"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo
que mutilá-lo."Carl Jung

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Napoleão, um legado polêmico

Enquanto escritores franceses como Balzac, que ‘desejava fazer com a pena o que Napoleão fizeram com a espada’, e Stendhal que revelara aberta e incondicional admiração pelo imperador, outros homens de letras europeus se dividiam frente a presença histórica e o legado de Bonaparte. Mesmo tendo a Alemanha sido invadida pelas forças francesas, a partir de 1806, filósofos como Hegel e Nietzsche mantiveram uma posição de admiração para com ele. Já os escritores russos, os dois gigantes da literatura nacional, Tolstoi e Dostoievski, cujo país por igual se viu atacado por Napoleão, em 1812, manifestaram profunda hostilidade ao papel desempenhado pelo general-conquistador no concerto europeu. O destino a cavalo O rumor estridente do tropel dos destacamentos a cavalo, seguidos pelas botas da infantaria batendo cadenciadas nas pedras das ruas da até então pacata cidade alemã de Iena, na Turingia, obrigou o filósofo Hegel interromper seus estudos e ir até o balcão da janela da sua casa. Espantou-se. No exato momento, era o próprio Napoleão quem passava montado num magnífico animal acompanhado pelo seu estado-maior para ir acampar na periferia da cidade. Naquele instante do dia de 9 de outubro de 1806, às vésperas de mais uma vitória do imperador frente aos prussianos do rei Frederico Guilherme III, sentiu a história marchando: Bonaparte era “o destino do mundo a cavalo”. Entendeu-o como “o último estágio da história, de nosso mundo, de nossa época”. A causa dele era nobre: o imperador dos franceses vinha tomar de assalto a “Bastilha da Alemanha”, a Prússia feudal, autocrática e antiiluminista. Exemplo disto foi a disposição dele em sepultar naquele mesmo mês e ano o Sacro Império Romano-Germano, o Iº Reich dos alemães, uma relíquia medieval dos tempos carolíngios que durava há 900 anos e não tinha mais nenhum a função no mundo moderno. Uns anos depois, quando professor catedrático da Universidade de Berlim (entre 1818 e 1831), quando o império de Bonaparte já se desfizera, ainda assim ele não deixou de ditar aos seus alunos nas suas famosas Lições sobre a Filosofia da História Universal as observações sobre a magnitude da presença do general nos acontecimentos mundiais. Comparando-o a César, imaginou-o a um gigante com seus saltos “esmagando muitas flores inocentes, destruindo pela força muitas coisas’, indiferente aos sofrimentos que causava, visto que quando se processam os grandes deslocamentos os ‘indivíduos são sacrificados e abandonados”. Ainda que sua conduta pudesse estar submetida à censura moral ele era a encarnação viva de uma outra etapa da história universal, era o novo estado, produto do Iluminismo, modelando a sociedade ao seu gosto. Era o mar violento das paixões desencadeadas pela Revolução Francesa de 1789, invadindo a pacata planície da Europa feudal e beata. As batalhas que travou nada mais eram do que as manifestações da paixão, tudo a serviço da Razão despertada pelos acontecimentos dramáticos que ocorreram em Paris desde que o povo daquela capital tomara de assalto a fortaleza do rei no histórico Quatorze de Julho. Ação e reflexão Envolvido pelo cotidiano da administração e absorvido pela guerra, era certo que o imperador não tinha consciência plena disto. Ele era “ação pura”, cabendo à filosofia alemã, vizinha da França, fazer a reflexão necessária. Hegel é quem tirava as conseqüências mais profundas do impacto causado por Napoleão na Europa e no Mundo. Era um Prometeu imbuído de uma missão extraordinária e não poderia deixar-se afetar por sentimentos comuns nem desviar-se dos confrontos que redundassem em sacrifício e morte: o destino dele era mudar o rumo da História. O herói de Nietzsche No final daquele mesmo século, em 1884 o filósofo Nietzsche recebeu a incumbência de uma amiga alemã de Roma para que estabelecesse um roteiro cultural para uma jovem doutoranda Resa Von Schirnofer, durante a curta estadia dela no sul da França. Levou-a para os altos do Monte Boron de onde, com sorte, poderia avistar-se a ilha de Córsega. Chegou a querer propor