A gravidez de um pai não se dá nas entranhas, mas fora delas.
Ela se dá primeiro no coração, onde o sentimento de paternidade é gerado. Um desejo de ser e de se ver prolongado em outra vida, que seja parte de si mesmo, mas com vida própria...
E quando ele sente pela primeira vez a vida que ajudou a gerar, tudo toma outra forma. Ele sente um chute e se diz já que este será um grande jogador de futebol. E muitas vezes se surpreende e se maravilha quando vê uma princesinha que sabe chutar tão bem. Mas tanto faz. Está ali um sonho que se torna palpável.
E um parto de pai se dá quando ele pega pela primeira vez sua criança nos braços, quando ele se vê em características naquele serzinho tão miudinho que nem se dá conta ainda que veio ao mundo e que se tornou o mundo de alguém. E os sentimentos e emoções se atropelam dentro dele. E ele sente que, à partir desse instante, a vida nunca mais será a mesma. E ele precisa olhar dez, cem, mil vezes para acreditar que tudo não passa de um sonho. E geralmente há um enorme sentimento de orgulho que toma posse dele.
Assim se forma um pai. Pronto para ensinar tudo o que aprendeu da vida, um dia ele descobre que não sabe realmente muito, que na verdade aprende a cada instante.
Diante da sua criança ele se torna um adulto vulnerável e acessível. E vai gerando, pouquinho a pouquinho, dentro de si mesmo, a arte de se tornar um pai.
"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo
que mutilá-lo."Carl Jung
que mutilá-lo."Carl Jung
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
HERÓIS ESQUECIDOS
Semana retrasada, o Brasil olhou para o Rio de Janeiro com orgulho pelo desempenho de seus policiais: alguns deles pelo heroísmo de recusar propina de traficante; outros pela competência e heroísmo de ocupar a Rocinha.
Mas, surpreendentemente, o orgulho com o heroísmo de alguns brasileiros provoca um sentimento de vergonha em relação à estrutura social do país: afinal, onde estamos errando ao ponto de a honestidade virar gesto heróico; onde erramos, ao ponto de ser necessário hastear a bandeira do País, em seu próprio território, como se fosse conquista de território estrangeiro?
Se no Brasil a honestidade fosse adotada como valor fundamental, a recusa de propina não seria publicada nem seria prova de heroísmo. Não se pode negar o heroísmo dos policiais, nem a conseqüente satisfação e orgulho de cada brasileiro, mas é preciso refletir sobre as causas desse sentimento de orgulho vir acompanhado do constrangimento
Se o Brasil tivesse investido de maneira eficiente e solidária nas políticas públicas em todos os locais, não teria sido necessário ocupar agora militarmente a Rocinha.
A ocupação militar de agora, como se tomássemos um território estrangeiro, decorre de que, ao longo de décadas, tratamos a Rocinha como um território estrangeiro. Do ponto de vista dos investimentos públicos, os dados sociais da Rocinha são tão contrastantes com aqueles da parte rica do Rio de Janeiro que parecem corresponder a um país diferente.
É isso que pode explicar o hasteamento da bandeira nacional na Rocinha depois da ocupação, como se a 7ª potência econômica invadisse o território de outro país em 84º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano.
A ideia das UPPs é ocupar militarmente para depois enfrentar a desigualdade na qualidade dos serviços públicos, transformando uma favela em bairro. Se no passado a Rocinha tivesse sido tratada como um bairro do Rio, hoje não seria necessária a ocupação militar para iniciar a transformação da favela em bairro.
Isso não diminui, até engrandece, os Policiais Militares e Civis, o Secretário de Segurança, o Governador e Vice-Governador pelas decisões tomadas e pelo sucesso das operações. Sobretudo o Tenente Disraeli. Mas o orgulho em relação a cada pessoa envergonha o país como um todo, pois é prova de que somos uma fábrica de heroísmos isolados, de pessoas que fazem o certo nadando contra a corrente, não tolerando o errado.
Recusar propina deveria ser um ato simples, óbvio; como deveria ser óbvio investir igualmente na qualidade de vida em todas as regiões. Mas nos acostumamos com a corrupção e a desigualdade, a exceção é o heroísmo e a ocupação militar é solução.
A convivência com a corrupção, tanto no comportamento quanto nas prioridades, obscurece a percepção da fragilidade de nosso orgulho nesta semana. Perdemos o desejo de orgulho por razões diferentes daquelas dessa semana. Até não acredita ser possível o orgulho pela abolição do analfabetismo, pela garantia de escola de qualidade para todos.
