"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo
que mutilá-lo."Carl Jung

sábado, 13 de março de 2010

A normalidade da violência em Roma

Os jogos de gladiadores fornecem um bom exemplo dos intrincados percursos sociais do espetáculo no mundo romano. As disputas de gladiadores eram um fato normal da vida cotidiana havia muito tempo. Durante o Império, os combates de gladiadores aumentaram de freqüência e se difundiram por todo o mundo romano. Surgiu um tipo especial de edifício, o anfiteatro, que funcionava como palco das lutas entre gladiadores e de outras formas de espetáculo. Em Roma, assim como nas províncias, as lutas de gladiadores estavam sempre ligadas à pessoa do imperador. Era ele que as oferecia em Roma e, nas províncias, eram os sacerdotes do culto imperial os responsáveis por sua realização. Os anfiteatros eram uma espécie de microcosmo da sociedade romana, como parte e reflexo do cotidiano. Os assentos eram repartidos segundo as classes da população, e o próprio anfiteatro era um local onde a população não apenas via, mas se fazia ver e ouvir, no qual imperador e plebe, dirigentes e dirigidos se confrontavam face a face, onde o anonimato da massa conferia força e consistência para o apoio ou para as reivindicações da plebe. Nesse espaço, sagrado e mundano, as lutas entre gladiadores ocupavam um lugar especial. O anfiteatro era, para os romanos, parte de sua normalidade cotidiana, um lugar no qual reafirmavam seus valores e sua concepção do “normal”. Nos anfiteatros eram expostos, para serem supliciados, bárbaros vencidos, inimigos que se haviam insurgido contra a ordem romana. Nos anfiteatros se supliciavam, também, bandidos e marginais, como por vezes os cristãos, que eram jogados às feras e dados como espetáculo, para o prazer de seus algozes ou daqueles que defendiam os valores normais da sociedade. Mas os combates de gladiadores ocupavam um lugar à parte, um lugar de honra. Embora, de início, os gladiadores tenham sido, em sua maioria, prisioneiros de guerra ou escravos, na época do Império boa parte era de origem livre, os auctorati, que se ofereciam como gladiadores, colocando-se sob o poder de seu mestre (o lanista), ao qual prestavam juramento sagrado. Esse juramento transformava o gladiador num ser para o qual a dor e a morte deixavam de ser ameaças terríveis para transformar-se em parte corriqueira da vida: um simples momento, o momento da verdade, que deixava de ser objeto de angústia para se tornar objeto de honra. Honra e vergonha são palavras-chave para entendermos a paixão que os gladiadores suscitavam no mundo romano. O gladiador vencido, em vez de lutar inutilmente pela vida, oferecia graciosamente o pescoço a seu adversário e à platéia. Transmutava, assim, a vida num combate glorioso, cujo fim, necessário para todos, podia ser uma morte digna. A figura do gladiador era um belo espelho de realização humana, um modelo para filósofos e religiosos. Não era o massacre, a vista do sangue, a dor alheia que seduziam os espectadores, mas um uso, todo próprio, todo especial, todo romano, do que nós mesmos consideramos uma violência absurda.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Para entender a Guerra da Bosnia e do Kosovo

