"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo
que mutilá-lo."Carl Jung

terça-feira, 8 de março de 2011

O PROBLEMA DAS VIRGENS

Outro dia lia o "Carta a uma Nação Cristã" do filósofo ateu Sam Harris. É um livro fininho de leitura agradável, companhia perfeita para se ter na pasta quando se vai para o Bradesco para pagar mais uma conta; você começa a ler logo após sentar naquelas poltronas vermelhas, faz uma pausa para trocar o protocolar "bom dia" com algum conhecido, outra pausa mais tarde para procurar um cafezinho ou tomar um copo d’água e antes de chegar ao caixa você já terminou. Então deve ter sido quase na hora de chegar no caixa, já chegando ao final do livro, que mais uma vez vi mencionada aquela história de que os terroristas muçulmanos que seqüestraram os aviões no dia 11 de setembro acreditavam que, em troca de seu martírio, seriam recompensados no paraíso com um séquito de 72 virgens. Só que desta vez eu parei para pensar um pouco mais no lado, digamos, prático, deste assunto. Supondo que a religião islâmica realmente assegure 72 virgens aos que morrem em nome de Alah, será que esta graça está reservada aos mártires ou é estendida a todos os fiéis que adentram o paraíso? E de onde vêm 72 mulheres virgens para cada homem do reino dos céus? São as almas das mulheres que morreram imaculadas que vão ao céu servir os mártires? Se não, o que reserva o céu às mulheres mártires? maridos perfeitos que nunca se esquecem de abaixar a tampa da privada? Pensando em todas estas questões decidi pesquisar um pouco mais sobre o paraíso islâmico. Comecei pelo Alcorão. O livro máximo da religião islâmica não deixa dúvidas de que o paraíso islâmico é um lugar bastante sensual, mas nada é dito sobre a quantidade de virgens que aguarda os eleitos. "E se deitarão sobre leitos incrustados com pedras preciosas, frente a frente, onde lhes servirão jovens de frescores imortais com taças e jarras cheias de vinho que não lhes provocará dores de cabeça nem intoxicação, e frutas de sua predileção, e carne das aves que desejarem. E deles serão as huris [virgens] de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas, em recompensa por tudo quanto houverem feito. (...) Sabei que criamos as huris para eles, e as fizemos virgens, companheiras amorosas para os justos." Alcorão, surata 56, versículos 12-40.(todas as traduções deste texto foram feitas a partir do inglês) São inúmeras as passagens como esta que mencionam a existência no paraíso de jóias, criados jovens e cheirosos, vinho (uma extravagância, já que o islã proíbe consumir bebidas alcoólicas em vida), rios de leite, rios de mel, rios de água (que costuma ser coisa preciosa nos países muçulmanos), frutas abundantes e moçoilas virgens para fazer "companhia" aos justos... Comparado ao paraíso cristão, com seus anjos assexuados de aparência andrógina tocando harpa e entoando cânticos (quando não estão em missão para destruir alguma cidade ou coisa assim), o céu islâmico parece o Club Med dos paraísos. Só que diferentemente da Bíblia, que é a única fonte autenticada pela Igreja das palavras de Deus, na religião islâmica o Alcorão é complementado pelos hadiths, uma coletânea de histórias sobre tudo o que supostamente disse ou fez o profeta Maomé durante sua vida, que circularam no boca a boca por mais de um século até serem redigidas em sua forma atual. É aí, nessa barafunda de textos, às vezes antagônicos, que vamos encontrar mais detalhes sobre o paraíso islâmico, incluindo o número de virgens com que os eleitos são agraciados: "A menor recompensa para aqueles que se encontram no paraíso é um átrio com 80.000 servos e 72 esposas, sobre o qual repousa um domo decorado com pérolas, aquamarinas e rubis, tão largo quanto a distância entre Al-Jabiyyah (hoje na cidade de Damasco) e Sana'a (hoje o Iemem)"Hadith 2687 (Livro de Sunan, volume IV). Se esta é a menor recompensa que aguarda os felizardos no paraíso, então é certo que os servos e as virgens não foram parar lá por mérito. Quem sabe fossem candidatos ao inferno (não dizem que "é melhor reinar no inferno que servir no paraíso"?). No caso das virgens isto faria todo o sentido, já que a rotina delas no céu não é moleza; sobre isso escreveu Al-Suyuti, um renomado comentador do Alcorão e estudioso dos hadith, no século XV: "Cada vez que se dorme com uma huri descobre-se que ela continua virgem. Além disso o pênis dos eleitos nunca amolece. A ereção é eterna. A sensação que se sente cada vez que se faz amor é mais do que deliciosa e se você a experimentasse neste mundo você desmaiaria. Cada escolhido se casa com setenta huris, além das mulheres com que se casou na terra, e todas têm sexos apetitosos." Para as virgens o paraíso islâmico é mais ou menos como uma versão pornô do mito de Prometheus (aquele do titã que tinha seu fígado devorado todos os dias por uma águia), só que é o hímen das jovens donzelas, e não o fígado do titã, que se regenera perpetuamente. Se você tem uma ereção permanente e o resto da eternidade nas mãos algumas dezenas de virgens não devem bastar, por isso o paraíso islâmico conta ainda com um local que, cá embaixo seria chamado de "bordel", mas que no paraíso islâmico chamam de "mercado". Segundo os hadith, Maomé teria dito: "Existe no paraíso um mercado onde não há compra ou venda, mas homens e mulheres. Quando um homem deseja uma mulher ele vai até lá e tem relações sexuais com ela." Al Hadis, Vol. 4, p. 172, No. 34 Os cristãos, a quem devemos a noção agostiniana de que o mundo físico é impuro, gostam muito de apontar o dedo na cara dos muçulmanos e dizer que o paraíso deles é "liberal" demais. Aí, é a vez dos muçulmanos dizerem aos cristãos que se eles querem mesmo falar sobre sacanagem em livros sagrados é bom que se lembrem que têm teto de vidro. É impressionante quanta energia é gasta na internet nesta troca de citações porno-sacras entre cristãos e muçulmanos; eu imagino que jovens beatos de ambas as religiões