Nessa mesma semana em que aplaudimos policiais cariocas por ocuparem favelas, merecendo nossos aplausos, os chineses ocuparam o espaço sideral, acoplaram duas naves espaciais criadas por sua própria tecnologia e produção.
Há décadas, nós estávamos à frente da China e da Índia em matéria de pesquisas espaciais. Agora, nosso orgulho é com a ocupação do solo urbano, enquanto eles ocupam o espaço sideral. Em breve o Irã, a Coréia do Sul e países com tamanhos e potenciais econômicos muito menores que os nossos estarão na nossa frente.
Da mesma forma que deixamos de perceber o absurdo de nosso atraso ético, que considera heróis os que não se corrompem, e de fato são heróis, já deixamos de comparar nosso atraso técnico em relação ao resto do mundo.
Acostumamo-nos tanto em estarmos atrasados, que comemoramos com orgulho um gesto pessoal que deveria ser normal em uma pacificação urbana que já deveríamos ter atingido tempos atrás.
Tudo isso porque não consideramos heróis os dois milhões de professores, sem salários, sem condições básicas de trabalho, sem ambiente favorável para o trabalho. O Brasil estará no bom caminho quando honesto não for herói, for apenas honesto; e quando favela não for favela, for apenas bairro.
Mas isso só acontecerá quando professor também não for herói, for apenas professor, bem remunerado, bem preparado e bem dedicado. Se isso já tivesse acontecido, talvez há muito tempo já tivéssemos passado do tempo em que ser honesto é um ato heróico, e nem seria necessário comemorar a ocupação militar de parte do nosso próprio território.
domingo, 4 de dezembro de 2011
ESPANHA: DIREITA, VOLVER!
A alternância de poder (sempre e tão almejado objetivo que motiva, mobiliza e dá sentido a todas as verdadeiras democracias do mundo) soprou em rajadas neste fim de semana sobre terras de Espanha, no quase início de inverno europeu de 2011.
A imprensa brasileira, mobilizada de uma maneira geral em torno da pacificação da Rocinha, no Rio de Janeiro, ou do xaveco do ministro Carlos Lupi, em Brasília, parece não ter-se dado conta ainda a intensidade da tempestade política e econômica que vem do outro lado do Atlântico.
No continente à beira de um ataque de nervos que ameaça contaminar outras terras e outras regiões do planeta (atenção Dilma Rousseff e PT), milhões de eleitores do país de Dom Quixote (viva Cervantes!) foram às urnas no domingo (19), trazendo surpresas de arrepiar. A começar por uma virada de quase 180 graus da esquerda para a direita.
A vitória esmagadora do conservador do PP, Mariano Rajoy, sobre os socialistas e aliados da esquerda de José Luiz Zapatero, no comando do país há quase uma década foi algo quase inimaginável há anos, quando andei nas ruas e avenidas monumentais de Madri pela última vez.
Era abril de 1998, começo de primavera na Europa em tempo de apogeu do milagre econômico espanhol. Madri, como a Buenos Aires do tango de Gardel, exibia-se outra vez florescente, bonita e aberta para o mundo. "Uma capital ensolarada, festiva e em obras", como proclamavam eufóricos seus principais jornais e emissoras de TV.
Otimismo borbotava por todos os poros. Os diários e revistas semanais em geral, mas principalmente as redes de TV, não cansavam de mostrar imagens dos múltiplos e imensos canteiros de obras de uma capital e de um país a quase pleno emprego, paraíso de poderosos grupos financeiros e das grandes empreiteiras da construção civil a pleno vapor.
Tudo começava já no monumental aeroporto de Barajas, que acabara de ser ampliado e de passar por ampla reforma modernizadora bilionária em todas as instalações.
Ali desembarquei, em viagem de estudos com uma turma do Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais da PMRO. Vinha à Espanha depois de viver intensamente dias muito agradáveis em Lisboa, naquele ano em que nosso irmão europeu e sua capital vivia a experiência da Feira Internacional.
Portugal e sua principal vitrine urbana, política e social, até importavam na época profissionais de nível superior, sem emprego em seus países do leste europeu, para trabalhar na capital lusitana. Ambiente bem diferente da cidade tensa e tumultuada por protestos que os noticiários exibem quase diariamente neste tempo de crise braba.
