu uma megalomania sutil. E, depois das calamidades e frustrações de duas guerras, a mente da Europa, movendo-se psicopaticamente, volveu a Kierkegaard como guia e amigo. Em busca da cura, voltou-se a uma manifestação de sua própria doença.
Desse modo, os existencialistas romperam sua viva conexão com as experiências intelectuais, morais e espirituais do homem. Eles exaltaram suas próprias desilusões como uma filosofia; o brilho diamantino das sensações imediatas tomou controle do pensamento e da ação. Quando tentaram defender suas posições, os existencialistas tiveram de retomar os métodos da inteligência disciplinada que eles haviam descartado em prol de suas obsessões privadas. E quando, em alguns casos, o Cristianismo era muito forte para sua confusão privada, eles fizeram uma curiosa reconciliação: deram razões ruins para conclusões boas. Mas a maioria dos existencialistas buscou se regozijar em um universo sem norte, tendo substituído Deus por um caos moral.
O existencialismo, é verdade, foi em parte uma reação contra erros anteriores. As abstrações glorificadas do pensamento hegeliano exigiam a retomada da experiência de vida. Mas jogar fora o senso de estrutura intelectual para demolir as abstrações irreais de alguém foi um erro catastrófico. Hoje em dia, a grande lógica da compreensão e da autoridade de sanções morais permanentes deve ser restaurada para seu lugar de direito, se a vida merece ser vivida na era moderna.
Pois repudiar o passado intelectual e moral da raça deve levar – a não ser que seja restringida – à destruição de tudo que confere significado e valor à vida. Esse desastroso repúdio moderno não foi confinado meramente a círculos de intelectuais sofisticados. Ela penetrou no pensamento e na ação populares em uma infinita variedade de formas. O franco e confiável mapa da vida que – a despeito de sua ironia – foi desejado por Luciano tantos séculos atrás: é precisamente disso que o homem comum precisa, mas não tem. Uma liberdade degenerada em anarquia deixa a mente humana confusa, sua consciência instável, e seu coração insatisfeito. E, assim sendo, não é surpreendente que o conservadorismo seja novamente ouvido entre nós.
O marxismo, ainda que supostamente leve o homem a uma sociedade justa e solidária, realmente é a apoteose da destruição pública e privada. A compulsão que deve ser exercida em um Estado como a Rússia Soviética é a morte do espírito criativo. Na melhor das hipóteses, a sociedade marxista é mecânica e matemática; na pior das hipóteses, monstruosamente cruel. Utopia realizada é Inferno realizado. Em tal sociedade, os regatos de energia criativa são perdidos sob areia crestada. Pois a tensão entre estabilidade e liberdade é destruída por uma nova e odiosa estabilidade total: a estabilidade fundada em falsas considerações sobre a natureza do homem.
Mesmo em formas mais brandas que o comunismo, a sociedade planejada traça o caminho para se tornar a sociedade estupidificada. Preocupado com fórmulas sociais, o homem busca em vão pela matéria da arte criativa. É verdade que alguns traços de planejamento existam em uma boa sociedade, bem como há aspectos matemáticos em toda vida satisfatória. Mas se a vida pública ou privada é realmente satisfatória, a fórmulas sociais devem ser servas, não mestres. Planejamento social não é o sentido ou o fim da vida.
O conservador inteligente não confunde amorfia com emancipação, como faz o existencialista; assim como não confunde sistema com realização, como faz o marxista. O conservador sabe que na religião, compreendida corretamente, o espírito criativo encontra um apoio de imenso valor. No mesmo momento em que a religião estabelece sua função de sustentar a alma da civilização, ela também assume o trabalho de alimentar o espírito criativo. Em religião, assim como em educação, o teste da verdade é o poder daqueles princípios permanentes que dão sentido ao pensamento criativo e à ação criativa. Conservadorismo e energia criativa são indissociáveis; eles não podem existir longe um do outro. Talvez a compreensão dessa verdade seja a necessidade mais premente de nossa desnorteada era.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