A Região dos Balcãs ao longo da História foi palco de grandes disputas pelos diferentes povos que passaram a habita-la. No final do século XX duas guerras ocorreram dando o contorno atual da região, A Guerra da Bósnia e Kosovo. Ao final da Primeira Guerra Mundial o Império Turco foi obrigado a ceder regiões para a criação de novas nações. Dentre esses países estava os reinos da servia, croata e esloveno. Em 1929 esses países passaram a forma uma única nação, a Iugoslavia. Durante a Segunda Guerra Mundial a Iugoslavia foi invadida pelas Tropas Nazistas. Ao final do confronto os Comunistas liderados por Josep Bros Tito libertaram a Servia. Uma vez nomeado líder da Iugoslavia, Bros Tito formou a federação socialista Iugoslavia tendo como republicas participantes a Servia, Bósnia e Herzegovina, Eslovénia, Macedónia e Montenegro. A Iugoslavia passou a ser uma nação com grandes diferenças culturais e religiosas. No pais havia praticantes do Catolicismo Romano, Catolicismo Ortodoxo e Islamismo. Apesar das diferenças étnicas entre sua população, a Iugoslavia conseguiu manter sua unidade politica. A instabilidade politica da federação iugoslava acabaria com a morte de Bros Tito em 1980. As republicas que formavam a Iugoslavia passaram a exigir maior autonomia politica. Para solucionar o problema o governo jugoslavo adotou o sistema de rotação presidêncial. Cada republica indicaria um presidente que governaria a Iugoslavia por um período de 1 ano. O novo sistema de governo foi ineficaz para acabar com os movimentos nacionalistas das diferentes republicas. Em 1991 Croácia e Eslovénia declararam -se nações independentes. Depois foi a vez da Bósnia e da Macedônia se separarem. A Guerra da Bósnia A Servia na qualidade de principal nação confederada a Jugoslavia se opôs a essas separações. O líder nacionalista sérvio Slobodan Milosevic pretendia formar a “Grande Servia” unindo as populações de origem servia. Milosevic buscou anexar regiões com populações servias existentes na Croácia, Eslovénia e Bósnia. O fato gerou uma serie de conflitos armados contra esses países. O maior combate ocorreu na Bósnia, possuidora de um grande numero de sérvios. Para separar as Populações servia da convivência com os croatas e mulçumanos os soldados sérvios praticaram ações de terror esperando que tais etnias fugissem das regiões habitadas pelos sérvios. A Capital Sarajevo foi palco de uma grande carnificina. A ação militar servia ficou conhecida como limpeza étnica. Na Guerra da Bósnia morreram aproximadamente 250 mil pessoas. A Guerra da Bósnia chegaria ao fim somente em 1995 com a assinatura do Acordo de Dayton promovido pela ONU. Em 1997 foi criado a nova Iugoslavia, formado apenas por Servia e Monte Negro. A Guerra de Kosovo Em 1996 a guerra se estenderia para a região servia de Kosovo que possuía uma população predominantemente Albanesa. Com o apoio da Albânia as comunidades locais criaram o Exercito de Libertação de Kosovo (ELK) que passou a lutar pela independência da região. Em resposta a Servia envia suas tropas para Kosovo na busca da aniquilação total dos rebeldes kosovares. Em 1999 a ONU interveio novamente nos Balcãs após a recusa de Milosevic de acabar com os ataques sérvios a Kosovo. Recusada a proposta de Paz, as tropas da OTAN lideradas pelos Estados Unidos atacaram o território Sérvio. Terminada a guerra em 2001 Milosevic foi preso acusado de cometer Crimes contra a Humanidade. Em 2003 a Iugoslavia passou a se chamar Servia e Montenegro. Após um plebiscito em 2006 ficou decidido o fim da Iugoslavia. Servia e Montenegro passaram a ser países independentes. Já a Região de Kosovo ficou sob a tutela da ONU

Filha da Terra?

Há 4,5 bilhões de anos, nascia um astro.
A estreia foi digna da grandeza que ele ganharia mais tarde. Houve uma explosão enorme, muito barulho e poeira. A Terra, sua mãe, era uma jovem de 50 milhões de anos. Um dia, a efervescência que tomava conta de seu interior rompeu sua superfície e o fenômeno lançou um trilhão de toneladas de pedras derretidas e em forma de vapor no espaço. Esses detritos orbitaram em torno do planeta, se aglutinaram e formaram o que chamamos de Lua.
Eis a nova teoria para o surgimento do nosso único satélite natural, capitaneada pelo geofísico Rob de Meijer e pelo geólogo Wim van Westrenen, da Universidade Livre de Amsterdã. A versão mais aceita até hoje é um pouco diferente. Muitos cientistas concordam que um corpo celeste do tamanho de Marte teria se chocado com a Terra há mais de quatro bilhões de anos. Tal impacto teria sido 100 milhões de vezes mais poderoso do que o do meteorito que acabou com os dinossauros 65 milhões de anos atrás. O calor gerado pelo choque teria vaporizado uma grande parte da crosta e do manto terrestre – as camadas mais superficiais da Terra.E, aí sim, lançado a poeira que em menos de um século teria se convertido na Lua.
O conceito da nova teoria de De Meijer é controverso.
Ele afirma que partes da crosta afundaram através do manto, quase líquido naqueles tempos, e formaram uma camada entre ele e o núcleo do planeta. Essa mistura tornou-se rica em urânio, plutônio e tório – formando o que os cientistas chamam de georreator. Quando um desses reatores naturais chegou a um ponto crítico, a temperatura local subiu rapidamente para 13 mil graus Celsius. A atividade gerou uma explosão que teria ejetado o manto e a crosta para os ares. Só aí todo esse material teria chegado ao espaço para formar a Lua.
A hipótese da fissão, como é chamada, tem sido estudada há 150 anos. Um de seus mais célebres defensores foi George Darwin, filho de Charles Darwin, autor da histórica obra “A Origem das Espécies”. Em 1930, porém, chegou-se à conclusão de que a pressão dentro do globo era insuficiente para gerar uma explosão capaz de criar um corpo como a Lua. De Meijer agora contraria tal afirmação. Resta saber se ele conseguirá reunir provas concretas para confirmar sua teoria e reescrever o caso de reconhecimento de maternidade mais antigo da história.

