"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo
que mutilá-lo."Carl Jung

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

AJUDA TAMBÉM EM CASA

Há dois anos, um fortíssimo terremoto atingia o Haiti, o país mais pobre das Américas, lançando seus mais de 9 milhões de habitantes, cuja maioria já vivia em condição de miséria, em uma catástrofe gigantesca. A capital, Porto Príncipe, foi completamente destruída. Foram cerca de 200 mil mortos em razão do tremor de terra. E o número de desabrigados subiu à casa de milhões.
No calor dos terríveis acontecimentos, a comunidade internacional se mobilizou para ajudar. O mundo se compadeceu do país caribenho, enquanto a ONU contabilizava os enormes prejuízos e classificava a tragédia como uma das maiores da história, prevendo uma difícil recuperação.
O Brasil, que está presente no país desde 2004 com um grande contingente militar para participar das forças de paz da ONU, viu-se definitivamente ligado ao Haiti.
O terremoto provocou a morte da médica e missionária católica Zilda Arns, a grande responsável pelo trabalho bem-sucedido da Pastoral da Criança. Ela se encontrava no país para levar a experiência brasileira no combate à mortalidade infantil. E as tropas brasileiras, que também sofreram baixas, logo se manifestaram para socorrer os haitianos. O governo brasileiro anunciou a doação de milhões de dólares.
Naqueles dias, o economista Irineu Evangelista Carvalho Filho, ph.D. pelo MIT, escreveu sugerindo que, diante de tal crise humanitária, o governo brasileiro acolhesse ao menos 100 mil haitianos. Observou que seria uma gota no oceano da nossa população. Propôs um grande programa de acolhimento, que daria exemplo ao mundo.
O Brasil é um país que se formou recebendo imigrantes que vieram fugindo da pobreza de guerras, em busca de uma vida melhor. Foi assim que se constituiu como uma nação culturalmente diversificada, uma das maiores riquezas de nosso tecido econômico e social. Para confirmar sua vocação, precisa, como no passado, abrir as suas portas.
Os imigrantes haitianos, aliás, se enquadram em um tipo de refugiado que tende a se tornar cada vez mais comum: o que foge de catástrofes da natureza. Eles, de um grande terremoto que potencializou a miséria. E muitos outros, de enchentes e secas, em meio às mudanças climáticas, que também têm nos atingido e transformado milhares de brasileiros em refugiados dentro do próprio país.
Vemos, agora, que o governo abriu uma pequena fresta: os cerca de 4.000 haitianos que entraram no Brasil por vias ilegais, em rotas cheias de perigos, poderão ficar. Mas por que não acolhemos mais?
Quem se propõe a ajudar, como o Brasil fez lá, há que se dispor e se preparar para ajudar também em casa. Nesse novo papel de potência emergente, deve inaugurar um novo tipo de liderança, fraterna e solidária, que o mundo tanto precisa.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

ÚLTIMA CENTELHA

Houve quem achasse precipitada a ação da polícia e do governo de São Paulo ao invadir e desbaratar, mesmo temporariamente, a cracolândia. E imprudente, ao espalhar os usuários de crack por áreas da cidade até então a salvo do convívio com aquelas pessoas. Argumentam também que as ações de segurança e saúde pública devem ser feitas em conjunto e não adianta desgraçar ainda mais a vida dos infelizes sem uma alternativa de tratamento.
Todos os argumentos são válidos, inclusive este, mas há fatores a considerar. Enquanto ilhados naquela região de São Paulo, os usuários sentiam-se seguros dentro da sua miséria. Suas únicas relações eram entre si e com quem comerciavam para conseguir dinheiro ou droga. Era uma cadeia produtiva fechada, que poderia durar pelo resto da (curta) vida de cada um, e não os induzia a considerar a hipótese de lutar pela recuperação.
Ou a sequer considerar seu dia-a-dia na cracolândia, composto de síndrome de abstinência, mendicância, extorsão, indescritível imundície, animais peçonhentos, feridas expostas, assalto sexual permanente, estupro, gravidez, aborto, fome, doença e dor -tudo isso compensado pelos breves momentos de alívio produzidos pela droga. Não existe prazer na cracolândia, só alívio.
Uma ação como a da semana passada, cortando o elo entre o usuário e seus iguais, ou entre o usuário e o traficante, tende a ser algo desesperador para o dependente. Como ele não consegue passar muito tempo sem o produto, a quebra na cadeia, se repetida, pode levá-lo, num extremo, a tornar-se violento e ameaçador - e, em outro, a procurar ajuda, quem sabe internação e tratamento.
Expulsos de seu habitat, ainda que por algumas horas, esses dependentes têm uma chance de exercer a última centelha de razão que lhes resta.