No embarque para Madri, um primeiro sinal de alerta: os encarregados da Imigração no principal aeroporto lisboeta, aos berros e caras de poucos amigos, me mandaram abrir o cinturão que segurava as calças, tirar sapatos e meias, e ficar de braços abertos como espantalho em roça de milho no sertão baiano, para a revista em regra. Na chegada à Madri, menos de duas horas de vôo depois, a recepção dos sonhos de qualquer turista em suas viagens.
Um aeroporto quase novinho em folha, apinhado de gente, com todas as conquistas da moderna tecnologia funcionando para facilitar e amenizar a vida do cidadão viajante, em lugar de atazaná-lo com suspeitas e burocracia invencíveis. Nem ao menos um cara daqueles renitentes para conferir se a bagagem que você está levando é a sua mesmo. E estamos na Espanha de 1998, antes da primeira e esmagadora vitória da esquerda nas eleições para o Parlamento, que levaria Zapatero ao comando do poder, onde se manteria por longo período até a crise chegar, corroendo o prestígio desgastado até o final melancólico de uma era que se proclamou neste domingo espanhol.
Ateu gaúcho que acredita em milagre vibrava com as imagens e o otimismo que borbulhavam em minha volta naquele tempo. Meu lado cético, no entanto, pontuava como uma espécie de permanente e vigilante consciência crítica a soprar nos meus ouvidos: "Isto é muito bonito, mas não me cheira bem. Não sei explicar o motivo, mas algo me diz que alguma coisa está fora da ordem ou de controle por aqui".
É sobre isso que reflito agora nestas linhas, após a eleição que promoveu a virada histórica na Espanha neste final de 2011. Treze anos depois de passar pela "Espanha socialista", leio agora em um dos principais diários europeus:
"Mariano Rajoy Brey, 56 anos. Galego da gema, conservador nascido em Santiago de Compostela em 1955 no seio de uma família de políticos, presidente e candidato do Partido Popular, foi eleito primeiro-ministro de Espanha
Quem diria? Direita, volver! Mas ainda assim, viva o voto popular e viva a alternância de poder na Espanha.
sábado, 3 de dezembro de 2011
ROÇAS DE CRIMINALIDADE E SEARAS DE DIREITOS
A tomada da Rocinha no Rio de Janeiro, a maior favela da América Latina, por forças policiais, apesar de sinalizar o resgate do escopo da cidadania para uma comunidade de 70 mil habitantes, não afasta a sensação de que até mesmo eventos de alta significação no calendário cívico são usados como espetáculo midiático-político, coisa comum nesses tempos em que governantes procuram tirar proveito de vitórias sobre o mal.
Todas as loas para o secretário de segurança, o delegado federal José Mariano Beltrame, cujas atitudes e expressão parcimoniosa diferem do adjetivo grandiloquente de seus superiores, mesmo constatando-se que a anunciada “batalha da ocupação”, por dias seguidos, tenha ensejado a fuga da bandidagem que imperava na favela.
Assim, o aparato de guerra, os blindados, o desfile de soldados com armamentos pesados e o arsenal apreendido entram na paisagem como a estética de apoio à semântica do “discurso da libertação” de uma população que, há décadas, era obrigada a conviver com gangues e drogas. Situação que, vale registrar, tinha o endosso de grupos policiais que, hoje, emergem como heróis.
A estratégia de ocupação das favelas cariocas para combate direto ao tráfico de drogas escancara uma verdade: a chave da política abre todas as portas. Do bem e do mal.
É sabido que, na década de 80 (l983/87), sob o governo de viés populista de Leonel Brizola, desenvolveu-se um processo de favelização no Rio de Janeiro, caracterizado pela proibição de deslocamento de famílias dos morros e cessão de espaços públicos para construções irregulares.
Embalado em romantismo, Brizola acedeu ao apelo de comunidades que se queixavam da violência policial. Proibiu incursões das forças policiais nas favelas, o que acabou expandindo a criminalidade. Dizia-se que negociava o apoio de criminosos que atuavam como cabos eleitorais, dando-lhes, em retribuição, autonomia para fazer suas operações. Corria a versão de acordo pelo qual os bandidos podiam agir livremente em seus territórios, contanto que não descessem dos morros para a cidade.