terça-feira, 9 de março de 2010

A Tragédia no Haiti-Algumas Considerações

A árvore acima, presenciada em Guaxupé, Minas Gerais, no começo deste ano, exemplifica as relações mundiais. Cada galho simboliza um país. E todos os galhos estão vinculados ao tronco e as raízes. O tronco e as raízes estabelecem relações entre as partes da árvore. Com tal analogia, o presente Blog chama a atenção para a corresponsabilidade dos países. Uma corresponsabilidade que, se pensada de forma ecohumanorrespeitosa, pode evitar catástrofes mundiais, como a ocorrida no Haiti. A irresponsabilidade mundial gera desastres São de lamentar as situações vivenciadas pelos povos do Haiti. No entanto, cumpre destacar alguns fatos. Os países considerados desenvolvidos gastam milhões para manter o poder e a exploração dos bens da natureza. Agem sem escrúpulos dentro dos países à margem da economia mundial. Causam desequilíbrios em todo o mundo e usam desculpas esfarrapadas. Promovem longas guerras em países menores, apenas para saquearem os elementos naturais, chamados por eles de recursos naturais. Para uma boa parte dos líderes mundiais, os países pouco desenvolvidos formam uma lixeira do mundo, um espaço onde se extrai a preço de banana as matérias-primas e, em seguida, se despeja as mazelas ecológicas e sociais. A causa de desastres ecológicos como o terremoto é a ação sem freios de países com uma predominância de comportamento egoísta, como os Estados Unidos. A Terra reage com toda a ira por causa das alterações inconsequentes sofridas nos âmbitos mineral, vegetal, animal e hominal. As nações poderosas cada vez mais criam brinquedos assassinos. Máquinas incapazes de praticar o perdão, o afeto, o respeito e a sensibilidade. Instrumentos como esses são silhuetas da mentalidade humana sem cabrestos éticos e morais. O solo está desgastado, fraco, a pedir misericórdia. E o homem cada vez mais introduz máquinas na terra, na água, no ar, no fogo. O maquinário já prevê até animais artificiais e softwares com inteligência autônoma. Nos séculos vindouros, apesar do caos ecológico em estado de emergência, principalmente nos países desprovidos do favorecimento financeiro mundial, a Ciência pode prometer até a escolha de bebês e animais artificiais, sob encomenda com os robôs das gôndolas dos hipermercados. Essas questões fazem lembrar Blade Runner: O caçador de andróides, filme do diretor Ridley Scott sobre 2019. A película é de 1982 e mostra como o mundo pode se tornar um ambiente de trevas através da ação sem limites. O homem tem por vocação de alma o ato de servir à humanidade. Não cabe ao homem ser um servo da tecnologia. A tecnologia praticada com voracidade se constrói num posicionamento de superioridade a tudo, a ponto de se contrapor a uma das funções da natureza: A conservação das condições de continuação dos seres vivos. Por outro lado, a tecnologia, quando cimentada com um propósito de ser aliada do homem, pode colaborar com a vida no Planeta. A tecnologia precisa ser praticada com uma ética capaz de colocar o bem-estar, a harmonia e a dignidade dos seres vivos acima de todas as tendências de desenvolvimento. Entre os exemplos, através do empenho na busca de cura para as doenças e de novas formas de alívio e cuidado para os sofrimentos vivenciados pelas pessoas em estado de enfermidade. É visível a prática de uma solidariedade falsa e açucarada pela maioria dos países fortes em desenvolvimento tecnológico. Isso ocorre com a finalidade de conservarem o status, a reputação, a imagem, a aparência de comprometimento com as causas sociais. No entanto, uma solidariedade construída apenas de longos discursos não pode ser vista sem atenção pelos povos do Haiti e por todo o mundo. Ora, os amantes e defensores da vida universal não podem negligenciar a culpa dos países poderosos em relação a tal catástrofe.