COMPORTAMENTO

Quando divididos entre comer chocolate sozinhos ou resgatar seus companheiros, ratos aparentemente escolhem libertá-los e então comer a guloseima juntos. Prender um dos animais em uma cela faz com que o outro tente abrir e soltar o amigo.
Isso é um estranho exemplo de como os ratos expressam empatia, uma ideia que nós achávamos ser exclusiva de mamíferos superiores.
A empatia é interessante de uma perspectiva evolucionária, já que sugere que o comportamento pró-social talvez tenha surgido antes do que imaginamos. E é interessante também para a neurociência, sugerindo que ratos podem ser usados como modelos de comportamentos humanos.
"Há diversos casos que mostram a empatia não apenas humana, e isso foi muito demonstrado com macacos, mas não com roedores”, afirma o coautor do estudo, Jean Decety, professor de psiquiatria e psicologia na Universidade de Chicago. “Nós fizemos uma série de experimentos com o comportamento de empatia em roedores, e foi realmente a primeira vez que isso foi realizado”.
O simples experimento não usou nada de tecnologia ou métodos estranhos – apenas dois ratos separados, que normalmente estavam juntos em uma jaula.
Os roedores começaram dividindo o local por duas semanas, o suficiente para desenvolver familiaridade. Então, eles foram colocados em câmaras especiais, onde um era inserido em um dispositivo que o prendia, mas que podia ser liberado pelo lado de fora. O outro rato era livre para andar e observar o caso do companheiro.
O rato liberto ficou agitado quando o companheiro de cela estava preso, o que, para os pesquisadores, é evidência de “contágio emocional”, uma forma menor de empatia em que animais dividem medo ou estresse um com outro.
Mas o que aconteceu em seguida foi muito empático. Apesar de agitados, eles não ficaram malucos, congelaram ou muito amedrontados. Ao invés, eles analisaram o dispositivo, morderam-no e o rato livre, além de ficar perto do outro rato preso, chegou até a tocá-lo (confortá-lo?).
Os pesquisadores tentaram de diversas maneiras entender o que motivou os ratos. Eles experimentaram gaiolas vazias, para garantir que o que os movia não era apenas curiosidade. Também tentaram manter os ratos separados após a libertação – o social seria como um prêmio por resgatar o rato preso – mas ainda assim, eles continuam os libertando.
Os cientistas até montaram o paradigma “companheiro versus chocolate”. Um rato livre era colocado em uma área com dois containers, um com um rato preso e outro com chocolate. O rato abriu ambos com quase a mesma frequência, sugerindo que “o valor de libertar o amigo era igual ao de comer chocolate”. Em mais da metade das vezes, os ratos livres não comeram todo o doce, mas deram metade para o companheiro.
Os roedores desenvolveram várias formas diferentes de abrir o dispositivo. Para os pesquisadores, eles aprenderam o sistema.
Ratas também se mostraram mais inclinadas a abrir a porta, “o que conspira para as sugestões de que as fêmeas são mais empáticas”, adicionam os autores.
O principal autor do estudo, Inbal Ben-Ami Bartal, afirma que os ratos não eram treinados, mas desenvolveram a habilidade de libertar seus companheiros. “Eles aprendem porque são motivados por algo interno”, comenta Bartal. “Eles tentaram e tentaram, e eventualmente conseguiram”.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