uma travessia até Ajaccio, a cidade em que Napoleão nascera para ver de perto o berço daquele que mais fizera para “ a transformação do homem num novo ser”. A peregrinação à ilha selvagem e remota fazia algum tempo que estava nos planos dele com o intento de visualizar o cenário original daquele que veio para executar a “transvaloração de todos os valores”, exemplo mais extremado da “vontade de poder”. Para ele, Napoleão amava o poder como um artista, uma alma aristocrática que brotara do caos da Revolução de 1789 – primeira rebelião dos escravos nos tempos modernos - capaz de modelar o mundo ao seu gosto e poder. O seu espírito nobre e sua vontade férrea domara as paixões das massas ressentidas que explodira no Terror de 1793, canalizando-as para a consolidação de um Império Europeu. Numa sociedade dominada pela mediocridade filistéia que se contentava na apologia ao homem comum, ordinário, a personalidade gigantesca do imperador, o herói dos heróis, anunciava o super-homem, figura emblemática da Zukunftphilosophie, da “filosofia do futuro” da qual Nietzsche sentia-se o principal arauto. Percebeu-o como “o europeu do futuro”, o estadista que podia enxergar acima dos limites dos estados-nacionais elevando-se até uma concepção de Europa Unificada e que antecipara outras personalidades cosmopolitas que lhe seguiram as pegadas: como Goethe, Beethoven, Stendhal, Heine e Schopenhauer. Napoleão era alguém de entendia a sociedade apenas como um “alicerce e andaime” que o serviam para que ele pudesse se erguer “até a sua missão superior” e também a “uma existência superior”, como se fosse uma planta gigantesca ávida de sol que usa a floresta ao seu redor para melhor expandir sua ramagem (Além do Bem e do Mal, §256-258). O gigante sem alma Leon Tolstoi, todavia, no Guerra e Paz ( 9ª parte, cap.II) descreveu-o no mesmo espírito de Hegel. Um Napoleão marmóreo, indiferente aos sofrimentos que provocava. Quando da invasão da Rússia em junho de 1812, da margem do rio Vístula assistiu com seu óculo apoiado no ombro de um pajem os ulanos poloneses, conduzidos por um coronel temerário, morrerem tragados com suas montarias, a quem se agarravam nas crinas desesperados, pela fria correnteza. Ainda que se afogando em morte horrível, davam vivas ao general sem que isso arrancasse dele qualquer expressão de compaixão. Para Tolstoi, Napoleão não era grande mas simplesmente inumano. Quem teria sido o responsável por aquela imensa invasão do solo russo, a colossal invasão do Ocidente das estepes do Oriente? A quem apontar o dedo acusatório para todas aquelas desgraças que se seguiram, os massacres, os roubos, as pilhagens, os incêndios devastadores, as vidas destruídas e as demais humilhações que os homens se infringem durante uma a guerra, senão que para Napoleão? Estimulo ao direito ao crime Dostoievski, um outro escritor russo, percebeu o efeito causado por Napoleão por um outro ângulo. Não como o maléfico arquiteto da destruição do Império dos Czares mas acima de tudo como um perigoso exemplo para a juventude niilista. Um homem daquele porte ostensivamente se colocara acima do bem e do mal, seu código era o das águias. O personagem dele na sua famosa novela Crime e Castigo (3ª parte , cap.V), o jovem Rodion Raskólhnikov, estudante pobre e atormentado, imbuído da idéia de que o ser excepcional, e por conseguinte fora dos quadros da lei, poderia ousar tudo. Inclusive ter o Direito ao Crime, como expôs num artigo de um jornal de São Petersburgo. De certa forma, para ele, os legisladores do passado (Licurgo, Sólon, Maomé, Napoleão), por si só já eram algum tipo de criminoso na medida em que abruptamente anulavam todas as normas anteriores a eles, e nenhum deles se deteve quando foi preciso derramar sangue para fazer vingar o novo. Eles “destroem o presente em nome de qualquer coisa melhor”. Assim sendo, ainda que o vulgo muitas vezes os condene, no universo da subjetividade deles, num exame de consciência os homens de gênio, os grandes inovadores, se auto-absolvem. A violência que desencadearam com suas ações e medidas terminarão a longo prazo sendo vista como necessárias e construtivas, fazendo com que os rigores que eles se auto-permitiram, “de