aprendam bastante sobre estupro, pedofilia e prostituição nestes sites. Bem, na defesa dos muçulmanos é justo dizer que como os hadith foram escritos muito tempo depois da morte de Maomé, nem todos eles são considerados genuínos pelos estudiosos islâmicos (segundo eles, por exemplo, o trecho acima é falso). Só que mesmo as passagens consideradas verdadeiras podem ser bastante embaraçosas; em algumas delas o constrangimento dos tradutores fez com que a formosura das virgens fosse minguando até que seus detalhes anatômicos desaparecessem por completo. Eis um bom exemplo: Versão 1 - por Arberry Para os tementes aguardam um lugar seguro, jardins, vinhedos, donzelas de seios arredondados (maduros) e um copo transbordante de vinho. Versão 2 - por Yusuf Ali Para os justos haverá a satisfação dos desejos em seu coração, jardins e vinhedos, companheiras da mesma idade e um copo cheio de vinho. Versão 3 - por Rashad Khalifa Os justos merecerão uma recompensa. Jardins e uvas. Esposas magníficas. Drinques deliciosos.Surah an-Naba' (78:31-34) Mas existe uma boa chance de que os tradutores islâmicos nunca mais precisem dissimular a exuberância das virgens. Um livro publicado recentemente na Alemanha e muito bem recebido pela comunidade científica, "Die Syro-Aramaische Lesart des Koran" ("Uma Leitura Sírio-Aramaica do Alcorão"), do professor de línguas antigas Christoph Luxenberg, defende a tese de que muita coisa faria mais sentido nos textos sagrados se os tradutores levassem em conta que o Alcorão não foi escrito apenas em árabe, mas num mix de antigos dialetos aramaicos. Por exemplo, a palavra "hur", que em árabe quer dizer "virgem", em sírio significa "branca". Assim, segundo Luxenberg, as "castas huris de olhos castanhos" descritas no Alcorão seriam na verdade "uvas brancas secas" de "clareza cristalina", uma iguaria bastante apreciada naquela época. Dá para imaginar a decepção dos mártires? Deve ser como comprar uma passagem para um cruzeiro de solteiros e ao embarcar descobrir que não vai ter mulher... No final o problema das virgens vai ser resolvido com a troca de uma única palavrinha. Nenhum candidato a homem-bomba vai ficar mesmo muito entusiasmado em abandonar esta vida quando souber que sua recompensa por morrer abraçado em dinamite será um suprimento vitalício de passas. Mas é claro que esta não deveria ser a solução. A continuidade da civilização como a conhecemos não deveria depender da tradução de uma palavra num livro sagrado, ou de distinguir o que de fato disse um homem denominado profeta das fantasias eróticas de um bando de velhos babões. Melhor seria se não houvesse pessoas no mundo dispostas a acreditar literalmente em histórias escritas há milhares de anos, numa época em que a maioria das pessoas sabia tanto sobre o mundo natural quanto provavelmente sabe hoje uma criança da sétima série, e tinha os mesmos temores e superstições infantis de uma criança da quinta série.

AUTO-ILUSÃO CONTRA A AIDS

As pessoas tem uma capacidade muito grande para inventar histórias e explicações fantásticas. Muitas usam esta capacidade para criar visões distorcidas da realidade na esperança de construirem para si mesmas um universo mais feliz e justo. Uma coisa que frustra muitos seres humanos é a sua impotência diante do universo e das leis naturais e é isso que deixa muitos mais propensos a acreditarem em magia, bruxaria, vidência, paranormalidade e coisas do tipo. A pseudo-medicina tem um apelo tão grande justamente por criar um mundo ilusório no qual a panacéia não é um mito - mas algo real. Você só precisa ignorar tudo o que dizem os cientistas e médicos materialistas, positivistas e malvados. Eles participam de uma conspiração secreta para esconder a existência da panacéia das pessoas comuns. Também existe um outro tipo de auto-ilusão ainda mais irracional. Aquela que ao invés de afirmar a existência de algo inexistente nega a existência de algo que existe. Essas pessoas simplismente ignoram todas as provas de existência de algo. Os criacionistas e os neo-nazistas que negam o holocausto são um bom exemplo. Eles demonstram um pseudo-ceticismo profundo contra qualquer evidência que vá contra o que eles acreditam. Recentemente, descobri um outro exemplo muito triste de pessoas que rejeitam a existência de algo evidente. Eles formam um grupo conhecido como CURA, ou Centro pela Urgência da Reavaliação da AIDS. Apesar da sigla, as idéias que este grupo defende não tem absolutamente nada de benéficas para a saúde das pessoas. O que essa gente afirma é que o HIV não causa AIDS. Ou seja, não tem problema algum em fazer transplantes de sangue em pessoas que são portadoras do vírus e também o uso de camisinha não em efeito nenhum na prevenção da doença. Dizem também que se você foi diagnosticado como soropositivo, não deve tomar o coquetel de medicamentos contra a AIDS, pois é esse medicamento que vai fazer você ficar com AIDS. Este movimento de dissidência é quase tão antigo como o descobrimento do HIV. Tudo isso começou com os questionamentos do professor de biologia molecular e celular Peter Duesberg que acusava os estudos que indicavam que o HIV causa AIDS de serem inconclusivos. Não demorou muito para que outros pesquisadores passassem a concordar com as opiniões de Duesberg. Em princípio, não havia nada de errado neste questionamento, pois uma das principais vantagens da ciência é a inexistência de dogmas. Qualquer dissidência no meio científico deve ser visto como algo positivo, pois elas podem fazer com que teorias sejam refinadas e melhoradas. O problema acontece quando pessoas com uma posição minoritária começam a escrever artigos para a mídia e para pessoas comuns dizendo que a sua opinião dissidente é uma verdade e que já foi comprovada. Não demorou muito para que pessoas comuns que estavam contaminadas pelo vírus tomassem conhecimento das idéias defendidas pelos cientistas dissidentes. Eles diziam que os portadores da doença não estavam