A resistência popular às internações hospitalares na cidade do Rio de Janeiro do século XIX

Nos dias de hoje, quando alguém se sente mal ou se acidenta, costuma procurar um médico ou, dependendo da gravidade do caso, um hospital. Há um forte consenso de que os médicos são as pessoas mais indicadas para tratar dos doentes e que um hospital dispõe dos melhores recursos para prestar socorro aos enfermos em estado de saúde mais delicado. Mas nem sempre foi assim. “Deixai toda esperança. Ó vós que entrais!”: estes versos, gravados na porta do inferno imaginado por Dante Alighieri em A Divina Comédia, exprimem perfeitamente a angústia que a perspectiva de uma internação hospitalar despertava entre as camadas populares cariocas no século XIX. A maioria dos hospitais existentes na cidade do Rio de Janeiro até meados do novecentos era formada por instituições de caridade dirigidas por religiosos. Voltado para os pobres, o socorro hospitalar se destinava a acolher a população carente – deserdada de toda sorte. Na grande maioria das vezes, só se dirigiam espontaneamente a um hospital aqueles que não dispunham de um teto ou não podiam contar com o auxílio de parentes. Somente quando os doentes não tinham qualquer condição de conduzir o tratamento em suas próprias casas é que costumavam ser remetidos à força para os hospitais. Locais de isolamento e reclusão, os hospitais – como todos sabiam – não passavam de depósitos de infelizes em sua última escala antes da morte. As classes mais altas, quando recorriam à assistência médica, faziam-no em suas próprias casas. Os pobres, por sua vez, em geral não simpatizavam muito com os médicos, nem possuíam os recursos necessários para pagar uma consulta domiciliar. Fatalmente, o contato com os médicos quase sempre ocorria, para desgosto do enfermo, num hospital. Malvistas e temidas pela maior parte da população da época, estas instituições eram o último lugar para onde os doentes desejavam ir. Devido à presença das tropas portuguesas no Rio de Janeiro, o socorro aos doentes que não podiam contar com o auxílio de parentes tornou-se um problema para a Metrópole desde o início da colonização. Após uma longa viagem, muitos soldados já desembarcavam doentes ou então tombavam feridos. Por determinação da Coroa, eram conduzidos para as residências particulares e, posteriormente, para o hospital construído pela irmandade da Misericórdia. Somente a partir do século XVIII é que outras irmandades e Ordens Terceiras abriram hospitais para atender a seus confrades. Em 1768, a Santa Casa passou a exigir o pagamento diário de quatrocentos réis por soldado internado. O conde de Azambuja, na época vice-rei, ordenou que se improvisasse um estabelecimento, que seria o primeiro Hospital Militar da cidade. Inicialmente situado no Morro de São Bento, o hospital foi transferido mais tarde para a sede do antigo Colégio dos Jesuítas, no Morro do Castelo. No Ocidente cristão, pelo menos até meados do oitocentos, o acompanhamento da doença e da agonia que antecede a morte ainda não estava sob o poder da medicina. O tratamento das enfermidades era geralmente conduzido em casa pelos próprios parentes do doente. Por força do catolicismo, quase sempre quem estava à cabeceira de um moribundo era um padre. Mesmo se, porventura, um médico acompanhasse uma pessoa da doença até a morte, seu trabalho se restringia a ajudar o enfermo a se curar ou a morrer. Em uma época em que combater a morte era para muitos uma verdadeira blasfêmia contra as intenções de Deus, a função da medicina não podia assumir um caráter de luta contra a natureza. Fazia parte do imaginário coletivo da época que a doença e a hora mortis deviam ser vivenciados no interior das residências. Temia-se, acima de tudo, a morte súbita. A crença na necessidade da preparação para o bem morrer era muito difundida, o que significava o cumprimento de rituais religiosos para garantir a salvação da alma. Só assim o moribundo poderia deixar o mundo com a consciência tranqüila perante Deus e os homens. Causava horror a qualquer pessoa pensar em adoecer ou morrer longe dos parentes ou sem amparo religioso. A preferência, comum a todos os segmentos sociais, é bastante compreensível, considerando-se que, quando um indivíduo adoecia de uma moléstia mais grave, a probabilidade de que este viesse a falecer era muito grande. Com a institucionalização da medicina