Agora, a decisão política é de fazer valer a lei nos antros da bandidagem, a ação mais emblemática do atual governo do Rio, e que redundará em ganhos políticos. A bandeira está hasteada. Cada Unidade de Polícia Pacificadora (UPP)- a da Rocinha é a 19ª – significa um eixo de paz fincado onde antes se exibia o fuzil.
É cedo para antecipar os impactos da ocupação das favelas cariocas. A expulsão de máfias criminosas gera, em um primeiro momento, descontração geral.
As comunidades vêem e sentem potentia, o poder físico do Estado, conceito que os antigos romanos distinguiam do poder legal, potestas, e do poder político, auctoritas.
Passada a euforia, as populações passam a cobrar mais que força bruta.
Ou seja, rompidos os paredões do medo, chega a vez das demandas essenciais a cargo do Estado.
O ponto de partida é o resgate dos direitos civis, a partir do direito à propriedade (regularização fundiária), passando pelo acesso à justiça (instâncias judiciárias como juizados de pequenas causas), chegando aos serviços básicos – postos de saúde, saneamento básico, coleta de lixo, energia, comunicações, educação – base do edifício da cidadania.
Como se infere, a gestão passa a ser ferramenta central para o bem estar comunitário. Só no Rio de Janeiro, contam-se 197 programas destinados às favelas, dado que mostra a dispersão e a ausência de prioridades e urgências.
Sua integração resultaria em maior eficácia.
O planejamento, por sua vez, envolve decisões de natureza política: como restabelecer o Estado legal dentro de um espaço dominado pela barbárie? Por onde começar? Leis vigentes – que regulam as atividades comerciais, por exemplo– devem ser aplicadas com rigor nos territórios resgatados ou flexibilidade deve ser adotada, particularmente nos campos da burocracia e dos impostos?
Sem atividades produtivas e comerciais que possam absorver razoável parcela da mão de obra local, serão abertas janelas da ilegalidade, dentre as quais está o tráfico de drogas, chegando-se, assim, ao circulo vicioso da corrupção. Eis aqui um aspecto nevrálgico da estratégia de reconquista de espaços dominados pela bandidagem: como eliminar os focos da corrupção endêmica? Como evitar corrupção no aparelho policial?
Sabe-se da dificuldade de um soldado de primeira classe propiciar uma vida decente à sua família ganhando um soldo em torno de R$ 1.200,00. Encontra a solução nos trocados fazendo bicos, porta aberta para trafegar na ilegalidade. A corrupção no seio policial tem outras razões que não apenas parcos proventos. (Aliás, a PEC 300, que trata dos salários das polícias, seria um bom começo para a reestruturação da política de remuneração das forças policiais).
A renovação de quadros, ao lado de sólida formação na carreira e melhoria das condições de trabalho, reforçaria o desempenho cívico dos batalhões. Uma comunidade amparada pelo Estado, inserida no mercado de trabalho, mostrando jovens engajados em projetos educacionais, desvaneceria o ímpeto do crime.
Em suma, a harmonia social exige raízes fincadas na seara dos direitos civis. A recíproca é verdadeira. A corrupção nasce em terrenos baldios do Estado ausente. Se a comunidade não dispuser dos braços do Estado formal para se socorrer, procurará outros meios de salvaguarda, dentre eles milícias e entidades de intermediação da pobreza, dentre as quais multiplicam-se organizações de clara orientação política, que agem como braços eleitorais de perfis mancomunados com as máfias.
Eis aí mais uma frente a ser depurada. Entidades que semeiam o bem devem reforçar a ação moral de ajuda às populações e denunciar enclaves criminosos.
Por último, o alerta: todo cuidado é pouco para evitar que a experiência do Rio de Janeiro no mundo das favelas seja contaminada pelo vírus do oportunismo político. Ela pode ser um exemplo a ser seguido em outras rocinhas da bandidagem. Aqui e alhures.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
MUITO CONHECIMENTO E POUCAS IDÉIAS
Com pouco mais de 150 pessoas no Rio e umas 30 em Brasília, as marchas contra a corrupção programadas para o feriado de 15 de novembro foram um fracasso. Culparam a chuva. Não é bem assim.
Combinando o grau de educação e de conscientização política com a qualidade do fluxo de informação e o bom ambiente econômico, não existe terreno fértil para que a indignação com a corrupção germine grandes manifestações.
Além do mais, as ideias já não incendeiam as almas como antigamente. Não são capazes, como antes, de mobilizar multidões. Conforme disse Neal Gabler, em artigo publicado no The New York Times, “as ideias simplesmente não são o que costumam ser”.