condenados a morrer e que podiam levar uma vida sexual normal. Não é muito difícil entender porque muitos preferiram acreditar em uma minoria dissidente do que na opinião da esmagadora maioria de especialistas. Embora no começo existissem muitos pesquisadores que tinham esta opinião, a maior parte deles acabou abandonando o movimento dissidente justamente porque as evidências de que HIV causa AIDS eram tantas que não podiam mais ser ignoradas. É o caso dos pesquisadores Robert Root-Bernstein e Joseph Sonnabend, que depois de apoiarem muito a dissidência, acabaram reconhecendo que estavam errados. Mas infelizmente, existem pessoas que são teimosas demais para mudarem de idéia. É o caso do próprio Duesberg e de milhares de pessoas que mantém o Movimento de Reavaliação da AIDS vivo. Existiu até o caso de um médico chamado Robert Wilner que injetou o vírus HIV em si mesmo em um programa de televisão. Pena que o infeliz acabou morrendo algum tempo depois devido à um acidente de carro antes de desenvlver a doença. Se ele não tivesse morrido desta forma estúpida, ao menos outras pessoas poderiam aprender com o erro que ele cometeu. Quando tentei entender o que fazia tanta gente acreditar que o vírus HIV era inofensivo, me deparei com várias explicações e argumentos clássicos de pseudo-ciências. Haviam pessoas dizendo que havia uma conspiração mantida pela indústria farmacêutica para encobrir o movimento justamente porque isso iria diminuir a venda de remédios. É claro, isso é um absurdo. A existência de coquetéis de remédios para tratar a AIDS é recente e durante a maior parte do tempo não havia medicamento capaz de melhorar a vida de pessoas contaminadas. Porque então a indústria farmacêutica iria encobrir isso muito tempo antes de surgirem os primeiros remédios? Também encontrei pérolas como: "Cada pessoa é um emaranhado de relações muito complexas (corpo, mente, espirito). Todas estas partes necessitam estar em harmonia para funciomar bem.Existe um ramo da psicologia/psiquiatria, a imunoneuropsicologia, que diz que apenas pelo fato de um indivíduo saber que supostamente tem um vírus mortal, morre! (É famoso o caso de dois caras na Europa, que ficaram presos dentro do bau de um caminhão frigorífico e morreram de frio. Acontece que o o resfriador do caminhão estava desligado!).". Bem, vou ignorar todas as teorias da conspiração, lendas urbanas e falácias que estes negacionistas tanto defendem e me aterei a analizar alguns de seus argumentos mais lógicos. O primeiro deles é: * Existem pessoas sem HIV que possuem AIDS. Errado. O que existem são casos de distúrbios de imunodeficiência que aparecem em pessoas que não estão contaminadas por HIV. Estes distúrbios podem ser causados por bactérias, fungos ou podem ser hereditários. Assim como uma pessoa com AIDS, as defesas do organismo de uma pessoa com o distúrbio não funcionam e o organismo fica vulnerável ao ataque de microorganismos. Na verdade, qualquer tipo de doença debilita um pouco o sistema imune de uma pessoa. Mas o fato de existirem problemas de saúde semelhantes aos causados pela AIDS não significa que a AIDS não exista. Toda AIDS é uma imunodeficiência, mas nem toda imunodeficiência é AIDS. * O HIV não atende aos postulados de Koch , que são critérios que precisam ser rigorosamente atendidos a fim de provar que um determinado micróbio causa uma doença. Não há dúvidas de que o HIV causa AIDS em meio à comunidade científica. As origens do vírus já foram traçadas e o mecanismo pelo qual ele atua é conhecido. Já sabemos que qualquer pessoa que tenha o vírus injetado acidentalmente ou que o obtenha através de relações sexuais, irá sim desenvolver a doença. Virtualmente todos os testes com pacientes que possuem AIDS mostraram que eles são HIV soropositivo. E o HIV já foi isolado de pacientes com AIDS. O que acontece é que muitos dos negacionistas simplismente não lêem estudos mais modernos sobre AIDS e se atêm apenas a argumentos e estudos da década passada. Já aqueles que estão mais bem informados, simplismente usam uma interpretação própria do que seriam os "Postulados de Koch" tudo para que teimosamente possam continuar a defender suas idéias insensatas. Eu realmente tentei encontrar outros argumentos com um pouco mais de lógica, mas tudo o que encontrei foram mais teorias da conspiração e também um questionamento sobre as metodologias usadas por pesquisadores. O problema é que as pessoas que faziam tais críticas metodológicas não estavam nem um pouco qualificadas para falar sobre isso. Outro argumento que os dissidentes gostam bastante é um extremamente absurdo que diz que a AIDS tem origem psicossomática (é psicológica). É bastante triste ver como tem tanta gente se iludindo e preferindo acreditar em uma fantasia para não ter que conviver com o fato de que está com uma doença incurável. O problema é que por causa desta ilusão, elas deixam de buscar tratamento, fazem com que outras pessoas não se tratem e contribuem para a proliferação do vírus HIV. Para podermos ver quantos problemas esta gente está causando, basta lembrarmos que na África a existência deses dissidentes está sendo usada como desculpa por alguns governos para não fornecer tratamento contra a AIDS para o seu povo. Também existem palestras nas quais a desinformação e mentiras sobre o tema são espalhadas livremente e já vi recomendarem o uso de suco de couve, espinafre e limão para tratar AIDS . Não é difícil perceber as conseqüências desastrosas de toda esta campanha de desinformação e mentira. O Brasil é o país que fornece o melhor tratamento gratuito do mundo para a AIDS. Possuir esta doença não é mais o fim do mundo como era a 10 anos atrás. É perfeitamente possível controlar o avanço da doença através de coquetéis de medicamentos fornecidos pelo SUS. A única coisa que parece ser muito difícil de controlar é a estupidez de pessoas como os membros do CURA. Para isso, parece que nenhum remédio ou argumentação surte efeito.