acadêmica no Brasil, os hospitais assumiram aos poucos uma nova dimensão na prática e na consciência médica, em sintonia com a crescente onda cientificista que caracterizou o mundo ocidental ao longo do século XIX. Dispostos a transformar o que acreditavam ser um verdadeiro “caos urbano” – uma cidade “suja” e “doente” – em um espaço “civilizado”, os intelectuais que integravam a Academia Imperial de Medicina passaram a recomendar às autoridades públicas uma reordenação das instituições hospitalares existentes na Corte. Na opinião médica, os hospitais deveriam ser reestruturados para garantir o isolamento dos enfermos. Na época, acreditava-se que certas substâncias que exalavam dos corpos doentes faziam daquelas instituições um foco de infecção ou de contágio. Para tentar conter a disseminação das doenças, passou-se a recomendar o trancamento das portas dos hospitais no intuito de isolar os enfermos. Assim, as instituições foram transformadas em verdadeiras prisões, o que só aumentou ainda mais a desconfiança e o pavor da população pobre. Os membros da Academia Imperial de Medicina, que discutiam as condições de salubridade pública em suas reuniões e publicações, passaram a tachar de insalubres e impróprias não só as instalações hospitalares, mas também muitos hábitos da população que até aquele momento não haviam despertado maiores inquietações no que se refere à saúde pública. É, portanto, à luz dessa nova consciência que devem ser compreendidas as terríveis descrições contidas nos diversos relatórios elaborados pelas comissões médicas nomeadas para diagnosticar as condições de insalubridade da Corte. A Santa Casa de Misericórdia era o maior hospital da cidade no século XIX, recebendo cerca de 4.500 doentes por ano, segundo uma estimativa feita em 1833. Mesmo assim, as pessoas mais pobres tentavam evitar ao máximo a internação, tamanho era o quadro de penúria reinante ali. Havia ainda o medo e a certeza de que dificilmente escapariam da morte – como atestavam os elevados índices de mortalidade ali verificados. Dependendo da enfermidade, o doente já sabia de antemão que suas chances de sobrevivência seriam muito pequenas. Este foi o caso das vítimas da explosão do vapor Especuladora, ocorrida em 1844. Do total de 42 feridos queimados no acidente, nada menos que 39 faleceram nas primeiras 48 horas após a entrada na Santa Casa. As possibilidades de saírem vivas dali também não eram nada promissoras para as pessoas internadas com tuberculose. Segundo um relatório médico da época, dos 1.225 tuberculosos recolhidos na Santa Casa entre 1839 e 1841, nada menos do que 77,7% faleceram. O que mais espanta é que a grande maioria sucumbiu antes do primeiro mês de internação. Segundo os médicos que atuavam na Misericórdia, a voracidade com que a tísica consumia os doentes era explicada pelo fato de que a maioria deles só era internada depois de esgotadas todas as tentativas não-hospitalares de cura. Ao avaliar o índice de mortalidade apresentado pelo resumo estatístico da Clínica de Cirurgia da Faculdade de Medicina relativo ao ano de 1844, o doutor Roberto Jorge Haddock Lobo comentou que “... é só no último recurso que os doentes, de ordinário dominados pelo horror que erroneamente lhes inspira o hospital, se determinam a recolher-se a essa Pia Casa, tarde e a más horas”. Diante da dor, do isolamento e do receio de uma morte solitária, não é de se estranhar que a fuga de doentes dos hospitais fosse um fato corriqueiro, segundo as freqüentes denúncias feitas pelos médicos da época. O pavor inspirado pela Santa Casa era ainda mais acentuado pela expressiva quantidade de enterros diários que ocorriam no cemitério mantido pelo hospital. Reservado aos escravos e aos indigentes, o campo santo da Misericórdia sepultou no biênio 1838-1839 nada menos do que 3.194 pessoas! Não se pode deixar de sublinhar que números tão elevados alimentavam, e muito, a desconfiança dos cativos em relação aos médicos e aos hospitais. Levando em conta a opinião corrente sobre a relação entre doença e feitiço, a historiadora Mary Karash levantou a hipótese de que, para os africanos da cidade, a morte rápida no hospital poderia resultar da feitiçaria dos brancos contra sua gente. É bastante plausível supor que, entre a população escrava, os médicos pudessem ser identificados negativamente como “feiticeiros brancos”, sobretudo para os doentes