saltarem sobre o sangue”, se visse historicamente plenamente sacramentada. Percebendo-se um ser extraordinário, um Napoleão em escala menor, Raskólhnikov engendra um crime. Assaltar e matar uma velha usurária, “um piolho”, como a classificou, para roubar-lhe os bens e com isso ajudar a sua família. Mas não era somente isto que ele buscava. Tratava-se de um assassinato-tese. A grande prova era suportar com todas as forças as imagens do crime, o peso que a culpa cobrava do homicida. Para Raskólhnikov o homem excepcional não sentiria nada, crime algum o abalaria pois ele estava acima do bem e do mal. Para Dostoievski este fora o pior exemplo que o legado de Bonaparte deixava para a juventude em geral: a possibilidade da impossibilidade. O desejo de ação sem cuidado ou reparação moral de qualquer tipo. Todo o movimento revolucionário que tomou corpo na Rússia do século XIX de certo modo era para Dostoievski tributário do perigoso exemplo de Napoleão, fazendo com que qualquer jovem narodniki (integrante do movimento terrorista russo) se sentisse com possibilidade de mudar o mundo como Bonaparte fizera no seu tempo, derrubando tronos ou humilhando os reis e príncipes.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Educação e novas tecnologias: Um repensar

A tecnologia na escola: Novo saber, para poder intervir. A tecnologia entrou na educação como algo revolucionário, desejado por muitos e temido por outros tantos. Porém, se a tecnologia for utilizada na escola por professores preparados, conscientes de que não basta somente ter computadores e sim saber integrá-los nos processos curriculares, desta forma contribuirá de maneira significativa para o avanço na educação, que terá em suas mãos a oportunidade de formar indivíduos com capacidade de agir, planejar e executar. Por outro lado, se os computadores ou outro equipamento tecnológico for posto em um pedestal, neutralizando espaço antes utilizado a atividades educativas, tendo seu uso restrito, trancado como jóia de alto valor ou ficando o educador como mero executor de pacotes de software, trará grande prejuízo ao processo ensino aprendizagem. Cabe a todos o planejar, a necessidade real de equipamentos e após discussão que deve ser contínua sobre o uso e formas de interagir no espaço educacional decidir qual o melhor momento para a aquisição de equipamentos tecnológicos e diversas formas de utilização. No meio de tantos pontos a serem levados em consideração um merece destaque que é o principal ator de toda essa discussão: o aluno, que em muitos casos é tratado como um mero recebedor, que a recebe como certa, perfeita, verdade absoluta. Não podemos deixar de reconhecer que enquanto profissionais temos uma grande parcela de culpa por estes acontecimentos. Mas, devemos levar em consideração também outro fator de suma importância: a formação dos professores para atuar como educadores, que necessitam de um suporte que ultrapassa os limites da escola. Como atuar com eficiência e eficácia, se muitos vivem a triste realidade de uma jornada escrava, com baixa remuneração, além da falta de compromisso com a pesquisa, e outros fatores, que não favorece o processo ensino aprendizagem? Tudo agora é um grande repensar. Repensar as práticas, os danos, o que ainda pode ser feito com os educandos que estão sendo formados por nós?. Quantos questionamentos nos são postos e outros acrescentados. Questionamentos necessários 1- De que forma meu aluno está se apropriando da tecnologia? 2- Onde? Como ele recebe informação? 3- Que mundo está chegando aos alunos? 4- Está preparado para assistir aos programas de forma critica? 5- Que mundo está chegando aos professores? 6- O professor deve inserir conteúdos da mídia em suas aulas? 7- De que forma o educador está se preparando para lidar com o educando com tanta informação? 8- O que fazer quanto se sabe que em muitos casos o educando está mais preparado que o educador? 9- O Educador está preparado para promover a aprendizagem, competências e sabe os procedimentos para conduzir o educando a utilizar as tecnologias de informação e comunicação de forma correta? 10- Compreende a historia da informática e linkar com o momento atual? 