AS TESTEMUNHAS FANTASMAS

Uma prática que foi bastante comum em tribunais do passado era o uso do ordálio. Esta prática servia para decidir se um réu era inocente ou culpado. Funcionava assim: uma pessoa fazia alguma coisa como sentar sobre labaredas, ser lançada amarrada em um rio ou ter sua mão queimada com ferro quente. Se a pessoa escapasse ilesa ou sofresse ferimentos leves, ela era considerada inocente. Caso o seu ferimento piorasse, ela era considerada culpada. Um número muito grande de culturas utilizaram este curioso método de forma independente. Por mais absurdo que ele possa parecer, existe uma lógica por trás ele. Afinal, se a divindade ou coisa parecida na qual todos os povos que praticavam isso existisse, ela jamais permitiria que uma injustiça fôsse cometida. Alguma divindade ou algum espírito iria interceder em favor de um réu inocente e faria um milagre ocorrer. Então, este sistema seria perfeito. Não havia riscos de ocorrer injustiças! É claro, sabemos que não é bem assim. Coisas como infecção em ferimentos existem e parecem ter mais influência real do que qualquer divindade ou espírito. Por confiar em agentes sobrenaturais para solucionar crimes, muitas injustiças devem ter ocorrido no passado. Felizmente, a prática começou a desaparecer na Europa durante a Baixa Idade Média. Em 1215, o papa Inocêncio III proibiu o apoio do clero à este tipo de prática. Em seu lugar, outros métodos passaram a ser usados como provas de um crime como por exemplo, a confissão obtida durante torturas. É, não se pode dizer que houve um avanço muito grande no Direito medieval por causa disso. O abandono do uso de métodos sobrenaturais em tribunais foi algo que ocorreu gradualmente conforme a influência da igreja diminuía e o Iluminismo trazia idéias novas para a sociedade. Atualmente, acredito que a maioria das pessoas devam concordar que para não repetirmos os erros do passado, não podemos recorrer à interpretações subjetivas, nem à interferência de supostos ajudantes sobrenaturais para decidir se um ato é certo ou errado, ou então para decidir se um réu é inocente ou culpado. Espera-se que apenas coisas materiais ou passíveis de estudo por parte do método científico sejam usadas como provas ou argumentos em um tribunal. Um juíz deveria julgar um caso baseando-se apenas em dados objetivos. Ou pelo menos, deveria ser assim em um mundo sério. Aquele que tomasse qualquer decisão baseando-se em princípios metafísicos ou sobrenaturais deveria ser suspenso do judiciário, como aconteceu ano passado com um juíz filipino que dizia tomar suas decisões consultando duendes Apesar deste parecer (para mim, ao menos) um princípio óbvio, aqui no Brasil temos alguns casos nos quais ele não foi respeitado. E tenho um grande receio que o problema aumente mais futuramente. Fiquei muito preocupado com uma declaração recente de um advogado dizendo que iria apresentar no tribunal uma carta psicografada pelos fantasmas dos pais da sua cliente, acusada de homicídio dos próprios pais, dizendo que perdoam a filha. Em princípio, parece (para mim, ao menos) ser uma coisa tão absurda que ninguém levaria à sério e que não teria como uma prova como esta ser aceita. Entretanto, esta não é a primeira vez que uma palhaçada dessas ocorre. Já houveram casos nos quais cartas escritas por fantasmas foram usadas como provas e absolveram um réu: 1) Em 1976, um jovem chamado Henrique Emmanuel Gregoris foi morto em uma brincadeira estúpida de roleta russa. Durante o julgamento, o juíz Orimar Pontes aceitou como prova uma psicografia supostamente feita pelo morto no qual ele dividia a responsabilidade pelo ocorrido. O réu foi absolvido. 2) No mesmo ano, foi morto Maurício Garcez Henrique por um tiro supostamente acidental efetuado por um amigo enquanto tentava sintonizar um rádio. O mesmo juíz absolveu o réu baseando-se em uma carta psicografada. 3) Em 1980, José Francisco Marcondes de Deus é acusado de matar sua esposa, a ex-miss Campo Grande. O fantasma dela intercede por meio de uma psicografia e faz com que ele seja absolvido. 4) Em 1982, um soldado da PM (Aparecido Andrade Branco) mata um Deputado Federal. O fantasma do político também intercede pelo réu. Mas desta vez, a assombração não é muito convincente e o réu é considerado culpado mesmo assim. 5) Em 2006, Lara Marques Barcelos, acusada de matar um tabelião com dois tiros na cabeça é ajudada pelo fantasma que depõe à seu favor no tribunal por meio de uma carta. Ela é absolvida.