recém-traficados, que, não raro, eram remetidos para a Santa Casa de Misericórdia, onde a grande maioria vinha a falecer. Se nos casos de doenças endêmicas a possibilidade de ter que ir a um hospital despertava pavor nas pessoas, o que dizer das épocas dos grandes surtos epidêmicos de cólera e de febre amarela, quando os índices de internação e de mortalidade atingiram níveis até então nunca vistos? Os próprios médicos reconheciam que, além de padecer de sofrimentos físicos desumanos, os enfermos ainda tinham de enfrentar o desconforto das acomodações oferecidas pelas instituições e pelas enfermarias improvisadas na cidade. Nessas ocasiões, os hospitais geralmente ficavam abarrotados com pessoas que tombavam doentes pelas ruas ou com marinheiros em trânsito, recolhidos pelas Comissões de Polícia Médica, sendo internados independentemente ou contra sua própria vontade. A voracidade com que as epidemias devoravam os adoentados reforçava a idéia do caráter súbito deste tipo de enfermidade. Dos vinte primeiros doentes de febre amarela tratados pelo doutor Roberto Lallemant, em 1850, nas enfermarias da Santa Casa de Misericórdia, quase todos morreram no prazo máximo de 48 horas após darem entrada no Hospital. O doutor José Pereira Rego era um dos que acreditavam na instantaneidade do ataque provocado pela cólera. Por ocasião do surto epidêmico ocorrido em 1855, o médico assegurava que pessoas saudáveis eram acometidas repentinamente pela doença e tombavam enfermas pelas ruas. Por conta dessa crença em seu caráter fulminante e da proporção tomada pela epidemia, notou que “o mal, apesar dos cuidados prodigalizados pelo governo, pela classe médica e pelos cidadãos encarregados de distribuir os socorros públicos, progredia em sua marcha destruidora, espalhando o terror e a consternação em todos os habitantes desta populosa cidade”. No imaginário popular do século XIX, era bastante difundida a crença de que as doenças tinham uma natureza sobre-humana, e eram associadas, por exemplo, à feitiçaria, à ação de um “mau-olhado” ou como conseqüência de um pecado. Sendo assim, a cura dos enfermos dependeria, em última instância, da vontade de Deus, e não dos remédios, pois a enfermidade seria um castigo divino ou fruto das artimanhas do demônio. Muitas pessoas buscavam a proteção ou o restabelecimento da saúde por meio das mais variadas práticas mágico-religiosas. Estes procedimentos eram uma complexa combinação entre o auxílio espiritual e a aplicação de diversas mezinhas domésticas (remédios caseiros), sangrias, ou de alguns “remédios secretos” – fartamente anunciados nos jornais da época e que prometiam tudo curar. Freqüentemente, a cura era atribuída a talismãs, objetos de devoção, sacramentos ou a interferências divinas da Virgem Maria ou dos santos – como atesta o relato do viajante Thomas Ewbank sobre a enorme quantidade de ex-votos depositados nas igrejas da cidade. Até meados do século XIX, os profissionais da medicina eram alvo de profunda desconfiança e de descrédito, posto que não gozavam de reconhecimento social suficiente para lhes assegurar o “monopólio da competência” na arte de curar. Afinal, no imaginário popular, as explicações para as origens das doenças e as possibilidades de cura passavam longe daquelas apresentadas pela ciência médica. Em lugar dos médicos, a maioria das pessoas costumava recorrer aos saberes práticos e ao poder espiritual atribuídos àqueles que tradicionalmente se dedicavam à arte de curar. Barbeiros, parteiras, boticários, benzedores e os famosos cirurgiões negros: todos estes se encontravam distantes da formação acadêmica em Medicina, tendo sido quase sempre desqualificados pelos médicos como “curandeiros” ou “charlatões”. Apesar de todo o poder e a influência conquistados aos poucos pelos médicos ao longo da segunda metade do século XIX, a resistência dos segmentos populares às novas concepções e práticas ditadas pela medicina permanecia muito grande, adentrando as primeiras décadas da República. Para os médicos, o grande problema a ser resolvido era a “ignorância” dos doentes, que insistiam em adiar ao máximo a entrada ou em fugir dos hospitais. Mas, para os pobres, era a própria internação que representava uma grande probabilidade de apressar o encontro fatal com uma indesejada morte solitária.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mad Maria: os trilhos do diabo