OS CANALHAS NOS ENSINAM MAIS

Nunca vimos uma coisa assim. Ao menos, eu nunca vi. A herança maldita da política de sujas alianças que Lula nos deixou criou uma maré vermelha de horrores. Qualquer gaveta que se abra, qualquer tampa de lata de lixo levantada faz saltar um novo escândalo da pesada. Parece não haver mais inocentes em Brasília e nos currais do País todo. As roubalheiras não são mais segredos de gabinetes ou de cafezinhos. As chantagens são abertas, na cara, na marra, chegando ao insulto machista contra a presidente, desafiada em público. Um diz que é forte como uma pirâmide, outro que só sai a tiro, outro diz que ela não tem coragem de demiti-lo, outro que a ama, outro que a odeia.
Canalhas se escandalizam se um técnico for indicado para um cargo técnico.
Chego a ver nos corruptos um leve sorriso de prazer, a volúpia do mal assumido, uma ponta de orgulho por seus crimes seculares, como se zelassem por uma tradição brasileira. Temos a impressão de que está em marcha uma clara "revolução dentro da corrupção", um deslavado processo com o fito explícito de nos acostumar ao horror, como um fato inevitável. Parece que querem nos convencer de que nosso destino histórico é a maçaroca informe de um grande maranhão eterno. A mentira virou verdade? Diante dos vídeos e telefonemas gravados, os acusados batem no peito e berram: "É mentira!" Mas, o que é a mentira? A verdade são os crimes evidentes que a PF e a mídia descobrem ou os desmentidos dos que os cometeram? Não há mais respeito, não digo pela verdade; não há respeito nem mesmo pela mentira.
Mas, pensando bem, pode ser que esta grande onda de assaltos à Republica seja o primeiro sinal de saúde, pode ser que esta pletora de vícios seja o início de uma maior consciência critica. E isso é bom. Estamos descobrindo que temos de pensar a partir da insânia brasileira e não de um sonho de razão, de um desejo de harmonia que nunca chega.
Avante, racionalistas em pânico, honestos humilhados, esperançosos ofendidos! Esta depressão pode ser boa para nos despertar da letargia de 400 anos. O que há de bom nesta bosta toda?
Nunca nossos vícios ficaram tão explícitos! Aprendemos a dura verdade neste rio sem foz, onde as fezes se acumulam sem escoamento. Finalmente, nossa crise endêmica está em cima da mesa de dissecação, aberta ao meio como uma galinha. Vemos que o País progride de lado, como um caranguejo mole das praias nordestinas. Meu Deus, que prodigiosa fartura de novidades sórdidas estamos conhecendo, fecundas como um adubo sagrado, tão belas quanto nossas matas, cachoeiras e flores. É um esplendoroso universo de fatos, de gestos, de caras. Como mentem arrogantemente mal! Que ostentações de pureza, candor, para encobrir a impudicícia, o despudor, a mão grande nas cumbucas, os esgotos da alma.
Ai, Jesus, que emocionantes os súbitos aumentos de patrimônio, declarações de renda falsas, carrões, iates, piscinas em forma de vaginas, açougues fantasmas, cheques podres, recibos laranjas de analfabetos desdentados em fazendas imaginárias.
Que delícia, que doutorado sobre nós mesmos!... Assistimos em suspense ao dia a dia dos ladrões na caça. Como é emocionante a vida das quadrilhas políticas, seus altos e baixos - ou o triunfo da grana enfiada nas meias e cuecas ou o medo dos flagrantes que fazem o uísque cair mal no Piantella diante das evidências de crime, o medo que provoca barrigas murmurantes, diarreias secretas, flatulências fétidas no Senado, vômitos nos bigodes, galinhas mortas na encruzilhada, as brochadas em motéis, tudo compondo o panorama das obras públicas: pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, orgasmos entre empreiteiras e políticos.
Parece que existem dois Brasis: um Brasil roído por ratos políticos e um outro Brasil povoado de anjos e "puros". E o fascinante é que são os mesmos homens. O povo está diante de um milenar problema fisiológico (ups!) - isto é, filosófico: o que é a verdade?
Se a verdade aparecesse em sua plenitude, nossas instituições cairiam ao chão. Mas, tudo está ficando tão claro, tão insuportável que temos de correr esse risco, temos de contemplar a mecânica da escrotidão, na esperança de mudar o País.
Já sabemos que a corrupção não é um "desvio" da norma, não é um pecado ou crime - é a norma mesmo, entranhada nos códigos, nas línguas, nas almas. Vivemos nossa diplomação na cultura da sacanagem.
Já sabemos muito, já nos entrou na cabeça que o Estado patrimonialista, inchado, burocrático é que nos devora a vida. Durante quatro séculos, fomos carcomidos por capitanias, labirintos, autarquias. Já sabemos que enquanto não desatracarmos os corpos públicos e privados, que enquanto não acabarem as emendas ao orçamento, as regras eleitorais vigentes, nada vai se resolver. Enquanto houver 25 mil cargos de confiança, haverá canalhas, enquanto houver Estatais com caixa-preta, haverá canalhas, enquanto houver subsídios a fundo perdido, haverá canalhas. Com esse Código Penal, com essa estrutura judiciária, nunca haverá progresso.
Já sabemos que mais de R$ 5 bilhões por ano são pilhados das escolas, hospitais, estradas. Não adianta punir meia dúzia. A cada punição, outros nascerão mais fortes, como bactérias resistentes a antigas penicilinas. Temos de desinfetar seus ninhos, suas chocadeiras.
Descobrimos que os canalhas são mais didáticos que os honestos. O canalha ensina mais. Os canalhas são a base da nacionalidade! Eles nos ensinam que a esperança tem de ser extirpada como um furúnculo maligno e que, pelo escracho, entenderemos a beleza do que poderíamos ser
Temos tido uma psicanálise para o povo, um show de verdades pelo chorrilho de negaças, de "nuncas", de "jamais", de cínicos sorrisos e lágrimas de crocodilo. Nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo. Céus, por isso é que sou otimista! Ânimo, meu povo! O Brasil está evoluindo em marcha à ré.