Nos 5 casos já ocorridos, é assustador como em 4 deles, o juri concordou com aquilo que um suposto fantasma falava e absolveu o réu. É claro, as cartas psicografadas não eram as únicas provas apresentadas. Mas mesmo assim, considero isso alarmante. O mais impressionante é como um absurdo destes é aceito em um tribunal. Mesmo que o juíz imbecil acredite em espíritos, ele não deveria saber que isso jamais deveria ser aceito como prova? Afinal, se a hipótese de que espíritos não existem não passa pela cabeça do juíz, ao menos a hipótese de que o médium esteja mentindo ou de que o fantasma seja um impostor deveria passar! É claro que se uma coisa dessas for aceita, ela poderá ter um grande impacto no júri que nem sempre é composto por pessoas esclarecidas capazes de analizar objetivamente os fatos. Por isso, filtrar este tipo de coisa, deveria ser responsabilidade do juíz! Na verdade, eu considero bastante improvável que, na atualidade, uma carta psicografada seja aceita como prova. Mas é mesmo alarmante que um advogado chegue a pensar na possibilidade de usar uma estratégia dessas. É nessas horas que podemos ver a importância de coisas como a divulgação científica e a popularização do método científico. Se isso não ocorrer, talvez no futuro, nossos filhos sejam julgados em um tribunal baseando-se na posição de Júpiter no momento de seus nascimentos. Ou então, nossos netos podem passar pelo julgamento de um tribunal que baseie suas práticas no reconhecido e respeitado código jurídico presente no Malleus Malleficarum.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

POLICIAIS

Policiais são humanos (acredite se quiser!) como o resto de nós. Eles vêm em ambos os gêneros, mas na maioria das vezes são do sexo masculino. Eles também vêm em vários tamanhos. Na realidade, depende se você estiver à procura de um deles ou tentando esconder algo. Quase sempre, no entanto, eles são grandes. Encontra-se policiais em todos os lugares: na terra, no mar, no ar, a cavalo, em viaturas, e até na sua cabeça. Independente do fato de "nunca se encontrar nenhum quando se quer um", eles geralmente estão por perto quando mais se precisa deles. A melhor maneira de conseguir um é geralmente por telefone, mas a melhor coisa é saber que estão nas ruas para que possamos ter segurança dentro de casa. Policiais dão palestras, fazem partos e entregam más notícias. Se exige que eles tenham a sabedoria de Salomão, a disposição de um cavalo corredor e músculos de aço - muitas vezes são até acusados de terem o coração fundido no mesmo metal. O policial é aquele que engole a saliva a grandes penas, anuncia o falecimento de um ente querido e passa o resto do dia se perguntando porque, ó Deus, foi escolher esta porcaria de trabalho. Na TV, o policial é um idiota que não conseguiria encontrar um elefante numa geladeira. Na vida real se espera dele que encontre um menininho loiro "mais ou menos desta altura" numa multidão de quinhentas mil pessoas. Na ficção ele recebe ajuda de detetives particulares, repórteres e de testemunhas "-Eu sei quem foi". Na vida real, quase tudo que ele recebe do povo é "-Eu não vi absolutamente nada". Quando ele dá uma ordem dura, ele é grosso. Se ele lhe soltar uma palavra gentil, é uma mocinha. Para as crianças, ele é as vezes um amigo, outras um monstro, dependendo da opinião que têm seus pais à respeito da Polícia. Ele vira a noite, dobra escalas, e trabalha aos sábados, domingos e feriados; sempre o chateia muito quando um engraçadinho vem lhe dizer "epa, este fim de semana é Carnaval, estou à toa, vamos à praia". Esta é a época do ano em que eles trabalham quase vinte horas por dia. Quando um policial é bom, ele "é pago para isso". Quando comete um erro, "ele é um corrupto, e isso vale para todos os outros da raça dele". Quando ele atira num assaltante, ele é um herói, exceto quando o assaltante é "apenas um garoto e qualquer um podia ver". Muitos têm casas, algumas cobertas de plantas, e quase todas cobertas de dívidas. Se ele dirigir um carro de luxo, ele é um ladrão. Se for um carro popular, "quem ele pensa que está enganando?" O crédito dele é bom, o que ajuda bastante porque o salário não é. Policiais educam muitos filhos, muitas vezes os filhos dos outros, até melhor que os seus próprios, pois passam a maior parte do tempo longe de suas famílias e resolvendo os conflitos alheios. Um policial vê mais sofrimento, sangue, problemas e alvoradas que uma pessoa comum. Como os carteiros, os policiais têm que estar trabalhando independente das condições do tempo. Seu uniforme muda de acordo com o clima, mas sua maneira de ver a vida permanece a mesma; na maioria das vezes, é entristecida, mas no fundo, esperando e lutando por um mundo melhor. Policiais gostam de folgas, férias e café. Eles não gostam de buzinas, brigas familiares e, principalmente, autores de cartas anônimas. Eles não têm sindicatos e não lhes é lícito fazer greves, mesmo com a falta de equipamento, treinamento, condições de trabalho e os parcos salários que ganham. Têm que ser imparciais, educados, e sempre devem lembrar do slogan "a seu serviço". Às vezes é difícil, especialmente quando um indivíduo lhe lembra, "eu pago impostos, portanto pago seu salário". Policiais recebem elogios por salvar vidas, evitar distúrbios, e trocar tiros com bandidos (de vez em quando, sua viúva é quem recebe o elogio!). Mas algumas vezes, o momento mais recompensador é quando, após fazer alguma gentileza a um cidadão, ele sente o caloroso aperto de mão, olha nos olhos cheios de gratidão e ouve, "obrigado e Deus te abençoe".