11- Que cidadão se quer formar? 12- Qual o papel da escola? 13- O computador está a serviço da humanidade ou a humanidade está a serviço do computador? Mudança, a ignorância não é mais desculpa para os mesmos erros. Práticas iguais, resultados iguais. Vivemos momentos de transformação. Como tudo começou! No momento em que necessitamos saber o que temos e o quanto queremos, e de contas com os dedos avançamos para as pedras, calculadoras, giz, retroprojetor, computadores com seus softwares com tutoriais, simuladores, jogos educativos, linguagem de programação, internet e não paramos mais. Mais necessidades, mais tecnologias. Passamos do simples, fomos para o complexo e hoje estamos no intuitivo complexo e continuamos avançando, fazendo e refazendo o caminho de formas diferentes. Derrubando muros, construindo outros, expandido o saber a quem queira, criando até novas classes. Cabe a nós como educadores utilizar de forma adequada a tecnologia para maximizar o potencial da educação enquanto instrumento de transformação da sociedade.

domingo, 8 de novembro de 2009

O REGRESSO (AUTOR DESCONHECIDO)

Tinha acabado a guerra, e Deus, lá nas alturas, cercado de astros de ouro e pulcros querubins ouviu sons marciais, fanfarras e clarins, e um ardente vozear de humanas criaturas. “Que rumor – perguntou perturba assim o ar?" - “Senhor lhe diz alguém da corte celestial - os bravos vencedores da Guerra Mundial, sob o Arco do Triunfo estão a desfilar. "Na célica mansão um sussurro se expande, e a densa legião de almas plenas de graça acorre curiosa e se debruça e esvoaça, para melhor distinguir a marcha heróica, grande! Então o bom S. Pedro, o santo venerando, que por mando divino é dos céus o porteiro, gritou: "Chamai Flambeau, o esperto granadeiro, para explicar o que se for passando. "Flambeau, que combateu e foi dos mais ousados, acerca se atencioso, observa por momentos e informa: "Vão ali famosos regimentos, a glória militar, indômitos soldados!... "Cavaleiros, então, avançam com ardor, e ele anunciou: "Desfilam os dragões!..." Estremecem no céu os áureos portões, que a voz do povo era um estrídulo clamor. “Mas isto nada é...", disse Flambeau atento. “Olhai a Artilharia!..." Em enorme alarido, reboam saudações qual ciclone enfurecido, ascendendo em rajada até ao firmamento. E Flambeau continua: "Isto ainda não é nada! Vereis melhor Senhor... Eis os aviadores!..." Revougam pelo espaço os potentes motores, a ponto tal que a voz do povo é sufocada. Flambeau proclama com enlevo! "Os Marinheiros..."Desta vez o entusiasmo os mundos excedeu e cativado, o sol, palmas de ouro abateu sobre os rijos heróis, que foram dos primeiros." Agora, Senhor meu - disse Flambeau ovante - Vereis quando passar a nobre Infantaria... Tenho medo que o sol estoure e finde o dia e a noite eterna envolva a Terra num instante. Serão aclamações estrondosas, torrenciais, Vibrarão no azul qual doida a trovoada, ver-se-á a multidão frenética, entusiasmada, delírio igual jamais se viu, jamais. "Surgiram a seguir os homens das trincheiras, alpinos, caçadores e toda a infantaria. Nas suas expressões claramente se lia o martírio sofrido e angústias e canseiras. Quando o canhão, rugindo, a morte semeava, impávidos, no posto, assim permaneciam... Era uma corte altiva, os tantos que ali iam, um grande, imenso, mar de heróis que ali passava às quentes saudações que a multidão soltou. Silêncio se seguiu, silêncio e nada mais. O espanto avassalou as regiões siderais. E Flambeau, indignado, agreste se expressou:-“Assim os recebeis, ó crua, ingrata gente?! Por vós riram da morte e a fome desdenharam, cansados de sofrer jamais o confessaram, são de aço os quais ali vão, tropa digna, valente! Deveis-lhe orgulho, sim, a graça de viver, e, em vez de os abraçar, calai-vos? Mal andais. Franceses, ouvi bem: Sois rudes, sois brutais, tamanha ingratidão não tem razão de ser." Mas mal termina a frase, olhando a Terra, fica possuído de orgulho, o coração em festa... Os Infantes, semi-deuses, heróis em gesta, que a luz do sol poente envolve e magnifica, marcham eretos, viris, o olhar altivo e ousado... Fremente, perturbada, a imensa multidão, por um alto mandato ou estranha inspiração, havia ajoelhado...