BURRICE COM FOME DE PASTO

É possível, com algum esforço, criar uma palavra e atribuir-lhe um significado universalmente conhecido. Mas é quase impossível mudar o significado de uma palavra suprimindo ou alterando seu conteúdo simbólico consolidado. Fará muita bobagem na política quem não souber isso ou, ao menos, não o intuir.
Exemplifiquemos. Você dificilmente participará de uma missa, ouvirá um sermão ou lerá um documento da CNBB sem que se depare com a palavra "excluído". Ela estará ali, para a mensagem, assim como a farinha de trigo está para a hóstia. Procure essa palavra nos quatro evangelhos e veja quantas vezes é mencionada. Já fez isso? Pois é. Nenhuma. Quando alguém, astuciosamente, substituiu a palavra "pobre" (esta sim, 25 vezes referida nos evangelhos) por "excluído", infiltrou um conteúdo ideológico na mensagem cristã. E quem não estiver prevenido receberá doses frequentes de veneno marxista em substituição ao verdadeiro ensinamento de Jesus, um ensinamento de amor ao próximo, de caridade, de zelo fraterno e de rejeição à idolatria da riqueza. Não há nos evangelhos qualquer esboço de luta de classes. Não há uma gota sequer de ódio aos ricos, mas severas advertências a quem apenas se ocupa com acumular bens onde eles são consumidos "pela ferrugem e pelas traças". Já a noção de exclusão implica a simétrica noção de inclusão e de ambas se deduz que o excluído é sujeito passivo da ação de exclusão que sobre ele exerce o sujeito ativo incluído.
O ensino cristão sobre os bens materiais não significa, em absoluto, nem poderia significar, uma proposta de organização da economia sem direito de propriedade, sem iniciativa privada, sem produção, sem negócios, sem remuneração e sem lucro. Num mundo com bilhões de habitantes essa seria a receita da miséria e da inanição.
Vamos em frente. Atente, leitor, para a palavra capitalismo. Volta e meia ela é usada para definir um sistema vantajoso, oposto ou em contraposição ao socialismo como sistema econômico. Ora, a carga simbólica da palavra capitalismo é tão negativa, malgrado se refira a um modelo comprovadamente superior ao socialismo, que até parece ter sido concebida por seus adversários, não é mesmo? E, de fato, foi! Esse vocábulo entrou nos dicionários na segunda metade do século 19, levada pelos textos de socialistas e anarquistas, a partir de Marx, Proudhon e outros. Portanto, usar como bandeira, proposta ideológica ou plataforma de organização da ordem econômica uma palavra com essa carga negativa, cunhada pelos próprios adversários da tese que expressa, é uma burrice com fome de pasto. Em tudo semelhante a de quem usa ingenuamente a palavra "excluído" em seus atos penitenciais, sem perceber o erro que está cometendo.
Reze pelos pobres e aja em favor deles, meu irmão. Mas não caia nas redes da Teologia da Libertação!
Veja o que escreveu o Papa João Paulo II, no nº 42 de sua extraordinária encíclica Centésimo Ano (1991): "Voltando agora à questão inicial, pode-se porventura dizer que, após a falência do comunismo, o sistema social vencedor é o capitalismo e que para ele se devem encaminhar os esforços dos Países que procuram reconstruir as suas economias e a sua sociedade? É, porventura, este o modelo que se deve propor aos Países do Terceiro Mundo, que procuram a estrada do verdadeiro progresso econômico e civil? A resposta apresenta-se obviamente complexa. Se por 'capitalismo' se indica um sistema econômico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de 'economia de empresa', ou de 'economia de mercado', ou simplesmente de 'economia livre'."
Ele veio de um país comunista e sabia das coisas...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