CHRISTOPHER HITCHENS, A MORTE DE UM INTELECTUAL "DO CONTRA"

Corria o ano de 2003, poucos meses após a derrubada do ditador Saddam Hussein pelas forças da coalizão anglo-americana, quando foram divulgadas fotos mostrando soldados dos EUA claramente abusando de prisioneiros iraquianos. Em imagens chocantes, presos eram mostrados amontoados, nus, cobertos de fezes, encapuzados, ameaçados por cães e em poses obscenas, enquanto sorridentes carcereiros, entre os quais uma jovem franzina de 21 anos de idade, pareciam divertir-se como se estivessem num churrasco. Logo o local dos abusos, a prisão de Abu Ghraib, viraria sinônimo, na imprensa mundial, de tortura e arbitrariedade.
Em meio à onda de revolta geral que se seguiu à publicação das fotos, a opinião que mais se ouviu foi que Abu Ghraib deitava por terra, definitivamente, a justificativa de que a guerra era necessária para derrubar uma tirania e instalar, em seu lugar, a democracia. Como demonstrava o escândalo, os americanos seriam iguais a Saddam etc. e tal.
Foi então que, no meio do clamor universal de condenação aos EUA, surgiu uma voz discordante.
Um escritor e jornalista britânico, com longos anos de militância na esquerda e conhecido por sua defesa intransigente dos direitos humanos - escrevera um livro com duros ataques ao ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, que considerava um criminoso de guerra - publicou um artigo em que, destoando radicalmente da onda mundial anti-EUA, ousava afirmar que, desde a invasão do Iraque e a queda do regime tirânico de Saddam, o respeito aos direitos humanos dos prisioneiros em Abu Ghraib aumentara drasticamente.
Como assim?, perguntaram-se muitos, atônitos. Simples, meus caros, prosseguia o autor do artigo: após a guerra, os americanos compraziam-se em humilhar e expor os prisioneiros em cenas degradantes; na época de Saddam, nenhum desses presos sairia vivo da prisão.
Em outras palavras: Abu Ghraib era agora um centro de torturas; antes, era um matadouro humano. Além do mais, os soldados americanos que aparecem nas fotos judiando dos presos que deveriam guardar responderam a processos e foram condenados, algo impensável na época de Saddam. Alguém poderia negar que houvera uma evolução?
Quem era esse escritor, jornalista e crítico literário que ousou desafiar assim um consenso mundial, do qual faziam parte a totalidade da esquerda, o New York Times, ONGs, a "Velha Europa", o papa etc.?
Seu nome era Christopher Hitchens.
No último dia 15/12, Hitchens, inglês de nascimento, morreu de câncer, aos 62 anos, nos EUA, país que (para horror de muitos de seus críticos) adotara como seu há alguns anos. Uma perda irreparável para todos aqueles que prezam a lucidez e o bom senso, pontuado por generosas doses de polêmica, que eram sua marca registrada.
Hitchens foi um dos poucos, praticamente o único public intellectual, ou intelectual público - figura absolutamente inexistente no Brasil, onde predominam os palpiteiros ou os ideólogos de quinta categoria do tipo Emir Sáder e Frei Betto - a não fazer coro com os que condenaram de antemão a intervenção anglo-americana no Iraque em 2003.
Na ocasião, ele defendeu ardentemente a mudança de regime em Bagdá como um imperativo da democracia e dos direitos humanos em face de um tirano sanguinário, que tinha em sua ficha corrida duas guerras e milhares de mortes em décadas de terror absoluto.
Por causa disso, ele, Hitchens, apanhou um bocado de seus pares, que pareceram não se importar muito com a contradição de falarem em nome da humanidade e, ao mesmo tempo, defenderem a permanência no poder de um facínora como Saddam. Hitchens, ao contrário deles, pode ser acusado de muitas coisas, menos de falta de coerência.