LEMBRAI-VOS DA GUERRA (AUTOR DESCONHECIDO)

Imensa formação de brancas cruzes, Desfile mortuário de fantasmas, Exótico mercado de miasmas, Exposição de ossadas e de urzes... Calado e mudo queda-se o canhão, Apenas trevas cobrem a amplidão, Do que outrora foi um campo batalha... Calada e muda queda-se a metralha, É morta na garganta a voz do obus, O sabre traiçoeiro não mais reluz Dilacerando, ensanguentado a terra... A paz voltou, é terminada a guerra. Os heróis já tombaram das alturas, covardes, bravos jazem olvidados, Seus feitos aos livros relegados, Nada mais resta, apenas sepulturas. E eu? Quem sou? Perguntam... eu, quem sou? Pois bem, eu lhes direi: sou um soldado, Igual a qualquer outro que avançou, combateu, foi derrubado. Cruzes iguais... Terrivelmente iguais... Exército que cresce mais e mais, No festim diabólico da morte. Aqui jaz o covarde. Ali o forte. Aqui dorme um estranho. Ali estou eu... Mas ninguém sabe como ele morreu... Não se lembram do campo de batalha, Nunca ouviram o riso da metralha... Não sentiram tremer o corpo inteiro ao rugido terrível do morteiro... Não viram a cor dos olhos do inimigo. Não sentiram o medo do perigo, Que nos faz desejar a morte breve. Nunca sonharam. Nunca, nem de leve. Mas... Nem todos se esqueceram do soldado Que está longe, muito longe sepultado... oh minha mãe, se tu soubesses Que tua imagem adornei com flores, Que tuas flores foram minhas preces, Preces colhidas no jardim das dores... oh mãe, se te contasse O medo que senti sem teu carinho, Um medo horrivel de morrer sozinho. Medo mesmo que o medo me matasse... Mas deixei meu abrigo e avancei Julgando ver a morte a cada passo ouvindo o sibilar de um estilhaço... Parei... Pensei em ti... Continuei... Minha querida mãe, se te dissesse Que quando derrubou-me uma granada jogando-me por terra ensanguentado, Foi por ti que chamei desesperado. Por um momento deixei de ser soldado E fui novamente uma criança Sentindo na morte a esperança De ainda adormecer no teu regaço. Mamãe, matou-me um estilhaço... Minha querida noiva, por que choras? Relembras certamente as boas horas Que passamos juntos. Só nós dois... Íamos casar. Lembra? E depois... E depois uma casa retirada. Com cortinas nas janelas enfeitadas, Tu me esperando... eu vindo do quartel... A nossa casa um pequenino céu, Aberto para a vinda de um herdeiro... mas, meu sonho, foi meu sonho derradeiro, o de beijar-te antes de morrer. Mas ante o golpe frio da granada, Beijei apenas terra ensangüentada. Mamãe, minha noiva, aqui se encerra Uma história de sangue, esta é a Guerra. Não chorem. Tudo agora é terminado Rápido como coisa de soldado... Mas mamãe... Se novamente a pobre humanidade Mais uma vez em busca da verdade Rufar os seus tambores sobre a Terra Anunciando o sangue de outra guerra, e mais um filho a Pátria te exigir, Sem lágrimas mamãe, deixe-o ir... Embora te destrua o coração, Ainda que te alquebre a agonia Deixa-o ir mamãe, Mas peça a esse irmão, Para que seja também de INFANTARIA !!!!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Kant, Renato Russo e o fato da razão