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Ideologia Religiosa e Capitalismo

Max Weber (1864-1920) escreveu A ética protestante e o espírito do capitalismo (Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus) entre os anos de 1904 e 1905.Neste livro, Weber avança a tese de que a ética e as idéias puritanas influenciaram o desenvolvimento do capitalismo. Nos nossos dias, época de globalização da economia e de avanço da "teologia da prosperidade", a obra de Weber merece ser revisitada, pois existem alguns paradigmas das igrejas atuais - principalmente as mais recentes - que merecem ser desvelados. Inicialmente eu falaria do caráter a-histórico de algumas igrejas, que se remetem sempre a uma ideologia a-temporal, que se quer eterna e imutável, mas que, na realidade é históricamente datada. Ao citarem a Bíblia como única fonte doutrinal, alguns religiosos fazem "tábula rasa" em relação à construção do próprio texto bíblico, o qual não foi escrito todo de uma vez e nem é fruto de um único autor. A própria palavra "Bíblia" deriva do grego "bíblion" ou "biblos", sendo plural de livros (rolos). Estes textos, escritos com um intervalo de tempo superior a 1.500 anos entre o primeiro e o último foram escritos em 3 idiomas diferentes: o hebraico, o grego e o aramaico. Em hebraico consonantal foram escritos todos os livros do Antigo Testamento, com excessão dos livros chamados deuterocanônicos e de alguns capítulos do livro de Daniel, que foram escritos em aramaico. Todo o Novo Testamento foi escrito em grego, embora a tradição aponte para o fato de que o evangelho de Mateus tivesse sido escrito em aramaico. Esta compilação díspar de textos foi reunida no século IV, quando Roma torna-se cristã, e criou-se a "vulgata", a Bíblia oficial da Igreja Católica, em latim. Desnecessário afirmar que cada vez que se traduz um texto chega-se, em termos conceituais, a um resultado "próximo" (mas não exatamente igual) ao texto original. A cultura própria, os usos e os costumes do tradutor, bem como as inovações linguísticas da sua época (que estão introjetadas) são inseridas, mesmo que acidentalmente, no texto que ele traduz. Muitas vezes, ao longo da História, se tentou "purificar" o texto bíblico, expurgando os acréscimos e as "licenças-poéticas" utilizadas pelos tradutores romanos e os copistas medievais, mas o certo é que ainda hoje continuamos a ler um texto que é muito mais o texto do século IV do que o original. Um exemplo claro é a passagem do Novo Testamento onde Jesus diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Esta frase tem sido repetida há pelo menos 17 séculos, mas em aramaico, kamelos significaria camelo, enquanto kamilos quereria dizer corda. Na tradução para o latim teria ocorrido uma leitura errada do original, convertendo a corda no metafórico animal. Além da questão da total ausência de historicidade em relação ao texto bíblico, várias igrejas ignoram ou expurgam a própria história, ou seja: • Em que conjuntura social, política e econômica surgiu determinada denominação religiosa? Em que época? • Em qual segmento da sociedade ela está alicerçada? Qual a classe social dos seus dirigentes? E dos seus fiéis? • Qual ideologia ela difunde? Em que país ela surgiu? Qual a ligação que ela mantém em relação ao país de origem? • A quais interesses ela serve? Acreditamos que, ainda que muitos fiéis não tenham muita clareza das razões que os levam a determinada igreja (e não a outra), os líderes religiosos devam refletir criticamente e não professar uma fé "ingênua" ou "intuitiva", mas sim fortemente lastreada sobre os alicerces da teologia, da sociologia e da história. Sobre a teologia da prosperidade , parece evidente que hoje as pessoas (especialmente as mais pobres) procuram as igrejas muito mais para resolver problemas bastante imediatos como dívidas, dificuldades no casamento ou familiares, falta de perspectiva profissional e outros, que têm muito mais a ver com a atual conjuntura sócio-econômica do que com a fé ou a doutrina, do que para buscar a salvação. Existe em nossos dias, uma relativa "especialização" entre as igrejas, ou seja, igrejas que são especializadas em resolver problemas materiais (falta de emprego, dívidas, etc.), igrejas que são especializadas em resolver problemas ligados à afetividade (casamentos desfeitos, desentendimentos entre pais e filhos, solidão, depressão, etc.) e outras na preservação e recuperação da saúde. Quase todas, em uníssono, buscam a manutenção do "status quo" e a condenação dos "desvios" e dos "desviantes". Em relação à família, reconhecem como a família "constituída por Deus" a monogâmica e patriarcal, muito embora ela tenha sido construída muito mais ao longo do século XIX, pela burguesia, do que na época bíblica. A própria instituição da família é historicamente datada e sofreu transformações ao longo do tempo: "A própria família passou por transformações através dos tempos. Nos séculos XVI e XVII, o modelo predominante era o da Família Aristocrática, cujos pais decidiam o casamento dos filhos, a relação se baseava na hierarquia aristocrática e os papéis eram impostos por rígidas tradições.Não se respeitava a privacidade dos membros da família, a não ser a do pai.E, o primeiro contato da criança, era com as amas de criação e não com os pais. Surge então um novo modelo, a Família Camponesa, baseada na vida cotidiana das aldeias.A família era a própria aldeia e vivia em