Poucos escritores de nossa época conseguiram revelar, com tanta verve e com tanta ênfase, a idiotia do antiamericanismo, sua completa miopia política e moral, que leva autoproclamados defensores da liberdade a se colocarem como escudo entre os EUA e regimes fascistas regidos por tiranos homicidas.
Raros são os intelectuais que, assim como Hitchens, desafiaram consensos fabricados em nome de princípios, não dando a mínima para a opinião do rebanho e para convencionalismos politicamente corretos. O fato de ser George W. Bush o presidente dos EUA não o deixou cego para o caráter realmente demoníaco (embora ele, Hitchens, fosse ateu) da ditadura de Saddam.
Tenho em Christopher Hitchens uma de minhas referências. Nem tanto por suas idéias, que quase nada tinham de originais (era um divulgador, não um filósofo). Mas, acima de tudo, por sua atitude de rebeldia intelectual, baseada no confronto da maioria e no pensar com sua própria cabeça.
Como polemista, ele era nada menos do que brilhante. Com a mesma lógica implacável com que defendia a derrubada de Saddam (cujo regime totalitário, ao contrário de muitos que se opuseram à guerra, ele conheceu de perto nos anos 70), Hitchens ajudou a demolir mitos como Madre Teresa de Calcutá e, em livros magistrais como A vitória de Orwell e Carta a um jovem contestador, firmar posição em defesa dos ideias democráticos. Era, enfim, um intelectual sem peias ideológicas, um espírito livre lutando pela liberdade - um verdadeiro "do contra".
Hitchens era ateu, e um cínico veria em sua morte prematura uma espécie de castigo divino (o que só reforçaria, a meu ver, seu ateísmo - para quê um deus que fulmina os que não se curvam perante ele?). Ninguém tentou, assim como no caso de Voltaire, chamar um padre. Sabiam que seria inútil. (Li que, em seu leito de morte, em estado terminal de câncer, ele queria falar de literatura.)
Honestamente, porém, acho essa característica de Hitchens - seu ateísmo - a menos interessante de suas qualidades. Muitos conhecem sua obra principalmente por causa do livro Deus não é grande que, juntamente com outras obras de autores como Richard Dawkins, Daniel Dennet e Sam Harris, tornou-se um best-seller da literatura ateísta que, de uns anos para cá, virou moda.
Pessoalmente, acho esse seu livro mais fraco, embora a premissa por trás dele seja interessante - em um momento em que se vê a ascensão de movimentos fanáticos e do fundamentalismo religioso, que atingiu o auge em 11 de setembro de 2001, um autor atrevido vem e ousa afirmar, com todas as letras que não, Deus não é grande, e que é melhor e mais saudável (mental e fisicamente) viver sem essa invenção de padres, rabinos e mulás...
Como polêmica, o livro é certamente eficaz, mas é raso filosoficamente, concentrando-se nos aspectos exteriores da religião, particularmente na forma como leva pessoas em outras circunstâncias boas e sensatas a cometer toda sorte de loucuras e insanidades em nome da fé. Além do mais, Hitchens ignorava que a militância atéista e anti-religiosa pode ser um instrumento para tolher a liberdade, como demonstram as ex-repúblicas comunistas e alguns "movimentos" atuais, que, em nome dos direitos de minorias, pretendem calar a maioria que reza (sim, estou me referindo aos talibãs do gayzismo e assemelhados). Prefiro o Hitchens ácido polemista político, inimigo declarado dos chavões e lugares-comuns esquerdistas que, por ter partilhado um dia, conhecia tão bem e demolia com tanta competência.
O mundo perde com a morte de Christopher Hitchens. Perde em inteligência, perspicácia, incredulidade, inconformismo e, acima de tudo, em espírito crítico e independência intelectual. E fica, infelizmente, um pouco mais parecido com o Brasil de hoje.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O CEMITÉRIO DE PRAGA