A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, construída no coração da floresta Amazônica entre 1907 e 1912, foi uma das mais ousadas obras da engenharia ferroviária em todos os tempos. Estendida por mais de 300 km, foi aberta em meio a incríveis dificuldades climáticas e sanitárias, comuns à selva tropical, para prover a Bolívia de uma saída comercial pelo Atlântico. Poucos anos depois da sua inauguração em 1912, com o declínio da extração da borracha, ela foi desativada, restando por lá algumas locomotivas e outros trastes ferroviários como testemunhas mudas do enorme esforço inútil despendido na construção daquela que foi chamada de Ferrovia do Diabo, ou simplesmente Mad Maria (Maria a louca) O isolamento da Bolívia A pobre Bolívia não é um lugar muito feliz de se viver. Encerrada em meio às altíssimas montanhas dos Andes, uma infeliz guerra contra o Chile privou-a do acesso ao Oceano Pacífico desde 1879. Do outro lado, da fronteira voltada para o Brasil, é a muralha da floresta Amazônica que a deixa ainda mais isolada. Não só isso, o único rio que poderia ser aproveitado por ela para alcançar o Atlântico, cortando a selva e desaguando no rio Amazonas, é o rio Madeira, conhecido pelas suas perigosas e intransponíveis cachoeiras. Foi Raposo Tavares, numa bandeira organizada em 1647 no interesse de El Rei, quem por primeiro chegou a percorrê-lo na totalidade. Navegar no alto Madeira, meter-se de canoa e carga nele, era suicídio. Duzentos anos depois do bandeirante, o engenheiro boliviano José Augustin Palácios, um entusiasta da saída pelo Atlântico, num relatório aprontado em 1846, apresentou como solução a construção de uma estrada que contornasse as quedas d’água da confluência Madeira-Mamoré, como se ainda fosse fácil enfrentar depois os 3.300 quilômetros restantes, as febres, e os índios que não davam trégua a ninguém. Na medição feita pelo engenheiro brasileiro Silva Coutinho, em 1861, da primeira à última cachoeira do rio Madeira, percorria-se 70 léguas (ou 462 km), algo que somente poderia transposto por uma estrada–de-ferro construída ao longo das margens (sugestão que também foi apresentada pelo general boliviano Quentin Quevedo). Passado o trajeto dos limites bolivianos até Porto Velho, o rio Madeira tornava-se apto à navegação. Impulso para a construção da madeira-mamoré Foi a Guerra do Paraguai (1864-1870) quem por igual convenceu o governo brasileiro a planejar algum tipo de saída amazônica para o estado do Mato Grosso, tão afastado do restante do pais como a Bolívia da América do Sul e do mundo. Todavia, tudo isso ficou letra morta até dar-se a explosão da borracha no final do século 19. Então, milhares de seringueiros vindo do Brasil invadiram aquelas selvas desertas que separavam a Estado do Amazonas da Bolívia. O Acre, área boliviana, encheu-se de caucheiros sangrando tudo o que viam pela frente. Parecia, por fim, que havia-se encontrado o tão lendário El Dorado, o tesouro no meio da floresta que pusera a perder Francisco Orellana e o celerado do Lopo de Aguirre, ainda no século 16. Portanto, evitada a guerra entre a Bolívia e o Brasil pelo controle do Acre (Tratado de Petrópolis de 1903), foram as exigência da nascente industria dos transportes, automóveis e caminhões, faminta pela borracha para fazer pneus, transformada num ouro negro, quem forçou a que a estrada-de-ferro sonhada antes por tantos tomasse forma pelas mãos de Percival Farquhar, um empreendedor norte-americano que fazia