EDUCAR

Vamos deixar de lado, por um instante, aquilo que a educação no Brasil tem de números, numa matemática cruel que pouco soma e muito subtrai -um dos piores cenários da exclusão social no âmbito da nossa sociedade. E falar de outro tipo de deficit educacional: o deficit da qualidade.
Não existe, sabemos, a menor possibilidade de uma nação figurar entre as grandes do mundo -e esta é uma justa e viável aspiração do povo brasileiro- se os bancos escolares não servirem de ponto de partida para o nascimento de cidadãos plenos, bem informados e academicamente preparados. Mas também cidadãos donos de suas próprias ideias e convicções, resultado de um esforço coletivo aluno-professor-instituição que vá muito além das demandas do mercado de trabalho.
Trato desse tema hoje e escolho essas palavras para fazer uma homenagem ao escritor Bartolomeu Campos de Queirós, falecido mês passado.
Reconhecido internacionalmente, reverenciado em Minas Gerais e respeitado por tantos autores nacionais, o professor Bartolomeu dedicou sua inteligência apurada e sua militância sensível às causas da educação e da literatura.
"O homem é feito de real e de ideal", dizia ele, no depoimento que acompanhou o manifesto fundador do Instituto Brasil Literário, organização não governamental cuja causa ele abraçou com dedicação. Sendo assim, prosseguia, a educação não pode se contentar em informar o que já foi feito e, sim, abrir a porta para a imaginação e a fantasia.
Ao liberar o direito de todos de criar, recriar, imaginar e romper o limite do provável- dizia ele- a educação estará exercendo o imprescindível dom da democratização.
Em lugar de impor dogmas, cabe fermentar, no cultivo da dúvida e da inquietação, o direito cidadão de firmar sua trajetória cultural e intelectual. Refletir deixa de ser, assim, um privilégio de classe.
Aprendemos muito com pessoas como o professor Bartolomeu. Ele estava convencido de que a literatura poderia ser o grau zero para o profícuo estímulo da imaginação criadora.
Dirão os céticos: tudo isso é romântico demais quando se trata de reparar, já, agora, deficiências bem pragmáticas no ensino brasileiro.
As prioridades cobram atitudes imediatas, é verdade. Mas que qualquer iniciativa se assente em base humanista, sem desprezar a dimensão que a educação encerra de valores fundamentais ao ser humano.
Como disse nosso escritor: "A gente só suporta o dia de hoje porque tem uma perspectiva do amanhã".