comunidade.A relação entre os componentes da família era superficial, sem qualquer intimidade. A mãe cuidava dos filhos, da casa, da horta por longas horas, com a ajuda de pessoas de fora do grupo familiar. No século XIX, surge o modelo da Família Burguesa e os filhos recebem novos valores, até então inéditos.A mãe é responsável pela educação dos filhos para que eles tenham um lugar de respeito na sociedade e os pais cuidam do custeio dos estudos.Dessa forma, a esposa conseguia estreitar os laços afetivos com os filhos, influenciando-os diretamente na construção da moral dentro das regras vigentes. Com a Revolução Industrial, surge a Família da Classe Trabalhadora, que nasceu da angústia social e econômica reinante na época, que se assemelhou ao modelo da burguesia.Num primeiro momento, todos os membros da família trabalhavam nas fábricas, sem dar muita atenção para as relações entre pais e filhos, os quais ficavam pelas ruas.Num segundo momento, resgatou-se o estilo burguês e a domesticidade voltou a prevalecer. A Família Contemporânea do século XX, oriunda da família burguesa, um pouco mais complacente, permite que os filhos criem sua própria opção de vida.Os valores burgueses se intensificam e começa a haver mudanças na sociedade, como a valorização da mulher no mercado de trabalho, a divisão das responsabilidades, nas funções dos papéis do casamento, a violência urbana, os movimentos políticos e ideológicos, dentre outros, acarretando mudanças até de perspectivas.". Uma simples leitura superficial da Bíblia faz refletir que os primeiros judeus viviam sob a poligamia (os patriarcas tiveram várias esposas, bem como o rei Salomão, a quem a tradição atribui ter tido um filho com a rainha de Sabá) e não eram fiéis (o próprio Abraão teve Ismael da escrava Agar, antes de ter tido Isaac de sua esposa Sara; David mandou Urias, o esposo de Betsabé, para a frente de batalha, para ficar com sua esposa), praticavam o incesto (as filhas de Ló embebedaram o pai para copular com ele) e outros tantos atos que os religiosos atuais parecem atribuir aos "tempos modernos". Sob uma perspectiva sociológica poderíamos conjecturar que várias igrejas cumprem eficazmente a função de aparelho ideológico de Estado,superestrutura ideológica que mantém a infra-estrutura econômica acomodada e amoldada. Sob a capa da preservação da moralidade e da divulgação da "palavra" – através de Evangelização cada vez mais intensa – estas igrejas prestam grandes serviços ao capitalismo internacional e à burguesia dirigente, pois, além de manter os fiéis "sob controle" ainda suprem lacunas deixadas pelo Estado Mínimo neo-liberal: Saúde, Educação e Segurança Pública. Em termos econômicos estas instituições se constituem em verdadeiras empresas, que conseguem operar com grande margem de lucros. Ao reproduzir as estruturas capitalistas (da sobriedade e da acumulação) e ao prestar serviços à elite dirigente, elas reiteram a ideologia dominante e, desta maneira explicamos o seu sucesso. Referências A CORDA CAMELO. Disponível em Acesso em 12fev2011. BIBLIA. Disponível em Acesso em 12fev2011. CAPELLANO, Luiz Carlos. RELIGIÃO E ECONOMIA NA ATUALIDADE. Disponível em Acesso em 12fev2011. FIDOMANZO, Marie Claire Libron. A GUARDA COMPARTILHADA SEMPRE EXISTIU. Disponível em Acesso em 12fev2011. TEORIA DA PROSPERIDADE. Disponível em Acesso em 12fev2011.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

1945, o maior naufrágio do mundo

No inverno de 1945, bem no final da 2ª Guerra Mundial, um navio alemão que transportava milhares civis refugiados da guerra, o Wilhelm Gustloff, foi afundando por um submarino soviético nas águas do Mar Báltico. Quase todos os que estavam a bordo pereceram, ou afogados ou devido a hipotermia provocada pela baixíssima temperatura do mar. O número de vítimas foi tamanho – é tido como o maior naufrágio civil do mundo - que superou em muito as do transatlântico Titanic, cujo afundamento ocorreu em 1912, sem porém que provocasse a mesma comoção. Fuga pelo Báltico “Matem! Matem!.. Usem a força e quebrem o orgulho racial dessas mulheres alemãs. Peguem-nas como legítimo botim. Avante como uma tempestade, galantes soldados do Exército Vermelho.” Ilya Ehrenburg, jornalista soviético, 1945
Numa daquelas noites prussianas gélidas do Norte europeu, em 30 janeiro de 1945, com o termômetro marcando 10° abaixo de zero, o ex-cruzeiro de luxo alemão M/S Wilhelm Gustloff, de 25 mil toneladas - desde 1940 transformado em hospital flutuante - , deslocava-se apinhadíssimo de gente pelo Mar Báltico. Projetado para levar duas mil pessoas, carregava naquele momento mais de nove mil, a maioria mulheres e crianças que fugiam da invasão russa. O Exército Vermelho vinha , por assim dizer, nos calcanhares deles, seguindo a mesma rota que os seus antepassados mongóis, no século 13, usaram para atingir o Ocidente. Os que escapavam eram civis alemães que até então moravam na Prússia Oriental e nos Estados Bálticos que, apavorados, fugiam pelo Golfo de Danzig da vingança dos soviéticos. Organizaram para eles uma espécie de solução de emergência, recolhendo-os dos portos do leste da Alemanha para que alcançassem, por mar, as áreas mais seguras do Ocidente. Os que iam a bordo não tinha a mínima idéia que seriam os protagonistas da maior tragédia marítima de todos os tempos, quase seis vezes superior às vitimas do transatlântico Titanic, naufrágio ocorrido 32 anos antes (1.517 mortos).