A questão de se existe ou não liberdade é fundamental para se pensar a ética. Se o homem não é livre para agir, não pode ser responsável por sua ação. Se não existe liberdade ninguém pode ser considerado criminoso. Com isso, cria-se a "ética dos coitadinhos" que diz que a culpa pelas coisas que não estão certas não é de ninguém determinado, nem de todos em conjunto: o culpado é o "sistema", o impessoal. Seguindo esse discurso as pessoas podem reivindicar para si todos os direitos sem carregar consigo nenhum dever: afinal, "todo mundo quer tirar vantagem em tudo', e, por conseqüência, ninguém quer ser responsável por nada. Acontece que, como percebeu Kant, a liberdade não é um fato exterior, é sim, um fato (feito) da razão: o homem pode prescrever para ele mesmo regras de conduta, ante as quais ele mesmo é legislador e executor. Ou seja: quem se obriga a si mesmo é livre para se desobrigar. Isso acontece na prática: quem assume um compromisso perante consigo mesmo não esta comprometido com ninguém: então é livre (ou "você não pode jogar essa folha longe e esquecer esse texto?", ou "você não é livre para escolher isso?"). Essa idéia foi reafirmada na letra da música Há Tempos da Legião Urbana, nela Renato Russo diz: "disciplina é liberdade". Falar em disciplina como sinônimo de liberdade pode ser visto como algo fascista, mas Russo explicou sua posição em entrevista: "eu estou falando de autodisciplina. Se você pensar numa relação sujeito/objeto é fascista, mas numa relação sujeito-sujeito, não é. Não é: "eu vou disciplinar você". A natureza é disciplinada. Eu preciso de muita disciplina! Fica tão bonito escrito "Disciplina é liberdade". E é uma inversão do double think do 1984: "Liberdade é escravidão", "Ignorância é força". Se você tiver um conceito legal de liberdade, imediatamente surge uma idéia positiva." Se "disciplina é liberdade", o homem é livre e responsável por suas ações. Disso pode deduzir que para viver em grupo deve agir como se sua ação pudesse ser comum a todos os demais, ou seja, seguir a regra do senso comum de "não fazer aos outros o que você não quer que seja feito a você". Kant não pensava numa sociedade de anjos: regras são necessárias mesmo em uma sociedade de demônios. Os homens são racionais, livres e responsáveis pelo seu agir (ou não agir). O Estado, a televisão, "o sistema", não são sozinhos os culpados pelos problemas sociais, afinal, a sociedade é feita também de homens individualmente responsáveis. Como diria Ortega y Gasset: "eu sou eu e minhas circunstancias, se não me salvo a elas não me salvo a mim mesmo", ou seja, o homem esta sempre imerso em circunstãncias que não escolheu, mas pode decidir entre lidar com elas ou se deixar levar pela correnteza, como uma bóia jogada no rio. Pode decidir compreender sua circunstancia, sua responsabilidade e sua liberdade ou cantar o samba do "deixa a vida me levar". O fato é que você (também ) decide.