de tudo naquela época e que havia ganho a concessão do govenro brasileiro para a sua construção. Construindo a estrada A partir de 1907, aquela parte da região amazônica virou um formigueiro com mais de 3 mil trabalhadores vindos de todos os cantos do mundo. Até uma loja maçônica, a dos “Temporários”, fundou-se por lá. Vindas de Nova York, modernas máquinas à vapor foram instaladas para ajudar os trabalhadores na derrubada da paisagem paleozóica que cercava os trilhos da temerária e desabrida ferrovia que, segundo seus detratores “ ligava o nada a lugar nenhum”. A bexiga, a beribéri, a diarréia, a pneumonia, a malária e enxames de mosquitos os devastou. Eram os anti-corpos usados pela floresta para expelir os invasores. Metade dos médicos morreu ou adoeceu com gravidade. Pavorosas ainda eram as chuvas. As trombas d’água, uma a cada 24 horas, dissolvendo tudo, punham o trabalho de meses a perder. Partindo do cais de Porto Velho em direção à fronteira boliviana, o primeiro trecho de 90 km da estrada de ferro Madeira-Mamoré foi inaugurado em 1910. No ano seguinte a Madeira-Mamoré Company, controlada por Farquhar, importou mais de 5 mil braços para afundá-los nos igarapés e pântanos que cercavam os trilhos da ferrovia, já conhecida então como Mad Maria (“Maria louca”), como a imprensa estrangeira começou a referir-se a ela. No total dos quatros anos e meio que durou sua construção foram contratados 21.817 operários que se espalharam ao longo do trajeto, habitando ranchos de folhas de palmeiras ou precários galpões, tudo supervisionado por uma equipe de engenheiros americanos sob a liderança do superintendente Harry Meyer. Manoel Rodrigues Ferreira, engenheiro paulista, historiador e sertanista que escreveu o mais detalhado e confiável livro sobre a ferrovia (“A Ferrovia do Diabo”, 1962) assegura que a mortandade dos operários não foi tão elevada como espalharam na época. Na verdade, pelo menos pelos registros oficiais, os óbitos foram de 1.552, ou seja 7% do total de trabalhadores empregados na obra, bem longe dos propalados 6 mil mortos que disseram que ela provocara. Em 1º de agosto de 1912, com 366 km completados, finalmente a inauguraram, encerrando assim um dos maiores feitos da engenharia do nascente século 20. A outra grande obra que se fazia naquele momento era a abertura do Canal do Panamá, construção mastodônica que de certo modo ofuscou o da estrada de ferro Madeira-Mamoré. Naquele ano da sua inauguração a borracha correspondia a 39% das exportações brasileiras (equivalente a 60% da exportada no mundo inteiro). No ano seguinte, em 1913, Farquhar estava falido. Uns anos depois, superada os tormentos que o pagamento da ferrovia custou ao governo brasileiro (62 mil contos ou 28 toneladas de ouro), os trilhos que pareciam ser de ouro, com a estrada abandonada, viraram trilhos do diabo. A concorrência dos seringais do sudeste asiático e, depois, a invenção da borracha sintética, fizeram a extração amazonense entrar em crise definitiva. Tal como depois deu-se com Henry Ford (Fordlândia) e Daniel Ludwig (Projeto Jari), Percival Farquhar mediu forças com a floresta amazônica e perdeu. A Bolívia, enquanto isto continuou na mesma.

domingo, 7 de março de 2010

Pensamento da Semana

"Para os chineses 2009 foi o ano do BOI, 2010 é o ano do TIGRE. Felizes são aqueles que a cada ano trocam de animal. Nós estamos ha 7 anos com o mesmo JUMENTO e corremos o perigo de trocar e ficar 4 anos no mínimo com uma VACA VELHA."