O naufrágio
Quando haviam cumprido a metade do caminho, um pouco depois das 21 horas, três torpedos do submarino russo S-13 os atingiram. O Wilhelm Gustloff logo adernou. A multidão que se agarrava no convés começou a ser jogada na água. Outros, apavorados, saltavam diretamente lá do alto. A gritaria no convés era acompanhada de tiros dos que preferiam suicidar-se ou atirar nos familiares antes. Os soldados feridos, imobilizados, despediam-se uns dos outros. Como distribuir os parcos botes salva-vidas para 9.343 passageiros, sendo que muitos deles estavam cobertos de gelo? O SOS foi lançado e aos poucos começaram a chegar os auxílios. Os faróis dos barcos e das lanchas de socorro vararam a noite inteira em busca de sinais de vida, enquanto corpos, milhares deles, vagavam sem destino em meio aos blocos de gelo, boiando salpicados de neve. Os que conseguiam ser resgatados estavam enregelados, as mãos azuladas e encarangadas e o olhar petrificado. Ao amanhecer as equipes de salvamento haviam retirado 1.239 náufragos ( outros reduzem-nos para 996) daquele horror. A situação só não foi pior porque eles estavam próximos ao litoral da Pomerânia. Mesmo assim supõe-se que oito mil pereceram. Os submarinos soviéticos continuaram por perto praticando a caça e, dez dias depois, afundaram o General von Steuben (3 mil mortos) e ainda, em 16 de abril de 1945, puseram a pique o Goya (cerca de 7 mil, a maioria soldados). Portanto, em matéria de matança de civis o M/S Wilhelm Gustloff, realmente empunhou a taça da desgraça. Ainda que a operação de remoção do maior número possível de civis alemães orientais tenha sido tida como um sucesso, pois conseguiram o translado de 2 milhões deles para fora da órbita soviética, a tragédia daquele barco de turismo adaptado para às pressas para a fuga, perdurou no tempo como um desastre que poderia ter sido evitado, não fosse o clima de revanche que embalava os soviéticos. Revanche que se estendeu para os maus tratos da grande parte da população civil do Leste da Alemanha, com ondas de estupros, pilhagens, saques, desordens, espancamentos e brutalização geral dos vencidos.
Um roteiro de atrocidades Na época dizia-se que era merecido. Que os alemães haviam se portado do mesmo modo quando adentraram na URSS em 1941. Quem começou a reverter esta opinião entre eles, foi Alexander Soljenitsin. Cada vez mais furioso com o regime comunista, Soljenitsin que fez parte das tropas de ocupação – era oficial de artilharia - pessoalmente testemunhou as atrocidades que seus conterrâneos haviam cometido. Envergonhado, acabou por denunciar aqueles horrores num longo poema intitulado Prosskie Nochi (Noites Prussianas, 120 páginas, 1974), revelando à opinião pública da então URSS, o que de fato acontecera na Alemanha naqueles meses de conquista e ocupação, quando pelotões inteiros de soldados russos submetiam as alemãs, dos oito aos sessenta anos, a estupros coletivos, cortando o pescoço daquelas que resistiam ou se lhes opunham. Ele acreditou que tudo aquilo decorreu, que deu-se tal roteiro de atrocidades, devido os comunistas “ terem afastado a Rússia de Deus”, retirando do soldado raso, dos Ivans que passaram a acampar na Alemanha, qualquer sentimento de piedade ou compaixão para com os derrotados. Ao contrário, incitou-os aos barbarismos, a pretexto de estarem lutando contra o decadente mundo burguês em sua forma fascista.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ensino com Pesquisa (ensinar/aprender fazendo)

Pesquisar é um processo que objetiva entrar em contato com realidades desconhecidas ou pouco conhecidas, revelando suas características e peculiaridades, observando critérios específicos e com uma metodologia de trabalho. A atividade de pesquisa está ligada a várias instâncias, desde o desenvolvimento de novos conhecimentos, passando pela pesquisa diagnóstica nos mais diversos campos - saúde, por exemplo - até o abastecimento de dados e informações necessárias à elaboração do planejamento. Planejar corresponde a um conjunto de ações articuladas e não-aleatórias, visando a consecução de um ou mais objetivos pré-determinados. Planeja-se a economia, planeja-se a educação e, em termos pessoais, planeja-se o orçamento doméstico, a aquisição de bens e até o nascimento de filhos. Todos - pessoas e instituições - podem viver e dar consecução a suas atividades, sem planejamento; todavia, quando há planejamento, os riscos são menores e o produto do trabalho é substancialmente melhor. Planejar e pesquisar são elementos fundamentais para a consecução do conhecimento científico e da gestão de bens e serviços. O ato de pesquisar se confunde com as ações visando conhecer o mundo, pois pesquisar é especular, buscar, inquirir, questionar e, finalmente, conhecer. Na escola de hoje utiliza-se a pesquisa como forma de entrar em contato com o ainda não-conhecido, estabelecer relações com o conhecimento pré-existente e fazer a incorporação do novo. A esse processo pode-se denominar, em termos específicos, como busca do conhecimento e, em termos amplos, como o processo educativo. Através de Projetos de Pesquisa, elaboram-se caminhos adequados a essa busca do conhecimento. Partindo de um tema básico (um dos Temas Transversais previstos nos PCNs, por exemplo), pode-se elaborar um projeto de trabalho em pesquisa que envolva as disciplinas curriculares do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio. Os projetos de pesquisa operacionalizam os conteúdos curriculares de maneira integrada, sistêmica, proporcionando, como resultado, uma educação interdisciplinar e uma visão de mundo integrada e não mais fragmentada como ocorre no ensino tradicional. Despertam o interesse dos alunos, pois os mesmos aprendem fazendo, participando de todas as fases do Projeto - desde a escolha do tema até a avaliação e apresentação final - resolvendo um dos maiores problemas em sala de aula dos dias de hoje - garantir a motivação dos alunos e sua atenção para o aprendizado.