sábado, 17 de outubro de 2009

Leonardo da Vinci e o Homem Vitruviano

Leonardo da Vinci nasceu em Vinci, aldeia perto de Florença na Itália, em 15 de abril de 1452, filho do tabelião Piero com a jovem Catarina. Um dos maiores gênios de todos os tempos, principal personalidade da renascença foi u m mestre da pintura com apenas poucas telas, sendo que os únicos quadros que lhe podem ser destinados com toda exclusividade são: a Mona Lisa (o mais reproduzido na história da arte) e A Ceia ou O Cenáculo (nenhum episódio sacro havia sido apresentado tão próximo e tão real) . Foi, além de mestre da pintura, arquiteto, mecânico, urbanista, engenheiro, químico, escultor, botânico, geólogo, cartógrafo, físico; precursor da aviação, da balística, da hidráulica; inventor do escafandro, pára-quedas, isqueiro, pintor. Leonardo da Vinci foi o talento mais versátil da Itália do Renascimento. Aos 16anos já desenhava e pintava, e foi para Florença (naquela época, cidade de grande prestígio e de muitas glorias) para trabalhar no ateliê de Andrea del Verrocchio. De cabelos louros, olhos azuis, nariz aquilino, de uma incomparável beleza física, Leonardo teria sido o modelo para o Davi, de Verrocchio. Sendo que, pelo que tudo indica, Verrocchio exerceu sobre Leonardo intensa influência, embora pequena no campo artístico, bastante acentuada no universo intelectual. Aos 30 anos, em 1482, segue para Milão, deixando incompletas duas obras de pintura: Adoração dos Magos e São Jerônimo, em Florença. Ao que tudo encaminha as pesquisas feitas, um dos pastores da Adoração é o seu auto-retrato aos 22 anos. Porém encanta os críticos as suas pinturas inacabadas, pois ao contemplá-las vêem a obra de arte no ato da sua criação. Em Milão , como urbanista, fez um projeto completo para a cidade, eliminando muros, alinhando ruas, prevendo esgotos, vias de dois pavimentos em que os pedestres andariam por cima, deixando a pista embaixo livre para veículos. As casas seriam amplas e ventiladas, e haveria enormes praças e jardins públicos. O quadro A Virgem dos Rochedos é dessa época, sendo a primeira criação de Leonardo conhecida, existindo duas versões dessa obra, uma no Museu do Louvre e a outra, possivelmente posterior, na Galeria Nacional de Londres. Para Leonardo da Vinci nos vulcões está a residência da vida, o oceano em torno dos mares é um lago de sangue em volta do coração. O Homem Vitruviano ( 1492), desenho de Leonardo, das proporções da forma humana, baseia-se em uma célebre passagem do arquiteto romano Vitruvius, em que ele expõe como a figura humana deitada de barriga para cima com as mãos e pernas abertas poderia ser rodeada tendo o umbigo como centro do círculo. Ele aconselha ainda que a figura pode também estar contida precisamente dentro de um quadrado. A cabeça é avaliada como sendo um décimo da altura total. Na obra de arte A Ceia ou O Cenáculo (que foi uma criação de três anos de trabalho, de 1495 a 1497), Leonardo cristaliza na tela o momento em que Cristo anuncia haver um traidor entre os presentes. Foi executada numa parede do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, com mais de 9 metros de comprimento e 4 metros e 20 centímetros de altura. Essas criações estão em Milão, no Louvre, em Windsor, na Academia de Veneza e na Albertina de Viena. Mais tarde, Francesco del Giocondo, um rico florentino, encomendou a Leonardo um retrato de sua mulher, Mona Lisa. Porém em quatro anos a obra de arte não estava terminada. Existe, aí o grande questionamento: quem é a dama do quadro? A mulher de Giocondo? O retrato de uma jovem de 26 anos? Ou o atraente sorriso é de um jovem, travestido? Existe uma qualidade luminosa subjacente quase sombria, tanto no retrato quanto na paisagem que compõe o fundo, que revela ao mesmo tempo em que esconde. Mona Lisa del Giocondo se tornou o quadro mais célebre da pintura ocidental, sem sombra de dúvida. Hoje está no Louvre, como principal atração turística. Em 1503, foi convidado a criar “Santana Virgem e o Menino”, e só em 1510 deu por terminado, ainda assim sem alguns pormenores. Em 1516 deixa definitivamente a Itália. No mês de abril de 1519 ficou acamado, tendo em sua volta três quadros: a Mona Lisa del Giocondo; Santana, a