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

SITUAÇÃO MUNDIAL – O CENÁRIO POLÍTICO E O ECONÔMICO

Continua o cenário potencial de conflito no Oriente Médio e seu entorno. O Irã afirma que fechará o estreito de Ormuz se for atacado. Entretanto, a temperatura bélica diminuiu um pouco por conta de certos posicionamentos. A Rússia reforçou as advertências de que não ficará de braços cruzados diante de qualquer agressão militar contra o Irã ou a Síria. Os EUA procuparam um contato (coisa que não faziam) ainda que para dizer que será inaceitável o fechamento do Estreito de Ormuz e conjuntamente com Israel adiaram um exercício conjunto. Entretanto comenta-se que a Rússia estaria articulando, com os países balcânicos, um “acerto de contas” com a Turquia.
Com esses dados podemos fazer a seguinte leitura:
1 - É possível que o Irã tenha meios de fechar, por algum tempo, o estreito de Ormuz e os EUA preferem evitar do que enfrentar.
2 – A Rússia talvez faça ameaças apenas para “trocá-las” por liberdade de ação nos Balcãs.
Quanto a economia, o consenso quase universal, é pessimista. O declínio econômico e o aumento do desemprego obrigarão a drásticos cortes em programas sociais, afetando ainda mais a indústria e o comércio. Mesmo subestimando a profundidade das crises, há razões para acreditar que os governos não podem salvar o sistema, em processo de desintegração e confusão.
A economia dos EUA sofrerá as consequências da sua inconsequencia. O dólar, impresso sem controle e cada vez menos aceito, perderá o valor e talvez até deixe de existir, reduzindo a zero o valor das divisas acumuladas naquela moeda. significando o maior calote mundial já realizado. A simples ameaça desse calote já foi a causa primária da atual recessão mundial, e chega a ser difícil imaginar o apocalíptico cenário da concretização da ameaça.
Lógico que venha a mente uma solução militar: uma guerra bem sucedida pelo petróleo, mas ganhar a guerra não é tão fácil como ganhar batalhas. Outra alternativa para os EUA uma seria o retorno ao seu antigo isolamento, mas desta vez com uma tremenda redução do nível de vida; coisa ainda inaceitável, mas possível no futuro. Mesmo não chegando a tais extremos, a simples retração do mercado estadunidense causará profundas alterações na economia mundial, cenário que expomos a seguir.
A Europa sofrerá as consequências do declínio geral dos mercados mundiais. A Alemanha, França, os Países Baixos e os países nórdicos ainda tentarão aguentar a retração econômica. A Inglaterra, afundando no crescimento negativo tentará obter vantagens apoiando os EUA nas conquistas a manu militari entre os estados petrolíferos e outros "nichos’, ". A Europa do Sul (dos PIGS) entrará numa depressão profunda e a indispensável redução de salários e benefícios sociais reduzirão drasticamente o consumo e em consequencia o número de empregos.
O nível de desemprego provocará conflitos sociais e levantamentos populares. A ruptura da União Européia é quase inevitável. É pouco provável que uma Europa deprimida, fragmentada e polarizada adira a qualquer aventura militar estadounidense-israelense contra o Irã ou mesmo a Síria. A Europa cavalgada pela crise opor-se-á à abordagem de confronto de Washington em relação à Rússia e à China.
Os novos centros de crescimento, China, Índia, Brasil, Rússia, que durante uma década proporcionaram ímpeto para o crescimento mundial,, com a diminuição das encomendas, tendem a desacelerar rapidamente e estarão ocupados com suas crises intenas. Os únicos beneficiários seriam os fornecedores de petróleo, se tiverem paz, mas o único deles que teria força para garantir a paz para si é a Rússia. Falta saber se é isto que ela quer.