O escritor Umberto Eco completou 80 anos no último dia 5, e está de volta às manchetes literárias com seu novo romance 'O Cemitério de Praga', livro que acabo de ler (e recomendo).
Trata-se de uma história envolvente, cujo personagem principal, o único importante que é criado pelo autor, não passa de um pulha, um canalha que aceita qualquer coisa em troca de dinheiro. Sua vida é uma série de farsas e crimes, a cada momento atendendo a um cliente de lado diferente, algumas vezes simultaneamente.
Mas eis o que eu gostaria de destacar do livro: o alerta de como é perigoso selecionar uma “raça” como bode expiatório para todos os males do mundo é válido e sempre atual.
Os homens parecem inclinados a crer em teorias conspiratórias que simplificam um mundo complexo e jogam a responsabilidade de nossos problemas para ombros alheios. Se tais ombros forem de um povo minoritário e facilmente identificável, então o trabalho é mais fácil ainda.
O personagem principal, Simone Simonini, escreve em seu diário: “Sempre conheci pessoas que temiam o complô de algum inimigo oculto – os judeus para vovô, os maçons para os jesuítas, os jesuítas para meu pai garibaldino, os carbonários para os reis de meia Europa, o rei fomentado pelos padres para meus colegas mazzinianos, os Iluminados da Baviera para as polícias de meio mundo – e, pronto, quem sabe quanta gente existe por aí que pensa estar ameaçada por uma conspiração...
Aí está uma forma a preencher à vontade, a cada um o seu complô”. Por trás do encanto pelas teorias conspiratórias, jaz o ressentimento: “A que aspira cada um, tanto quanto mais desventurado for e pouco amado pela sorte
Ao dinheiro e, conquistado esse sem fadiga, ao poder (que volúpia em comandar um semelhante e em humilhá-lo!) e à vingança por todos os agravos sofridos (e todos sofreram na vida ao menos um agravo, por menor que tenha sido). [...]
Afinal, pergunta-se cada um, por que fui desfavorecido pela sorte (ou ao menos não tão favorecido quanto gostaria), por que me foram negados benefícios concedidos a outros menos merecedores do que eu?
Como ninguém pensa que suas desventuras possam ser atribuídas à sua mediocridade, eis que se deverá identificar um culpado”.
Logo, muitos desejam encontrar este grupo, esta classe, esta raça responsável por seus problemas, suas misérias. O trabalho do criador de complôs fica então bastante facilitado, pois ele encontra um público ávido por suas invenções e mentiras. “Convém que as revelações sejam extraordinárias, perturbadoras, romanescas. Somente assim tornam-se críveis e suscitam indignação”.
Além disso, “você jamais deve criar um perigo de mil faces, o perigo deve ter uma só, senão as pessoas se distraem”. Os judeus, povo durante muito tempo sem Pátria e, portanto, minoritário, relativamente fácil de ser identificado, e com muitos casos de sucesso material (até porque a Igreja sempre os ajudou, condenando a prática da usura entre seus seguidores), eram um alvo evidente para as teorias conspiratórias.
Como o russo Rachkovsky explica no livro: “Para ser reconhecível e temível, o inimigo deve estar em casa ou na soleira de casa. Eis por que os judeus. Eles nos foram dados pela Divina Providência, então vamos usá-los, meu Deus, e rezemos para que haja sempre um judeu a temer e a odiar. É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém já disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais costuma se enrolar em uma bandeira, e os bastardos sempre se reportam à pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Muito bem, o senso de identidade se baseia no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É preciso cultivar o ódio como uma paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. É sempre necessário ter alguém para odiar, para sentir-se justificado na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial”.
Foi desta forma que nasceu Protocolos dos Sábios de Sião, um conjunto de textos mentirosos que imputavam aos judeus um complô para dominar o mundo. Ele fora forjado pela polícia secreta do Czar Nicolau II, e ganhou inúmeras traduções pelo mundo todo, ajudando a disseminar o antissemitismo. Em 1921, o London Times descobriu as relações com o livro de Joly, publicado muitos anos antes, e denunciou os protocolos como uma falsificação. Mas o encanto pelas teorias conspiratórias falou mais alto, e o livro foi publicado várias vezes como autêntico depois disso.
Hitler, em Minha Luta, chega a escrever que os protocolos são verdadeiros, e a melhor prova é que os judeus negam sua veracidade. Para o nazista, quando todos tiverem conhecimento dos incríveis planos judaicos, o mundo estará perto da “solução final”, ou seja, o extermínio desta “raça”.
O horror do Holocausto, resultado desta campanha antissemita intensiva ao longo de décadas, ainda está fresco na memória de muitos. Mas o risco é sempre real, especialmente em tempos de crises, pois os homens são suscetíveis a teorias conspiratórias mirabolantes, e os judeus sempre serão um alvo fácil.
Nada mais reconfortante para os medíocres do que crer que seus infortúnios são obra de uma cúpula pequena reunida em locais secretos para construir complôs e dominar a humanidade.
É tudo culpa “deles”.
E assim os fracassados alimentam o ódio que aquece suas almas.