Ideias podiam criar celebridades, como Albert Einstein e Carl Sagan, entre muitos outros nomes.
Hoje, nem tanto.
A mobilização das pessoas se dá a partir de experiências vividas na própria pele. Como no caso da Primavera Árabe, deflagrada por um vendedor de rua da Tunísia. Foi um basta a décadas de opressão.
Para Gabler, a desvalorização das ideias está ligada à valorização do conhecimento que tem utilidade imediata. Nos tempos atuais, o mercado quer o conhecimento rápido e aplicável.
Ironicamente, o próprio mercado, para se expandir e se renovar, depende de ideias e de inovação. Sem elas, tudo vai ficando uma enorme mesmice.
No Brasil de agora, colhido pelos ventos da globalização, as ideias também se desvalorizaram em detrimento do conhecimento e da informação.
Mas não apenas por conta da priorização do imediatismo, que transforma, por exemplo, os vestibulares e as provas em gincana de conhecimento inútil, ao invés de fomentar o pensamento crítico e reflexivo.
O que contribui ainda mais para a desvalorização das ideias no Brasil? Tenho algumas pistas.
Uma delas é que o canal por onde elas transitam é enviesado e tendente a expurgar o que não esteja dentro de certo padrão ideológico.
O segundo obstáculo é o pragmatismo fisiológico, que faz com que os interesses se sobreponham aos ideais e o debate político se realize sem sonhos ou utopias. Com as ideias e a ideologia sendo usadas para justificar movimentos táticos e a luta do poder pelo poder.
Assim, entre os aspectos interesseiros e o viés ideológico, o Brasil ainda é um país pobre de ideias.
Como combater a escassez de ideias? Exemplos não faltam. A Google mantém um laboratório ultrassecreto onde são geradas inúmeras ideias. Muitas delas são estapafúrdias, mas, de repente, podem ter alguma utilização prática.
Estimular a produção de ideias é importante como planejamento estratégico e fonte primária da inovação. É um papel que as instituições públicas e privadas deveriam assumir: gerar ideias e ter a humildade de transitar de fracasso em fracasso até criar uma de sucesso.
É evidente que a informação e o conhecimento já empacotados também são úteis e necessários no mundo de hoje. Mas não bastam.
O que vai nos levar adiante não é apenas saber o que os outros já sabem. Mas, sobretudo, saber o que ninguém sabe. E isso só é possível a partir da elaboração de ideias que levem à inovação.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
BASTA DE BOI, BESTAS E BOSTAS DE VAZAMENTOS!
Governo de coalizão - baseado em partidos que se juntam apenas pelo fisiologismo- normalmente redunda em colisão. Ainda mais quando os principais partidos do esquema desgovernista (PT e PMDB) são especialistas em fabricar dossiês de intrigas contra seus supostos
aliados, companheiros de partidos e, lógico, contra aqueles que consideram inimigos. O “fogo amigo” queima até o rabo e o filme do mais santo diabinho político.
Nem sendo imortal se escapa da chamuscada. Vide o exemplo vivíssimo do companheiro José Sarney. O acadêmico presidente do Senado contratou a consultoria carioca Prole para fazer uma
pesquisa e apontar como seria possível melhorar sua imagem pessoal perante a opinião pública. O probleminha é que Sarney não gastou um tostão de seu rico bolso para pagar pelo serviço. Os R$ 24 mil saíram dos cofrinhos do Senado Federal. E o que acontecerá com Sarney por este pequeno uso de dinheiro público para fins particulares? Nada!
O mesmo deve acontecer com a etroleira Chevron – responsável por um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil. A transnacional alega que cometeu um erro e cálculo na injeção de lama pesada para impedir o retorno do petróleo. Mas a Polícia Federal investiga se a falha não foi outra – bem mais grave. Suspeita-se que a Chevron tenha perfurado além da profundidade permitida no Campo de Frade, para atingir, sem permissão, a camada pré-sal.
Logicamente, a empresa nega a sujeirinha. Triste é a imagem do oceano de óleo vazado há 12 dias, sem que um esquema de emergência para conter, depressa, o problema. A “sorte” é que o poço vazado fica a 120 Km do litoral do Rio de Janeiro. Se fosse mais perto, e a corrente marítima se dirigisse na direção da terra firme e não do oceano Atlântico, teríamos uma tragédia ambiental de proporções inimagináveis.