Virgem e o Menino e o São João Batista, que possivelmente pintou em Roma como sua última obra. Leonardo estudou intensamente a anatomia humana e foi incriminado de dissecar cadáveres para estudar e descobrir o modo como tínhamos sido concebidos por Deus (dissecou mais de trinta cadáveres, explorando os segredos do corpo humano; foi um dos primeiros a se aprofundar nos mistérios do crescimento da criança no ventre materno) . Era uma ação criminosa no período. Apesar de ser proibido de fazer isso, os seus registros persistem até hoje e mostram uma rigorosidade que impressiona e que só foi aceitável porque o artista era também um homem observador, característica própria de um cientista, através do uso de um talento inegável. É dele a célebre frase: "O conhecimento torna a alma jovem e diminui a amargura da velhice. Colhe, pois, a sabedoria. Armazena suavidade para o amanhã". Em 2 de maio de 1519, Leonardo morreu em Cloux.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Vitória de Samotrácia

Quem já não sonhou em sentir-se totalmente livre? Em singrar os mares sentindo-se parte de um mundo que não conhece fronteiras? Liberdade, vento, mar... quando vi a escultura de Vitória de Samotrácia, que se encontra no Museu do Louvre, em Paris, compreendi o que deve ter sentido o curador do museu ao escolher aquela localização para exibir a escultura, ou seja, no alto de uma escada, de onde se tem a sensação de que essa vai alçar vôo, ou de que o vento está soprando e tocando suas vestes molhadas; acredita-se que esta escultura representava uma figura de proa, utilizada nos navios para afastar os perigos dos mares bravios e assegurar vitórias nas guerras. Apaixonei-me, naquele momento, pelo período helenístico, pois representa a liberdade cultural expressa de várias maneiras: artes, literatura, etc. retornarei no tempo para que acompanhem essa parte da história e sintam o que Byron sentiu ao dizer "Somos todos gregos"! A morte inesperada de Alexandre, o Grande, na Babilônia, no verão de 323 A.C., aconteceu antes que ele estabelecesse uma organização político-administrativa consistente para os territórios por ele conquistados. Perdiccas, homem de confiança e general do exército de Alexandre, procurou manter o império unido, porém, após sua morte em 321 A.C., o império foi dividido em três grandes reinos governados pelos macedônios: os Ptolomeus, cujo legado incluía o Egito, Palestina, Líbia e Chipre; os Seleucos, cujos territórios se estendiam do Mediterrâneo até as fronteiras da Índia, e os Antígonos, na Macedônia e norte da Grécia. Assim, do Mediterrâneo até as fronteiras da Índia, a cultura grega dominava e qualquer viajante que percorresse longas distâncias poderia observar que o Koiné se tornara o idioma comum a todos os povos, ou seja, a Grécia triunfou pela sua cultura, a qual difundiu e universalizou. Alexandre foi um herói para alguns, tirano e conquistador para outros mas, inegavelmente, o homem que possibilitou que o Helenismo, cultura que se desenvolveu fora da Grécia, mas sob influência do espírito grego, e que marcou a transição da civilização grega para a romana (31 A.C), se tornasse um dos períodos mais criativos da história grega e, também, um marco na história da Eurásia antiga. Alexandria, que fora fundada no Egito, por Alexandre, com 500.000 habitantes, tornou-se a metrópole da civilização helenística. Foi um importante centro das artes e das letras, e lá se estabeleceram as mais importantes instituições culturais desta civilização. Em relação ao pensamento filosófico, este evoluiu para o Epicurismo, corrente que pregava o prazer acima de tudo, e o Estoicismo, corrente que louvava a alma e os valores espirituais, e que dominou devido a expansão do Cristianismo. Na literatura, a figura exponencial foi Teocritus, cujas poesias idílicas exerceram grande influência; nas artes, recebemos legados tais como a Vênus de Milo, Vitória de Samotrácia, entre outras. Com o domínio de Roma, o Helenismo passou a representar a resistência à nova religião, pois este período fora caracterizado pelo sincretismo religioso; mas não podemos falar que o espírito grego morreu pois, nos séculos XV e XVI, despertou durante o Renascimento.