domingo, 8 de janeiro de 2012

VERSÃO BRASIL: MÃE MATA INVASOR COM TIRO DE 12 PARA PROTEGER SEU BEBÊ

(Tungado do blog de P. A. Marangoni)

Versão Star and Stripes:
Dia 1º de Janeiro, Sarah McKinley que ficou viúva no Natal, sozinha com seu bebê de 3 meses em casa, vê dois homens rondando a vizinhança, um deles ostensivamente com uma faca. Sarah pega a escopeta 12, vai ao quarto se reforçar com uma pistola e telefona para o 911
- Estou com meu bebê sozinha em casa, vocês podem mandar alguém imediatamente?
- Suas portas estão trancadas?
- Sim. Tenho duas armas nas minhas mãos, posso atirar nele se ele tentar entrar?
- Não posso dizer que você pode fazer isso, mas faça o que você precisar fazer para proteger seu bebê.
Sarah mira,atira,derruba um. O outro se entrega à Polícia, que considerou a atitude da cidadã plenamente justificada.

Versão verde e amarela:

Dona Maria Silva, que teve o marido executado num semáforo na semana passada, sozinha em casa com seu filho deficiente por erro médico ao nascer, vê dois suspeitos rondando. Não tem arma em casa, o revólver foi entregue na Campanha do Desarmamento. Pega um terço e uma medalhinha de santo e telefona para o 190:
-Estou sozinha em casa com meu nenê, tem uns caras se preparando para me roubar.
-FIQUE CALMA E NÃO REAJA
-Vocês podem mandar uma viatura agora?
-Estão todas em ocorrências minha senhora, hoje é dia de baile funk... vou pedir que desloquem uma para aí assim que possível.
-Então vou pegar uma faca na cozinha!
-Não faça isso minha senhora, COLABORE COM ELES, NÃO REAJA DE FORMA ALGUMA!Dona Maria tem sua casa invadida, é roubada, estuprada, seu bebê lançado contra a parede,
A Polícia e os especialistas em segurança consideraram a atitude de Dona Maria correta,
O meliante maior de idade está preso, mas sua família está recebendo auxilio do governo além das visitas frequentes das senhoras dos direitos humanos.
O meliante menor de idade foi devolvido à família e passará por ajuda psicológica para recuperação.
Está aprendendo capoeira em uma ONG.