No alto-mar, as baleias jubarte e outros bichos devem ser afetados. Problema para o Bob Esponja. Só causam espanto a timidez do Greenpeace em fazer festinha contra o problema, e a nossa abestada e amestrada mídia eletrônica que minimiza o desastre o máximo que pode. Até quando tal omissão controlada vai durar só o Grande Geólogo do Universo pode nos dizer.
Tentando sobreviver politicamente no mar de lama que a cerca na Ilha da Fantasia do Podre Poder, a Presidenta Dilma Rousseff ainda não se pronunciou, de forma contundente, sobre o tema. Queria o quê? A ex-presidenta do Conselho de Administração da Petrobrás nem fala direito
sobre o vazamento do escândalo Gemini. Que dirá falar mal da Chevron – outra sócia minoritária da estatal de economia mista na exploração daquele poço onde ocorreu o vazamento.
O desgoverno petralha, na verdade, está com medinho é de outro vazamento. Teme-se o troco pela troca de “fogo amigo” que queima Carlos Lupi e que já incinerou outros cinco ministros em onze meses de gestão da ex-guerrilheira e ex-brizolista Dilma Dynamite (como lhe chamam os coleguinhas da The Economist e Newsweek). A próxima vítima dos vazamentos de corrupção seria ninguém menos que Fernando Haddad – o ministro da Educação que Lula impôs como pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, em 2012.
Nosso povo sem memória já não canta, com tanta freqüência, as músicas de Noel Rosa. Mas todos – com ou sem maldade – se perguntam: “Onde está a honestidade? Onde está a Honestidade?”. Ainda bem que a Dilma sancionou a Comissão da Verdade. Quem sabe ela não vai descobrir quem se deu bem com a grana roubada do cofrinho do Ademar e de tantos outros assaltos a bancos ocorridos nos tempos da guerrilha urbana e rural que queria implantar o comunismo no Brasil, nos anos 60 e 70? Quem sabe...
Pena que já não esteja entre nós o comandante da Inteligência do Departamento da Ordem Política e Social naqueles tempos que a Comissão da Verdade promete vasculhar. Do contrário, o ex-senador Romeu Tuma seria obrigado a revelar quem era o “Agente Boi”. Seria terrível descobrir a verdadeira identidade do sindicalista que se escondia neste bovino codinome. Seria tenebroso revelar como o Boi (sempre cheio de fogo) mugia, naqueles tempos de dita-dura, para praticar seu “fogo amigo” contra supostos aliados e inimigos.
Deus queira que Tuma e o “General" Golbery (criador da criatura Boi) não vazem da camada pré-sal para fazer tais revelações. Seria tão assustador quanto o vazamento de óleo na Bacia de Campos. Ou mais linfomático que o vazamento de dossiês na Esplanada dos Ministérios fisiológicos da companheira Dynamite...
OBJETOS DE ARTE - Taça A Reticello (Séc XVI)
Até o início do século XVI, os vidreiros de Murano produziam objetos de vidro incolor e transparente, que decoravam usando diversas técnicas. Em 1527 Filippo e Bernardo Serena criaram um novo processo que ficaria conhecido como vetro a retorti (vidro filigranado). O processo envolvia soprar e trançar longos e finos bastões de vidro incolor transparente e vidro branco leitoso, para formar uma rede muito delicada, que lembrava a filigrana da renda veneziana.
Por ser processo complicado e muito elaborado, levou uns dez anos e a colaboração de outros vidreiros da ilha para que o vetro a retorti, conhecido como “reticello”, isto é, vidro parecendo uma rede muito fina, fosse aperfeiçoado.
Passou então a ser objeto do desejo dos ricos que podiam enfeitar suas mesas com peças que pareciam teias rendadas (foto abaixo)
Produzido em Murano durante o Renascimento, esse foi, sem dúvida, o mais original e delicado. Durante mais de cem anos somente os vidreiros de Murano conheciam seu segredo. Só quando alguns deles foram trabalhar em outros países, foi que a técnica do vetro a retorti pode ser reproduzida no resto da Europa.
Em Murano, a produção continuou até o final do século XVIII. Depois de um longo hiato, que terminou no século XX, o delicado “reticello” voltou a ser fabricado.
A taça apresentada hoje mede 17.6 cm de altura e sua boca tem 10.9 cm de diâmetro.
Acervo Metropolitan Museum of Art, NovaYork
Assinar:
Postagens (Atom)