O HERÓI DA DEMOCRACIA E A MÚMIA COMUNISTA

Às vezes a História prega peças na gente, com um sentido de ironia que desafia a compreensão.
Quis o destino que Vaclav Havel, o herói da luta contra o comunismo na ex-Checoslováquia, e Kim Jong-il, o caricato tirano comunista da Coréia do Norte, morressem quase no mesmo dia.
O poeta e dramaturgo Vaclav Havel, 75 anos, passou quase toda sua vida na oposição à ditadura comunista imposta a seu país por um golpe de Estado após a Segunda Guerra Mundial. Entre idas e vindas pela cadeia e manifestos como o "Carta 77", que pedia respeito aos direitos humanos, teve sua obra literária censurada pelos comunas capas-pretas a mando de Moscou. No auge da "primavera de Praga", sufocada com tanques pelo Kremlin em 1968, e destoando dos comunistas “soft” liderados por Alexander Dubcek, ele dizia o que era, já então, uma realidade inegável: era impossível dar uma “face humana” ao comunismo, uma ideologia e um regime desumanos por natureza (lição que alguns saudosistas ou simpatizantes da foice e do martelo ainda insistem em ignorar). Em 1989, ao sair de sua última estada na prisão, tornou-se o líder da Revolução de Veludo, que encerrou de vez, sem que um tiro fosse disparado, o domínio marxista-leninista no país, do qual se tornaria, meio relutantemente, presidente oito dias depois da queda do Muro de Berlim. Com a divisão da Checoslováquia em 1993, assumiu a Presidência da República Checa, aposentando-se da política em 2003.
O ditador Kim Jong-il, 69 anos, jamais conheceu a cadeia, embora tenha mandado milhares para campos de concentração. Herdeiro do ditador Kim Il-Sung (o "grande lider", caso único na História de "presidente eterno" mesmo depois da morte), Jong-il, o "estimado líder", transformou todo o seu país, a Coréia do Norte (oficialmente, "República Popular Democrática da Coréia", embora não seja nem democrática, nem popular, nem, a rigor, república) numa imensa prisão. Desde a morte do papai-ditador (que tinha, no currículo, a responsabilidade por uma das mais sangrentas guerras do século XX, entre inúmeras violações aos direitos humanos), o nanico Jong-il, com seu jeito esquisitão e cabelo à la Chico César, seguiu à risca o padrão de bizarrices que costuma acompanhar todos os ditadores do tipo. Não contente em matar seu próprio povo de fome (botando a culpa, claro, nos terríveis “imperialistas ocidentais”), ainda ameaçava o mundo com a arma nuclear, que a ditadura construiu em segredo por cinquenta anos. Fiel à tradição familiar e seguindo o exemplo de outros tiranos comunistas como Fidel Castro, algum tempo atrás ungiu seu filhinho, o rechonchudo Kim Jong-Un, como seu sucessor. Tudo indica que Jong-Un seguirá a mesma trilha de loucura totalitária do pai e do avô, afastando a empobrecida Coréia do Norte de sua vizinha, a rica - e democrática - Coréia do Sul.
Dificilmente poderia haver contraste maior: de um lado, um homem que dedicou sua vida à luta pela liberdade; de outro, um dos maiores praticantes do totalitarismo. Um deixa como legado a restauração da democracia em seu país, hoje um dos mais prósperos da Europa centro-oriental. Outro, deixa atrás de si um rastro de morte e destruição quase inimaginável, um país arrasado e reduzido à mais absoluta miséria por um regime capaz de tornar suportável a distopia totalitária imaginada por George Orwell em sua obra-prima, 1984. A separar os dois personagens, mais do que a distância, um mundo de diferenças. No caso do norte-coreano, um oceano de cadáveres.
Dizem que a morte iguala a todos. Se isso é verdade, aí estão dois exemplos que desmentem esse lugar-comum. Vaclav Havel, o herói da democracia, está no Céu, onde devem estar os benfeitores da humanidade. O mundo civilizado, que é a parte da humanidade que presta, chora sua morte e lhe rende justas e merecidas homenagens. Quanto à múmia comunista Kim Jong-Il, assim como todos os demais tiranos sanguinários de sua laia, não há nada a se lamentar em sua morte: que a terra lhe seja pesada.